Um outro 11 de Setembro

50 Cent e Kanye West ainda são de um tempo em que se vendiam álbuns.

Kanye West vs 50 Cent

“O Kanye vs 50 Cent foi de génio. Lembro-me de um gajo que conhecia ter vindo ter comigo na rua e perguntar quem tinha ganho, se 50 ou Kanye, como se fosse uma corrida presidencial ou algo do género”

O comentário é retirado deste vídeo que documenta a sessão fotográfica da capa da Rolling Stone que coloca 50 Cent e Kanye West frente a frente – uma das várias formas de promoção da feud entre dois dos mais relevantes rappers de 2007, ambos prestes a editar o terceiro disco. Outros episódios incluíram presenças em talk shows televisivos e a apresentação conjunta de um prémio nos MTV VMAs do mesmo ano – o mesmo da birra de West, após ter sido “derrotado” nos cinco prémios para o qual estava nomeado. Também foi aquela edição em que Britney abriu, após aquele ano negro que deu origem a estas canecas e a este viral.

50 Cent e Kanye ainda são de um tempo em que se vendiam álbuns: as estreias venderam perto de 20 milhões e quase 5 milhões, respectivamente. A indústria em decadência de vendas físicas dá aso à imaginação, uns com soluções mais rebuscadas e independentes, como os Radiohead, outros com recurso a truques antigos e, vá, fáceis, como este de inventar uma guerra de egos. Basta pensar no quão comum era no arranque da década reagir-se perante uma declaração mais polémica com um conclusivo “está a precisar de vender discos”.

Sou o King Kong. Kanye é humano. Os humanos fogem quando vêem King Kong, porque ficam assustados – 50 Cent

“Vamos elevar a fasquia: se Kanye West vender mais que 50 Cent, nunca mais gravo música.” A frase é de Curtis James Jackson, ele que para além de ter perdido a batalha e editado o pior dos discos, dá início à sua espiral descendente rumo à irrelevância. O fim da carreira nunca terá sido equacionado, mas é irónico que, para muitos, tenha sido o último trabalho do rapper de Queens a passar-lhes pelos ouvidos. É mais do mesmo, mas sem singles como “In da Club” e “Candy Shop”. Lembramo-nos de Curtis como algo anexo a um circo mediático, algo que não acontece com Graduation. Vendeu 691 mil cópias na primeiro semana.

As pessoas pensam que sou pretensioso… por causa do que digo… mas pensem só no que eu penso! – Kanye West

E quando Kanye West não era (bem) uma anedota? Certo, é subjectivo, e é verdade que a incontinência verbal já lá estava, algo que foi mostrando ao longo da promoção ao álbum. Mas ainda havia muito cartucho por gastar. É o terceiro grande álbum em três possíveis e, excepto algumas novidades electrónicas, o som pouco ou nada muda em relação aos exames anteriores. Hoje, 10 anos depois, podemos agradecer ao Genius e, no caso particular, a A-Trak por nos dar algumas luzes sobre o homem de “Stronger”, ele que terá confessado ao produtor não conhecer os Daft Punk. A-Trak também desmistifica aquela ideia de Kanye ser um profundo conhecedor de “rock branco” – “não, ele é só exímio a apanhar as coisas boas”. “Stronger”, “Good Life” e “Flashing Lights”, qualquer um destes singles isolados ofusca todos os de Curtis somados. Vendeu 957 mil cópias na 1ª semana.

Vitória clara para Kanye, sem necessidade de recurso ao vídeo-árbitro.

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