CycleHack: as ideias de Lisboa para o resto do mundo

Em diferentes cidades espalhadas pelo mundo, várias pessoas juntaram-se este fim-de-semana para discutir um problema comum: como resolver as barreiras à utilização da bicicleta.

Em diferentes cidades espalhadas pelo mundo, várias pessoas juntaram-se este fim-de-semana para discutir um problema comum: como resolver as barreiras à utilização da bicicleta. Tiveram menos de 48 horas para definir uma problemática e prototipar uma solução, num hackathon global no qual Lisboa participou pela segunda vez.

Há muitas coisas que inibem as pessoas de usar a bicicleta ou que tornam a experiência difícil ou desagradável. Algumas dessas barreiras são grandes e complexas, tais como não ter suficiente apoio político para a bicicleta, e algumas são pequenas coisas, como sujar as calças de óleo ou não saber a melhor rota de A para B. No CycleHack, por todo o mundo, procurou-se ideias para contornar estas barreiras.

Os hacks criados globalmente no CycleHack foram disponibilizados online, numa plataforma aberta a todos. A edição lisboeta do CycleHack decorreu na Fábrica Moderna, no Beato. Um novo tipo de fábrica equipada com duas impressoras 3D (uma delas de grande formato), uma máquina de corte e gravação laser para madeiras e acrílicos e uma fresadora CNC, que consegue desenhar em madeira. Condições que, certamente, permitiram aos participantes do hackathon expandir a sua criatividade.

Uma das engenhocas criadas em Lisboa serve para contar quantas bicicletas passam, por exemplo, numa ciclovia. É feita com materiais baratos e permite não só saber o número de bicicletas, como a sua velocidade e direcção. O sistema é inteligente ao ponto de ser capaz de distinguir quando é pisado por uma bicicleta e quando o é por outro veículo ou por um peão. Isto poderia ser aplicado por Lisboa fora para ter um registo exacto do tráfego das ciclovias da capital portuguesa. “Foi o meu primeiro hackathon, gostei muito”, disse quando apresentou o projecto aos restantes participantes.

Outro hack consiste num site que ajuda a escolher a melhor bicicleta para o perfil de cada pessoa. Inserindo informações sobre o trajecto que habitualmente quer fazer ou quanto está disposto a gastar, a plataforma irá sugerir o melhor veículo. O utilizador pode depois imprimir uma folha com uma imagem da bicicleta recomendada e alguns detalhes antes de ir à loja.

Andreia gosta de andar de bicicleta mas diz que em dias de chuva troca-a pelo carro ou transportes públicos. Por isso, criou uma protecção para o seu veículo de duas rodas, inspirando-se num conceito existente em algumas motas. Depois dos esboços em papel e de um protótipo com cartão e alguma impressão 3D, foi a uma loja de bricolage procurar os materiais necessários para prototipar a sua ideia. Com um tubo maleável, um plástico e linha de pesca, fez uma pequena cabine para a bicicleta. Quatro pessoas ajudaram-na. “Aprendemos imenso a fazer isto,” confessou. “Tivemos a ver no YouTube como costurar.”

As barreiras do Hugo e do Tiago eram outras. Os dois trabalharam em dois projectos distintos, ajudando-se mutuamente. Uma das soluções foi uma protecção para que um saco colocado na traseira ou na frente da bicicleta não tocasse na roda, danificando-se e complicando a condução. O hack envolve um simples tubo de PVC dobrado e dois encaixes desenhados em computador através de um programa chamado OpenSCAD e impressos depois em 3D. A outra ideia também foi feita com recurso a uma das impressoras 3D da Fábrica Moderna – é um pequeno suporte para utilizar uma lanterna básica, “comprada nos chineses”, numa bicicleta. Hugo e Tiago prototiparam o conceito para uma lanterna mas a ideia pretende facilitar a anexação de qualquer objecto à bicicleta. Como? Criando-se uma peça de fixação universal para o veículo, à qual se acrescenta um módulo consoante o objecto.

Mais duas ideias foram apresentadas neste CycleHack Lisboa. Uma delas sugere usar um dos lados das embalagens de leite (ou de outro bem alimentar de vasto consumo) para fins educacionais, ensinando os consumidores sobre o uso da bicicleta e a sua relação com a mesma, mesmo que não sejam ciclistas. O outro hack propõe a bicicleta como meio de transporte para os astronautas em Marte. O autor defende que, com uma bicicleta, os exploradores conseguem aceder a uma área maior do planeta que a pé, dadas as limitações de oxigénio, e avançou que, dada a gravidade mais baixa daquele planeta, andar no veículo de duas rodas deverá ser mais fácil que na Terra.

O CycleHack Lisboa arrancou na sexta-feira com a apresentação de alguns projectos relacionados com bicicletas. O objectivo: inspirar os hackers antes de arregassarem as mangas fim-de-semana adentro. Paulo Vaz apresentou a Coelhinhos, uma escola de ciclismo que, desde 2014, já ensinou milhares de crianças entre os 5 e 9 anos de vários estabelecimentos de ensino de Lisboa a andar de bicicleta, introduzindo-as também aos desafios do dia-a-dia. Mónica Pacheco Lopes, fisioterapeuta, apresentou um projecto de investigação da Universidade de Lisboa que procura perceber que adaptações são necessárias fazer às bicicletas para que pessoas com mobilidade reduzida possam também utilizar este tipo de veículos.

João Barreto mostrou a Biklio, uma aplicação para telemóveis que promete estimular o uso da bicicleta, recompensando os utilizadores com descontos e outro tipo de ofertas em comércio local. Miguel Barroso falou sobre o seu Livro da Bicicleta, uma espécie de manual de instruções para quem quer usar a bicicleta na mobilidade diária ou por desporto. Por último, Ana Pereira, uma das organizadores do CycleHack Lisboa, apresentou os esboços do seu plano de criar uma Casa da Bicicultura, uma espécie de biblioteca de acesso público onde qualquer pessoa poderá conhecer os diferentes tipos de bicicleta que existem e experimentá-los, bem como obter todo o tipo de informação sobre bicicletas e o seu uso. Ana explicou que a ideia é “fazer pelo uso da bicicleta o que as incubadoras de start-ups fazem pelos negócios”.

O CycleHack arrancou em 2014 na Escócia e desde então tem-se espalhado pelo mundo, realizando-se em simultâneo em várias cidades: Atenas, Paris, Roma, Londres, Dublin, Roterdão, Tóquio, México, São Francisco ou São Paulo. Em todas as cidades, são eventos sem fins lucrativos. Os participantes trabalharam sábado e domingo, numa ideia que tornará mais fácil ou acessível usar a bicicleta, e constroem-na antes do fim-de-semana acabar.

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