Para a 25ª edição do Paredes de Coura preparámos uma reportagem diferente do que te habituámos em festivais. Sem o calculismo e sacrifício de uma tese de mestrado, com a emoção e intensidade de um post de Facebook. Porque queremos que sintas a dimensão emocional e social que um festival pode ter.

Deixámos de lado os puritanismos e os lamentos de que hoje em dia mal se liga as bandas na hora de comprar de bilhetes e entregámo-nos à descoberta. Analógica numa mão, algumas cervejas a passar pela outra. Espírito festivaleiro das 9h às 6h, da sombra nas margens do Tabuão ao sol nas costas naquela subida íngreme, do frio da água ao calor humano de cada noite e concerto. Aqui falamos de mais um episódio de “Game of Coura” – como nomeava a tarja pendurada na subida da colina – partimos à descoberta do Couraíso e de tudo o que a mística deste festival envolve. De fora fica apenas a subida à vila nos dias que antecedem a invasão do já mítico anfiteatro natural que entre 16 e 19 de Agosto recebeu mais uma edição plena de grandes momentos – alguns deles musicais mas não só.

Fotos de João Ribeiro e Guilherme Braz/Shifter

1º dia

O primeiro dia, tradicionalmente de recepção ao campista, começou cedo. Ainda se enterravam as últimas estacas e se saudavam os novos vizinhos e já se ouviam as primeiras guitarras da Escola do Rock, a que se seguiram os The Wedding Present. A grande enchente deu-se para ver o sol pôr-se ao som dos lendários Mão Morta, num concerto emotivo que até incluiu um Parabéns a Você dedicado ao festival. Seguiram-se os Beak> e a pausa para jantar, deu para aproveitar a recta final em grande banda britânica e aquecer para Future Island. Sam Hering igual a si próprio mandou foder a direita, literalmente, no arranque para um concerto enérgico e muito competente que teve “Seasons” como ponto alto. Seguiu-se Kate Tempest, nome estranho para uns, o maior desejo da noite para outros, que presenteou o anfiteatro com uma poetry slam irrepreensível com e sem beat. Uma actuação sem paragens nem para as palmas do público estupefacto que teve de esperar pelo final para as libertar.

2º dia

A primeira noite acabou cedo e a segunda manhã começou devagar, avizinhava-se a primeira de três noites a rasgar. A música até começou fora do festival com os Nothing a surpreender os campistas e a tocar mais baixo do que o habitual a meio da tarde. Tempo de subir à vila e à volta já os Sunflower Bean nos recebiam, seguidos dos You Can’t Win Charlie Brown com a alegria contagiante da sua música. Os sacrificados da noite foram os Car Seat Headrest da jovem sensação Will Toledo – um homem precisa de jantar – mas mesmo a acompanhar um prego, o concerto soube muito bem! Às 20h30 havia Timber Timbre e o grupo canadiano exigia estarmos a 100% – não desiludiram nem um bocadinho e deram o mote perfeito para King Krule. Tocou a escurecer e aproveitou o embalo para os primeiros momentos de isqueiro no ar e palmas a compasso do festival, “Easy” foi ponto alto. Lembram-se dos contrastes do primeiro parágrafo? Aqui vem mais um. Da calma de King Krule passámos para Ho99o9, em poucas palavras: uma carga de porrada de hip hop… ou do que lhe quiserem chamar. Nunca fui a nenhum mas houve momentos em que me senti num concerto dos Rage Against the Machine. Da euforia dos newcomers passámos para a loucura tradicional e quem melhor que os At The Drive In liderados pelo frenético Cedric Bixler-Zavala. 00h30 e uma barrigada de concertos. Chet Faker aliás, Nick Murphy teve que se esforçar e muito para vingar neste registo que ainda soa estranho. Desfilou no palco do paredes temas das suas duas vertentes à frente de uma banda que fez valer grande parte do concerto (alguém ouviu os seus nomes? Está mal, Nick, está mal…). Quem sofreu pela quebra de tensão ainda seguiu até ao palco secundário e viu que valeu a pena o esforço, Jambinai voltou a injectar adrenalina. Ouvimos relatos de quem tenha abandonado o saco de cama ainda na insónia para ir ouvir os sul coreanos a rockar com instrumentos marados (a sério, google it). Já não deu para mais – um homem precisa de dormir.

