Jim Carrey volta a representar o papel que sabe melhor

Gotta love him.

Passou por várias fases na sua carreira que nós como espectadores acompanhámos em fases também diferentes da nossa vida. Nos anos 90, entrava-nos pela casa adentro nos filmes de domingo à tarde, fazia-nos rir com a sua capacidade de se levar pouco a sério mas pouco depois, pelo menos para os mais desatentos, pareceu ter desaparecido do mapa.

Certo é que abandonou os palcos e o grande ecrã por uns tempos, que lhe foi diagnosticada uma depressão grave e que se refugiou na pintura. Foi aliás essa a força impulsionadora do regresso à tona do actor há relativamente pouco tempo. O seu documentário “Jim Carrey: I Needed Color” foi lançado em Julho e correu as redes sociais. Não se sabe quando foi filmado mas nele, Carrey leva-nos a conhecer o seu estúdio de pintura e mostra-nos algumas das suas obras de arte, ao som de um discurso absolutamente inspirador sobre as suas motivações e o contexto em que começou a pintar.

“What you do in life chooses you, you can choose not to do it.”

O filósofo francês Emile Chartier disse na sua altura: “Gosto de supor que a obra de arte é o que provoca a salvação da alma pelo menos durante um instante.” Jim Carrey parece ter seguido a premissa e entregou-se à arte num momento mais difícil – diz inclusive que o ajudou a curar um coração partido – e de uma forma quase catártica. Diz que o que fazemos na vida escolhe-nos, mas podemos escolher não o fazer. Diz que tinha uma vida cinzenta e depressiva e que precisava de cor. Refere que a arte potencia um constante reencontro consigo mesmo, quando pinta hoje um quadro que só entende realmente daqui a um ano. O discurso é tão emocional e estimulante, relacionável em vários pontos, que te vai dar vontade de pensar, sentir e pintar o que pensa, sente e pinta Jim Carey.

Anteontem, o actor voltou a ser manchete. Aliás, a imprensa cor-de-rosa norte-americana tem-no perseguido desde a morte por suicídio da sua ex-namorada em 2015. Se Carrey sempre falou abertamente da sua luta contra a depressão e por isso sempre foi assunto para os media que fazem vida a falar da vida dos outros, facto é que há vários anos que se mantinha meio escondido. Recentemente voltou a aparecer publicamente – talvez por pressão de managers ou outros que tais – e a verdade é que se tem mantido fiel ao que sempre reconhecemos. Muitas vezes aparenta estar contrariado, outras não, até vai para gozar o prato e professar a sua sabedoria.

No passada quinta-feira, dia 9, Carrey juntou-se ao espectáculo “The Terms of My Surrender” que o realizador Michael Moore tem em cena na Broadway onde falou, franco e emocional, sobre as suas lutas pessoais de superação da dor e sobre como é viver sob o poder da Administração Trump.

“There’s a virtue in hopelessness. I’m not kidding. You’re off the hook and you don’t have to worry about what’s coming. ‘Okay, the world freaking ended. That’s great. Now what?'”

Infelizmente não há um vídeo disponível da actuação mas a transcrição feita pela revista que cobriu a peça nesse dia está repleta de pérolas úteis a qualquer pessoa, melhores que qualquer vídeo de auto-ajuda. Carey dá-nos uma sentida lição sobre aceitar a tristeza. Reconhece que inicialmente tentou ultrapassá-la com recurso a comida, sexo, barulho e gadgets até aprender realmente a aceitá-la: “We’re all so afraid of the river of tears. The fact is, going down the river of sorrow and suffering is the way to freedom (…) I’ve gone through it and I’m telling you, you don’t survive it. You don’t come out of it on the other side. You might come out of it with a body, but there’s no you attached to it. It’s tough to be yourself if you don’t have a self.”

Foto de: Bruce Glikas/Filmmagic

“Give up! Surrender to the idea that things are bad and yet still, from 3,000 feet up, we don’t matter (…) Things are happening and we’re going to happen along with them whether we like it or not. But we don’t matter. Once you lose yourself, you’re pretty okay. Just get you out of the way.”

Se no rescaldo da presença na Broadway já foi muita a especulação e os comentários sensacionalistas em torno do teor do seu discurso, a aparição num evento paralelo à Semana de Moda de Nova Iorque levou a uma onda generalizada de incompreensão. O vídeo da entrevista está por todo o lado, defendido por os que aplaudem o artista pela ousadia das suas palavras, criticado por outros que dizem que está visivelmente doente e perturbado. Deixamos ao teu critério:

Conheces a expressão “zero fucks to give”? Yep, a nós pareceu-nos isso. Uma chuva das suas ideias sobre o universo no geral, e aquele em particular. As suas observações são meio sombrias por vezes? São, e até admitimos que o momento seja bizarro e que a entrevista seja uma espécie de rant pouco coeso mas a questão é só uma: se é assim que Jim Carrey é, porquê ser diferente?

Como dissemos em cima, Carrey parece mesmo estar a aproveitar cada pergunta para demonstrar a sua frontalidade. Diz que procurou o evento mais “sem sentido” do mundo para ir, o que nos leva a querer que qualquer entrevista do actor tivesse corrido desta forma. Diz que nada daquilo faz sentido, que nós não importamos neste mundo, que não há Eu e remata dizendo que somos meros campos de energia. Chega a dar vontade de rir mas não dele, COM ele. Por ser genuíno e estar num estranho e invejável estado de contacto com os seus sentimentos e emoções.

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