Ambientalistas contra a construção de mais barragens em Portugal

O Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente contraria o presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis e diz que não há sustentação científica para a construção de mais barragens no país.

O Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA) contrariou, esta quinta-feira, as declarações do presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN) e assegura que não há qualquer necessidade de investir na construção de mais barragens no país. O GEOTA afirma, ainda no seu comunicado, que a insistência na construção de barragens carece de sustentação científica, para além de ignorar “completamente as consequências das Alterações Climáticas”.

Em causa estão as declarações do presidente da APREN, feitas esta quarta-feira, durante a conferência anual da associação, onde afirmou que, “se temos um clima semi-desértico, e se queremos água no verão na estação seca, precisamos de barragens. Queixamo-nos que há seca, dos incêndios, que não há água para beber, para regar, ou para apagar fogos. Mas a única forma de armazenar água são as barragens“. António Sá da Costa acrescentou ainda que “nós preocupamo-nos com o lobo ibérico, com o morcego, e não nos preocupamos com o homo sapiens lusitano. Se não preservamos o homo sapiens lusitano ninguém mais nos vem defender”. As palavras do presidente da APREN são, na visão dos ambientalistas, “irresponsáveis e populistas” .

O grupo ambientalista sustenta a sua posição com dados do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) sobre as condições climáticas actuais e futuras do país, que apontam para uma redução e maior variabilidade de precipitação. Para além disso, recorda que, ainda de acordo com o IPMA, Setembro foi o mês mais seco dos últimos 87 anos em Portugal Continental e que a 30 de setembro o instituto notificou que 81 % do território estava em seca severa, 7 % em seca extrema. O ano hidrológico passado, que começou a 1 de outubro de 2016 e acabou a 30 de setembro de 2017, foi o 9º mais baixo, desde 1931, em termos de precipitação.

O GEOTA cita também as projecções dos cientistas do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), organização criada pela ONU, que prevêm que, até 2050, a produção hidroelétrica diminua em todas as sub-regiões europeias, à exceção da Escandinávia, alcançando até menos 15% no sul da Europa.

O dirigente do grupo de estudos, João Joanaz de Melo, acredita que deveriam ser promovidas outras formas de produção de energia, “como a solar, a par de um maior esforço em matéria de eficiência energética, que é a abordagem mais barata e com efeitos mais positivos no emprego e no ambiente”. “Não podemos ficar reféns da electricidade produzida em barragens”, acrescenta.

A coordenadora do projeto Rios Livres, Ana Brazão, pede racionalidade, afirma que os recursos são finitos e lembra que, de acordo com a Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos, em 2015, cerca de 30% de toda água da rede que abastece as habitações perdeu-se antes mesmo de chegar às torneiras.

Ana Brazão acrescenta que para combater a seca não preciso mais barragens, tendo em conta o atual cenário de alterações climáticas, e explica que “as barragens, em países como Portugal, não aumentam a resiliência às alterações climáticas. Os índices de evaporação em albufeiras são significativos”.

O dirigente do GEOTA recorda também os conflitos mais recentes com novas barragens, que envolveram os rios Sabor, Tua e Tâmega, e onde “nem as pessoas nem a Natureza foram defendidas”, e avisa que “a complexidade e impactes de uma barragem têm de submeter-se a legislação comunitária e nacional, em primeiro lugar, para defender as pessoas”.

Mais do que valores ecológicos, estas barragens estão a destruir valores culturais e ativos económicos. Quem mais perdeu nestes processos foram os habitantes humanos das regiões periféricas, abandonados pelo poder político-económico, espoliados do seu património e enganados com promessas vãs”, concluiu.

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