A Fábrica de Nada: 5 motivos para veres este filme

Mais um filme para a nossa colecção de cinema de crise.

2017 continua a ser um bom ano para o chamado cinema português de crise. Depois de São Jorge, o filme de Marco Martins que premiou o actor Nuno Lopes no festival da especialidade em Veneza, eis mais uma produção com uma mensagem socio-política relevante sobre Portugal, com a crise económica de 2015 como pano de fundo.

Entramos na sala do Cinema IDEAL, na baixa lisboeta. De repente, saímos de uma Lisboa congestionada pelo turismo e invadimos numa metrópole agitada pelos direitos laborais, que se define entre a capital e os subúrbios de Vila Franca de Xira – nomeadamente a Póvoa de Santa Iria, onde a crise deixou um rasto de fábricas fechadas e atirou pessoas para o desemprego. É esse o espaço que Pedro Pinho apresenta em A Fábrica de Nada, a sua primeira longa-metragem, já premiada em Cannes e que agora está finalmente em exibição em Portugal.

(Nota: este texto pode ser lido antes do visionamento do filme.)

1 – é uma reflexão sócio-política sobre Portugal

O contraste referido é pertinente. A Fábrica de Nada é uma reflexão política sobre a crise que já lá vai, sobre o mundo laboral, e sobre o capitalismo, o seu poder e seus efeitos. Sobre o valor do dinheiro, a influência familiar e social que este tem e o discurso politizado e politicamente correcto dos patrões, que dizem para “ver a crise como uma oportunidade”.

São cerca de três horas de filme (podiam ser menos), em que a história de uma fábrica de elevadores que deixa de ser rentável para a administração e dos trabalhadores que lutam pelos seus empregos é intercalada por uma narrativa ensaística, em que através de depoimentos, excertos aúdio de rádio ou personsagens de tom filosófico são debatidos os acontecimentos. Sem nunca tomar um partido firme, o filme deixa margem para a análise e interpretação do espectador. É uma reflexão aberta.

2 – é um drama misturado com documentário

A vida privada de um dos operários fabris, casado com uma esteticista de descendência brasileira, é a constante ao longo do filme e permite cruzar os eixos dramáticos e documentais do mesmo. Apesar disso o casal não ocupa muito relevo na narrativa, não se transformando num símbolo heróico ou de resistência. Esta relação de amor serve sobretudo para adensar os sentimentos e emoções, revelando o lado mais humano da situação vivida em fábricas.

A vida do casal é complementada pelas histórias das outras personagens, construídas a partir de recolhas que a equipa de argumentistas – Pedro Pinho, Luísa Homem, Leonor Noivo e Tiago Hespanha – fez em Póvoa de Santa Iria, e que também contribuem para o clima de tensão, deixando simultaneamente passar uma energia positiva invulgar. É que, apesar de a fábrica ter deixado de produzir de repente e das consequências que isso teria para a vida dos seus trabalhadores, estes conseguem unir-se para abraçar uma experiência de autogestão.

3 – tem um lado experimental muito bom

A Fábrica de Nada é um drama-documentário, mas a certo ponto a realidade que representa ou conta ultrapassa essa realidade. É como se Pedro Pinho tenha decidido fazer pequenas experiências no meio do filme, que podem causar alguma estranheza ao espectador mas que têm um propósito muito claro. É o caso do musical, em que, de repente, os operários da fábrica começam a movimentar-se de acordo com uma coreografia previamente ensaiada e a cantar.

Há todo um lado cómico em A Fábrica de Nada, algumas vezes mais evidente com referências como “Sovaco Silva”, outras vezes mais escondidas, como a imagem de um coelho esfolado.

4 – feito por não-actores

A Fábrica de Nada é baseado na peça de teatro L’Usine de Rien, da norueguesa Judith Herzberg, que foi encenada em 2008 por Jorge Silva Melo no Teatro de Almada. Parte dos actores que participaram na peça entram agora no filme, acompanhados por não-actores – trabalhadores reais que fazem deles próprios e acabam por trazer para o ecrã as suas experiências.

O filme é, aliás, dedicado à equipa da Fateleva, que entre 1975 e 2016 se encarregou de auto-gerir antiga fábrica de elevadores Otis, em Póvoa de Santa Iria.

5 – mostra-nos uma Lisboa diferente

A Lisboa que estamos habituada a ver no cinema ou na televisão não é a Lisboa que aparece neste A Fábrica de Nada. A câmara mostra-nos um ambiente fabril misturado com uma paisagem ribeirinha, onde é possível ver avestruzes ou jangadas em pleno Rio Tejo. Um ambiente que a auto-estrada não nos mostra e que muito provavelmente nunca imaginámos existir mesmo ao lado da capital. São raros os momentos em que entramos no ambiente de cidade e, quando acontece, o que vemos dela é muito pouco, graças aos planos curtos e repentinos.

O espaço onde decorre este A Fábrica de Nada é quase uma personagem ela própria – que ajuda a dar personalidade a todas as outras. É uma metrópole que sabemos que é Póvoa de Santa Iria, mas que ao mesmo tempo se define ao longo do filme.

(A Fábrica de Nada está nos cinemas portugueses, de norte a sul do país, com sessões especiais com a equipa do filme.)

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