Comprar uma cidade para a transformar no Paraíso da Erva

Revitalizar a cidade californiana de Nipton através do comércio de erva é o principal objetivo da American Green.

Créditos: John Locher/AP

Nipton é o principal alvo do próximo projeto da American Green. A empresa norte-americana de produtos de cannabis passou o cheque e pretende desenvolver a economia da pequena vila californiana, que outrora foi uma das protagonistas da “Gold Rush”. A aposta no “turismo da erva” e nas energias renováveis visa o florescimento de uma economia local sustentável.

Com apenas 20 habitantes e uma área inferior a 500 metros quadrados, a American Green desembolsou cinco milhões de dólares (cerca de 4,2 milhões de euros) na compra da vila de Nipton. A terra será agora alvo de uma reformulação: com mais de dois milhões de euros, o plano principal da empresa centra-se na revitalização da vila abandonada.

Apesar da linha férrea que liga Los Angeles a Salt Lake City passar pela vila, a vila pouco é visitada atualmente. Créditos: John Locher/AP
Apesar da linha férrea que liga Los Angeles a Salt Lake City passar pela vila, esta pouco é visitada atualmente. Créditos: John Locher/AP

O orçamento prevê essencialmente o desenvolvimento do setor turístico à base de atividades relacionadas com o consumo e comercialização de erva: pontos de venda, produção de produtos comestíveis e… um complexo de termas, tudo à base de marijuana, são algumas das opções preconizadas. Água com infusão de cannabis e, claro, o cultivo da planta estão também na lista da American Green.

“A revolução do cannabis americana tem o poder de revitalizar comunidades completas, da mesma maneira que o ouro fez durante o século XIX”, diz David Gwyther, presidente e diretor executivo da American Green.

Apesar do uso recreativo de marijuana ser já legal em oito estados norte-americanos, ainda existe um significativo tabu em relação aos usos da planta. Inclusive no seio do governo norte-americano, Jeff Sessions, procurador-geral dos Estados Unidos, mostra-se contra a legalização do consumo de erva. “Não é uma substância saudável”, afirmou o político. Na senda do preconceito, a empresa da especialidade quer provar o contrário e mostrar todos os seus benefícios, não só para o indivíduo, como para uma comunidade.

As receitas da vila baseavam-se principalmente nos bilhetes de lotaria. Créditos: Ken Lund/Flickr
As receitas da vila baseavam-se principalmente nos bilhetes de lotaria. Créditos: Ken Lund/Flickr

Atualmente, Nipton é preenchida pelos contornos de um hotel do estilo “faroeste”, algumas casas familiares, um parque para autocaravanas, um café e uma loja de conveniência. A pouco mais de 50 minutos de carro de Las Vegas, a fortuna da vila no meio de nenhures são os bilhetes da lotaria, comprados pelos vizinhos do Nevada. Ironicamente, no estado das “slot machines” a lei é clara: a venda de bilhetes de lotaria não-estatal é proibida.

Mas a vila não pode viver só de erva e muito menos de jogos da sorte. A American Green também dará o visto às energias renováveis, de modo a tornar a região num “destino hospitaleiro para o consumo de cannabis e independente a nível energético”. A construção de novas infraestruturas e a renovação das antigas também encarrila no comboio da “revolução verde” e de uma nova dinâmica para Nipton.

Painéis solares no deserto, em Nipton. Créditos: John Locher/AP
Painéis solares no deserto, em Nipton. Créditos: John Locher/AP

“Nós cremos que mostrar que existem meios viáveis para existir uma cidade amiga da cannabis e independente a nível energético pode ser uma maneira de inspirar outras comunidades a pensar: ‘Porque é que não o fazemos aqui?’ “, aferiu Stephen Shearin, diretor do projeto.

Não é a primeira vez que a ameaça da ruína e abandono assola a região. Fundada em 1905, a vila de Nipton, tal como muitas outras localidades, foi um dos vários centros da procura do ouro – a “gold rush” – nos Estados Unidos. Contudo, em 1950, Gerald Freeman, um geólogo de Los Angeles, deparou-se com uma “cidade fantasma”. Mais de 30 anos depois, em 1985, comprou a vila e, com apenas algumas cabanas, uma loja de conveniência e um hotel, tornou-se num destino turístico para todos os fãs da paisagem desértica norte-americana e do estilo “faroeste”.

Hotel Nipton, fundado por Gerald Freeman. Créditos: John Locher/AP
Hotel Nipton, fundado por Gerald Freeman. Créditos: John Locher/AP

Contudo, passado mais de um século desde a sua génese, a vila necessita de uma nova “gold rush”. Ainda atual dono, Freeman já preconizava parte desta solução antes da proposta da American Green. Em declarações ao New York Times, o proprietário mostrava-se apologista das energias renováveis e preocupado com o rumo climático do planeta: “Estou ciente do problema do aquecimento global desde os meus primeiros dias de escola. Só agora é que está a protagonizar grande parte dos nossos dias. As pessoas são lentas na adaptação à realidade”.

“Quanto mais independentes formos dos recursos externos, melhor”, afirmou Gerald Freeman.

