Há uma epidemia de falta de sono a matar-nos aos poucos

Para os cientistas, menos de 7 horas são horas a menos.

Não faltam estudos sobre o sono por essa Internet fora. Partilham-se vezes sem conta nas redes sociais, como aqueles que dizem que o irmão do meio é o mais inteligente ou que as pessoas que chegam atrasadas são mais perspicazes.

Falsas verdades ou senso comum, todas nos ensinam desde cedo que uma boa noite de sono é das coisas mais importantes do mundo, tal como um bom pequeno almoço. Que quando somos crianças devemos dormir 10 horas, que ao crescer devemos dormir pelo menos as oito, que passamos por uma fase em que nos deitamos tarde e acordamos cedo e parece que nada nos afecta mas que havemos de nos ressentir disso.

E porque muitas vezes os mitos são comprovados pela ciência, o mais recente estudo sobre o assunto vem corroborar tudo aquilo que os nossos pais nos ensinaram. O Professor Matthew Walker, diretor do Centro de Ciência do Sono da Universidade da Califórnia, Berkeley, disse numa entrevista ao The Guardian que estamos perante uma “epidemia catastrófica de perda de sono” que está a causar uma série de doenças potencialmente fatais. Walker diz que quanto menos dormimos, menos vivemos e que a privação de sono se tem generalizado na sociedade moderna e que tem afetado “todos os aspectos da nossa biologia”.

As luzes elétricas, a televisão e as telas de computador, uma divisão cada vez menor entre o que é o tempo pessoal e o tempo de trabalho são alguns dos aspectos enraizados na vida moderna que contribuíram para esta situação.

Matthew Walker detalha que a privação de sono tem sido associada ao cancro, diabetes, doenças cardíacas, acidentes vascular cerebrais, doença de Alzheimer, obesidade e má saúde mental, entre outros problemas de saúde. “Nenhum aspecto de nossa biologia é deixado ileso pela privação do sono. Afunda-nos em todos os caminhos possíveis. E ainda ninguém está a fazer nada sobre isso. As coisas devem mudar: no local de trabalho e nas nossas comunidades, nos nossos lares e famílias.”

Walker acusa as empresas e políticos de estigmatizarem o sono como acto de preguiça: “Mas quando é que já vimos um cartaz do NHS (Serviço Nacional de Saúde), a insistir para as pessoas dormirem? Quando é que um médico prescreveu ao paciente, em vez de comprimidos para dormir, que durma na realidade? O sono precisa ser de prioridade e incentivado.”

Reconhecendo que é normal que ninguém queira desistir do tempo com a família ou do lazer, Walker insiste que, em última análise, desistir de dormir acaba por provocar ansiedade extrema o que nos torna a todos uma sociedade mais solitária e deprimida, que depende praticamente da cafeína, inimiga nº 1 do sono.

Trabalhadores da área da saúde e empregadores, todos precisam de levar este aspecto em maior consideração e enquanto não houver uma chamada de atenção generalizada, teremos que ser nós próprios a preocupar-nos com o assunto.

Este especialista revela que leva o seu sono muito a sério por já ter visto as provas do que a sua falta faz. Dorme oito horas por noite “não negociáveis” diz.  “Uma vez que sei que depois de só uma noite de apenas quatro ou cinco horas de sono, as nossas células assassinas naturais – aquelas que atacam as células cancerígenas  – caem 70%, ou que falta do sono está ligada ao cancro do intestino, da próstata e do peito, ou mesmo que a Organização Mundial de Saúde classificou qualquer tipo de trabalho no turno da noite como um potencialmente cancerígeno, como é que eu poderia fazer qualquer outra coisa?”