3º dia

Os dias já sabem como são e provavelmente nem queriam saber, vamos directos aos concertos – até porque no terceiro dia de festival a cabeça andou sempre em Badbadnotgood (fanboys confessos). A abrir não podíamos pedir melhor tónico do que Bruno Pernadas. Tocou e encantou com a companhia da sua habitual banda – nunca nos fartamos de Bruno Pernadas. Depois disso, ainda o Andy Shauf começava a entranhar e já os icónicos Young Fathers dominavam o palco principal. Para continuarmos na onda das descrições curtas: atitude e elegância são as palavras-chave para o hip hop deste trio escocês. Moon Duo teve de ser em pano de fundo enquanto nos posicionávamos para Badbadnotgood. Valeu o sacrifício para poder ver os canadianos nas primeiras filas. O recinto à pinha abanava ao ritmo do seu jazz e como Alexander Sowinski prenunciou a abrir “foi só flutuar”. Concerto impecável com a qualidade dos músicos a enfeitiçar um público mais habituado a cantorias. Perto do final ainda houve espaço para um momento festa do secundário com o público a acocorar-se todo a pedido da banda aliviando depois as articulações num moche completamente louco. Os Octa Push pegaram na belíssima vibe e não a deixaram acalmar, com a ajuda de alguns convidados. Até acrescentaram elementos vocais o que de certo modo fez a ponte para o momento que se seguia. O reencontro com os Japandroids. Reecontro por dois motivos: porque o auge da banda já passou e porque passaram por Portugal numa prestação mediana no Primavera Sound ainda este ano. Foi animado – o público deu uma ajuda – propício para o air guitar, acreditem. Mais um contraste completo com a seca que se seguiu. Calma, não estamos a falar de nenhuma banda mas do atraso de 45 minutos na subida ao palco dos Beach House e até podíamos dizer que o espectáculo compensou mas a verdade é que nem por isso pareceram mais entusiasmados ou se tornaram mais entusiasmantes. Foi morno, talvez aos 40. Red Axes a fechar obrigava à permanência – “opá é uma cena fixe, sempre a partir”, ou seja tudo o que se pede para destruir qualquer bocadinho de frustração. Assim foi mais uma noite.

4º dia

Último dia e damos por nós com energias vindas nem sabemos de onde. O gelo da água repõe a coesão muscular e repara qualquer microrutura e entorse. O último dia é sempre o último dia. E este começava com Manuel Cruz. O músico que paira sempre com um espirito especial sobre a música portuguesa tem tornado assíduas as aparições e tem disco novo para breve. O concerto foi, como outros, nostálgico e sentido. Manel Cruz é a imagem da sua performance: genuíno, sem t-shirt, de guitarra no coldro, ocasionalmente de megafone na mão.

Depois do português seguiram-se os Foxygen – uma banda absolutamente imperdível ao vivo. A noite desceu e o anfiteatro adensou-se para ouvir Benjamin Clementine que não surpreendeu mas emocionou, como sempre. Podíamos ouvi-lo 50 vezes seguidas que o seu timbre ecoaria sempre cá no fundo. Pés descalços, poupa levantada, olhar perdido, Clementine parece estar a viver um sonho e transporta-nos consigo.

Se Clementine irrigou os corações palpitantes, Ty Segall serviu para os sacudir. Não sendo um nome propriamente na berra, é sempre bom reencontrar o seu rock irreverente e lo-fi. Os artistas pediam proximidade e lá fomos ficando pelo palco principal até à chegada dos Foals. Um nome que parecia destoar no grau “alternativo” mas que soube e de que maneira obrigar à rendição todos os presentes! Findo o rock dos Foals, passagem para mais um momento dissonante. Throes + The Shine inauguravam o modo boda com a alegria do Kuduro a que se junta a energia da bateria e da guitarra em palco. Para Nuno Lopes não sobram palavras, nem grandes memórias, tocou das 5h às 9h, até ao sol ofuscar e isso diz tudo da sensação que se viveu entre público e artista.

 

Fotografias de: Guilherme Braz

 

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