O que se passou em Charlottesville só tem um nome: terrorismo

Porque é que nem Trump nem a imprensa tratam as coisas pelos nomes?

James Fields, o homem indiciado pela prática do crime foi fotografado horas antes junto dos restantes manifestantes Fotografia: Go Nakamura/New York Daily News

As imagens e as testemunhas não deixam dúvidas, nem espaço para a condescendência de quase toda a imprensa internacional. O que se passou ontem nos Estados Unidos é a prova cabal de que o terrorismo é um mal sem cor nem credo. Após uma manifestação de nacionalistas e supremacistas sob o mote “Unir a Direita” e em resposta à presença de um protesto pacífico opositor a estes manifestantes, um carro acelerou contra uma multidão de pessoas acabando por matar uma e ferir outras 19, 5 das quais estão ainda em estado crítico. Se infelizmente o grau de violência do acto dificilmente surpreende, a forma enviesada com que este está a ser tratado é de deixar qualquer um atónito. Perante uma imprensa que rotula com facilidade qualquer ataque que aconteça no mundo como terrorista, que os associa desde o primeiro minuto a causas religiosas, eis que surge a evidência de que não existe a mesma predisposição em todos os contextos. Segundo reporta a emissora local NBC29, o caso está a ser investigado pelas autoridades como um “simples” homicídio, uma estranha categorização, repetida sem questionamento por quase todos os meios de comunicação social.

O condutor do veículo foi prontamente detido pelas autoridades e indiciado, conforme referido, pela prática de homicídio, o que deixa no ar a questão: o que seria preciso para que um branco fosse acusado de terrorismo? A perspectiva com que cada notícia é divulgada e comentada é, no tempo da pós-verdade, um sinal claro e simples de como políticos e grandes grupos de comunicação social propagam preconceitos em uníssono estabelecendo um novo normal. O homem indiciado pela prática criminosa é James Alex Fields Jr., natural de Ohio, com apenas 20 anos, um jovem – tal como outros dos autores de anteriores ataques terroristas. O tratamento oblíquo dado a este caso não choca apenas pela preconceito que revela mas sobretudo pela inoperância a que este tipo de posição conduz. A categorização de crimes simplificada pelo factor racial ou religioso constituí por si só uma falácia que não permite à investigação e às unidades de prevenção perceber o que realmente motiva este tipo de acto cada vez mais frequente. 

Evidencie-se por exemplo a reacção do sempre caricato Donald J. Trump (criticada por muitos por ter sido tardia) que, em situações anteriores agiu com fervor e agressividade e perante esta situação, continua a reiterar o seu patético slogan numa tentativa de minimizar o acto e sobretudo, de minimizar, o débil equilíbrio social para o qual está a conduzir o Estados Unidos da América.

Quanto à manifestação originalmente convocada, sob o mote Unite the Right, organizada pelo ultra-nacionalista Jason Kessler do grupo Proud Boys, tinha como principal motivo a oposição à retirada de uma estátua de Robert E. Lee, um histórico general que lutou do lado das confederações na guerra civil americana, conforme dá conta o New York Times. A ideia de retirar a estátua, que marca um período sombrio da história dos EUA, surgiu em 2015 e nunca terá agradado os ultra-nacionalistas que decidiram sair à rua para mostrar o seu descontentamento, face à decisão posteriormente aprovada em 2016.

A discórdia em torno do futuro daquele símbolo das confederações americanas tornou-se simultaneamente marca da clivagem existente entre os dois lados do espectro político norte-americano com discursos sectários e pejados de ódio a serem cada vez mais frequentes e a encontrarem representação no presidente Donald Trump. As principais figuras da chamada alt-right – como Richard Spencer, o criador do termo –  concentraram-se neste caso tornando-o simbólico de toda a sua luta, acusando os seus oponentes de tentar através da multiculturalidade acabar com a raça branca.

Charlottesville, que é por tradição uma cidade universitária de tendência liberal, com cerca de 50 mil habitantes, vê-se assim como campo de uma dura batalha ideológica. A reacção do presidente da câmara local, o democrata Michael Signer, não podia ser mais frontal. Numa curta declaração ao programa State of Union da CNN, Michael Signer deixou críticas a todo o discurso profundamente faccioso de Trump. Algo que se voltou a verificar na sua reacção aos atentados.

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