A fotógrafa de 63 anos está a revolucionar os auto-retratos no Instagram

A fotógrafa de 63 anos está a revolucionar os auto-retratos no Instagram.

Podes não a conhecer, mas a sua carreira já colecciona anos e sucessos. Cindy Sherman tem uma longa história de auto-retratos dramaticamente encenados e, de certa forma, foi pioneira na ideia, décadas antes das selfies e das redes sociais. A sua arte caracteriza-se muito pelas fotografias que tirou de si própria, maquilhada, mascarada, fantasiada, ao ponto de se tornar irreconhecível.

Faz por isso todo o sentido que nos dias de hoje, onde as tecnologias ajudam os efeitos, redefinisse esse seu foco. Agora, apesar da idade não o fazer adivinhar à partida, volta a ser pioneira. O seu Instagram, recentemente tornado público, é um depositório de algumas das obras de arte mais intrigantes que já vimos. E Cindy fá-las com a sua cara. Distorce as selfies que tira, fica grotesca, enfeita-as com flores, focos de luz, encena-as em camas de hospital, onde uma maquilhagem muito marcada e falsificada, contrasta com os tubos de oxigénio presos nas narinas. O objectivo é levar o espectador a perguntar-se quanto das suas fotografias é realidade. É nesta linha que separa a vida real dos eventos encenados, que tanto caracteriza o Instagram a vários níveis, que Cindy Sherman quer tocar.

On the mend!

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Os famosos “entendidos” e os fãs curiosos enchem-lhe a caixa de comentários intrigados pelas imagens. Uma das principais dúvidas de quem segue Cindy é se este é mesmo um projecto de web art, ou seja, se a fotógrafa tira e trabalha as imagens apenas para o Instagram, ou se vai acabar por mostrar este trabalho nas galerias, como costuma.

Sherman expõe recorrentemente no MoMa, por exemplo, e tem uma galeria própria em Nova Iorque, a Metro Pictures. Nunca dissipou a dúvida dos fãs, por isso, no meio deste dilema indecifrável, resta a quem gosta acompanhar a sua exposição digital.

Who me?!

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Nas imagens que postou ao longo dos últimos meses, Sherman passa ao lado do ideal de glamour e beleza que costumamos ver nas fotografias de Instagram que coleccionam likes. Esticada, amassada, enrugada, alisada, maquilhada e manchada, a sua cara lembra plástico derretido, como os relógios de Salvador Dalí. Mas o surrealismo de Sherman é outro. Ao contrário da base psicanalítica, de análise dos sonhos mais assustadores do pintor espanhol, a fotógrafa norte-americana disseca o pesadelo mais que concreto da autoafirmação por meio de corações digitais, o narcisismo no seu auge.

O tratamento da problemática vem do início da sua carreira. Como já referimos, na década de 1980, a artista chamou a atenção da crítica com auto-retratos em que se disfarçava de personagens de filmes que não existiam. Ou seja, Sherman queria ser outra, criando cenas perdidas de ficções possíveis a partir de uma base verdadeira. Era e não era ela, numa imagem arquitetada até ao último grão. O seu esforço foi encarnar todos os arquétipos femininos nos moldes estéticos da velha Hollywood, dizendo que uma mulher podia ser todas e ao mesmo tempo não ser nenhuma.

 

O aumento dos smartphones levou também a um aumento daqueles que se consideram fotógrafos profissionais. Em muitos casos, o Instagram não é arte, mas um campo de despejo digital. Para uma artista como Cindy Sherman, usá-lo como um espaço de exposição, eleva a fasquia para os usuários que procuram atenção ou se tentam afirmar como artistas.

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