Mais do que uma homenagem a BadBadNotGood

Uma lista de recomendações com base no quarteto fantástico BadBadNotGood.

BADBADNOTGOOD performs a Tiny Desk Concert on Jan. 4, 2017. (Claire Harbage/NPR)

Após ver o concerto de BadBadNotGood, no meio de uma onda de êxtase comecei a reflectir sobre o que representava um anfiteatro divinal, a rebentar pelas costuras, a ouvir e a venerar um grupo que muitas delas nunca ouviram. Mais do que isso, um público vidrado num concerto de Jazz, rendido por um quarteto de jovens canadianos na casa dos 25.

Sentei-me num monte de terra um pouco acima do chão, um pouco abaixo da zona VIP, puxei de um cigarro e fiquei a observar Alexander Sowinski, baterista e líder dos BBNG, enquanto o mesmo distribuía fotos, autógrafos, sorrisos e meia dúzia de palavras, a uma quantidade considerável de fãs de bloco na mão. A ânsia dos devotos foi-me transferida e, por momentos, fiquei com vontade de me dirigir à estrela do momento e pedir uma entrevista. Não aconteceu. Em vez disso, de volta ao cigarro, lembrei-me de um fenómeno similar com um grupo também ele sui generis, os System of a Down. A banda de Metal Alternativo que conquistou meio mundo com o single “BYOB”, foi também ela alvo de adoração por parte das camadas jovens. Projectos como os BBNG ou os SOAD são raros, a capacidade de direccionar os ouvidos das massas para nichos é uma mais valia, não só para eles, como também para os grupos que andam debaixo do mesmo radar. O alcance destes músicos de Jazz já era previsível, foi só uma questão de tempo até atingir Portugal.

O meu “exame de admissão” para entrar no Shifter consistiu em escrever sobre os BadBadNotGood, mais precisamente sobre o SOUR SOUL, colaboração com o lendário Ghostface Killah. Dissequei o disco num formato quase tão extenso como este que vos escrevo hoje. Já o tinha ouvido tantas vezes que as ideias não paravam de fluir. Senti quase que o escrevia da mesma forma que eles o tocavam. Nunca tinha escrito de forma tão séria sobre um disco, mas foi o suficiente para despertar uma vontade de divulgar trabalhos como este. Por isso, a continuação da minha escrita e, espero, da vossa leitura dedicar-se-à hoje a uma lista de grupos que podiam ter sido os Badbagnotgood nesta história.

A Nova Vaga

Este é um tópico que dá pano para mangas, mas onde o essencial a reter é: já está mais que dito e reafirmado, especialmente pelos gurus do Jazz, que esta geração de músicos está a trazer para o meio uma era de ouro, uma revitalização do género, criada por gente não só exímia na arte de musicar, mas ainda mais na arte de criar. Pegam em pedaços de influências, colam tudo e desconstroem. Estão surgir músicos com estas capacidades por todo o lado, mas Inglaterra é o país que merece o destaque. O submundo underground da música do país que nos vai abandonar com o Brexit está a florir com nomes como AlfaMist, Yussef Kamaal, Theo Croker, Barney Artist, Jordan Rakei, Oscar Jerome, Mammal Hands, Moses Boyd, Ezra Collective ou o Shabaka Hutchings. Esqueci-me de avisar, mas esta é a parte em que começam a anotar os nomes para escutar como trabalho de casa. 

Jazz Fusão

Do outro lado do Atlântico, as sonoridades andam à volta da fusão do Jazz com estilos africanos e sul americanos. Aliás, foi com um grupo destes que me comecei a interessar seriamente por Jazz, os muito adorados Snarky Puppy. O grupo formado no Texas, abriu portas e ouvidos a muito boa gente que procurava algo que os livrasse do tédio que foi a música da primeira década do século. Uma lufada de ar fresco que permitiu a tantos outros almejar um público mais vasto que os amigos e a família. As consequências deste movimento começaram a notar-se com a crescente popularidade de bandas como VulfPeck, Funky Knuckles, Kneebody, Polyrythmics ou Jaga Jazzist.

Ainda num registo de fusão, mas com influências mais tradicionais e as raízes africanas bem vincadas, temos Christian Scott, Braxton Cook e o Ambrose Akinmusire, Nova Orleães, Washington e Califórnia, respectivamente.

Brainfeeder e arredores

To Pimp a Butterfly colocou vários músicos de Jazz nas bocas do mundo. Kamasi Washington, Robert Glasper, Thundercat, Ronald Bruner Jr.Bilal, Terrace Martin levaram um boost de popularidade graças à indispensável contribuição para o disco da década. Todos do mesmo circuito e muitos deles associados à editora Brainfeeder, criada em 2008 pelo produtor Flying Lotus. No entanto, preparem-se, ouvir qualquer um destes artistas consegue ser mais abstracto, comparativamente com os nomes mencionados no tópico do Jazz de Fusão. Este círculo de amigos transborda criatividade e uma tendência maior para experimentalismos e aproveitamento dos erros humanos.

BadBadNotGood e amigos

Como já tinha mencionado, Ghostface Killah colaborou e de que maneira, com os BBNG, mas a lista de colaborações e artistas alvos de covers é cada vez mais longa. Um dos momentos mais memoráveis são os vídeos de uma presumível Jam Session com o rapper Tyler, The Creator ou numa outra sessão, intitulada Odd Future Sessions. Mais recentemente tocaram “Ultimate” e “Sick & Tired”, com um dos rappers mais hyped do momento, Denzel Curry. No quarto disco do grupo, surgiram bons nomes, que só pelas suas discografias valem a pena a vossa atenção, entre eles Kaytranada, Colin Stetson, Samuel Herring (Future Islands), Mick Jenkins e Charlotte Day Wilson. No Bookhead EP, do dueto JJ DOOM (Jneiro Jarel e MF Doom), BBNG colaboraram na criação da faixa “Guv’nor”, sendo este um dos pontos altos do disco.