A escassa população da vila também se mostra recetiva aos planos da empresa norte-americana. Carl Cavaness, trabalhador do hotel local, diz que foi apanhado de surpresa pelo negócio. A viver com a mulher em Nipton, Carl espera que o ambiente da cidade não se descaracterize: “Nós gostamos da calma e da paz”.

Carl Cavaness, 53 anos, e a mulher, Laura, em trabalhos no Hotel Nipton. Créditos: John Locher/AP
Carl Cavaness, 53 anos, e a mulher, Laura, em trabalhos no Hotel Nipton. Créditos: John Locher/AP

Efeitos da erva para nós, para a comunidade e para a economia

Ao longo dos tempos, as consequências do consumo de marijuana levantaram questões a nível da legalidade do seu estatuto. Tal como tabaco ou álcool, é uma droga com efeitos comprovados a nível do sistema nervoso central. Contudo, não é tão nociva como as chamadas “drogas legais”. Num estudo apresentado pelo jornal “The Lancet”, considerando o grau de dependência e os danos para o organismo, a cannabis é dos que apresenta uma classificação mais baixa.

Classificação da cannabis, a nível de dependência e danos para o organismo. Créditos: The Lancet
Classificação da cannabis, a nível de dependência e danos para o organismo. Créditos: The Lancet

Contudo, os seus danos permanentes a nível cerebral ainda são inconclusivos. Numa série de  estudos, a única conclusão com largo consenso é a diminuição da memória a curto-prazo, tanto quando sob a influência da droga, como momentos após. Nos danos de maior período de tempo, discute-se a sua possível influência na memória a longo-prazo ou na insurgência de psicoses e mesmo esquizofrenia. A falta de conclusões sólidas assenta nas dificuldades de realização de estudos representativos e de plausibilidade biológica.

Contudo, o THC – dronabinol e nabinolina -, presente na planta de cannabis, é considerado uma mais-valia para fins terapêuticos. O tratamento de náuseas e o alívio de dores crónicas são alguns dos efeitos benignos comprovados cientificamente. Já no tratamento de glaucomas, epilepsias e tumores, os estudos divergem e as investigações prosseguem no alcance de uma conclusão.

Para melhor ilustrar os seus efeitos, a CNN publicou um vídeo a explicar como a marijuana afeta o cérebro e quais as suas utilidades para a medicina.

Em Denverempresas que apostam na erva como motor de produtividade dos seus funcionários. A Flowhub apresenta uma política de tolerância quanto ao consumo de cannabis dos seus funcionários, mesmo em tempo de trabalho: “Se ajuda os nossos empregados a fazer o seu trabalho, então não queremos saber se consomem no trabalho”, atirou Kyle Sherman, um dos criadores da aplicação Flowhub, capaz de organizar e auxiliar empreendimentos ligados à indústria de marijuana.

No estado do Colorado, a produção e consumo de erva para fins recreativos e medicinais é legal desde 2014 e tem surtido efeitos positivos na economia do território. No ano de 2016, a produção de cannabis atingiu mais de um bilião de euros em vendas, sendo que o governo estatal arrecadou cerca de 170 milhões de euros em receitas fiscais no mesmo período. O documentário realizado por Mitch Dickman conta-nos como a legalização da marijuana no Colorado mudou não só a economia do estado, como a imprensa local. “Rolling Papers” está disponível no Netflix.

Rolling Papers – Official Trailer

At ground zero of the green rush, The Denver Post became the first major media outlet to appoint a marijuana editor. Policy news, strain reviews, parenting advice and edible recipes are the new norm in the unprecedented world of pot journalism. On demand now. #RollingPapersCO

Publicado por Rolling Papers – A Documentary Film em Terça-feira, 24 de Novembro de 2015

 

Já no resto do mundo, as restrições ao consumo da marijuana são quase totais. À exceção do Colorado, Nevada, Califórnia e outros cinco estados norte-americanos, apenas o Uruguai, os Países Baixos e a África do Sul se mostram favoráveis aos usos variados da planta. Enquanto no Uruguai e na África do Sul, o consumo privado é legal, nos Países Baixos há que desmistificar uma pseudo-verdade que se acreditava ser absoluta: todas as drogas são proibidas. É ilegal a posse, venda, importação ou exportação de drogas. Contudo, o governo holandês apresenta uma política de tolerância das drogas leves, ao reconhecer que é impossível extinguir totalmente o seu comércio. Nesta linha de raciocínio, surgem as famosas “coffeeshops”, onde é possível vender marijuana, salvo restrições rígidas: apenas podem vender 5 gramas por pessoa (por dia) e a sua publicidade é proibida.

Uma "coffeeshop" em Amesterdão. Créditos: Audrey Livingston/Merry Jane
Uma “coffeeshop” em Amesterdão. Créditos: Audrey Livingston/Merry Jane

Em Portugal, apesar das diversas investidas do Bloco de Esquerda, o uso e consumo de erva continua a ser ilegal. Contudo, numa medida considerada inovadora no início do século, o consumo de cannabis foi descriminalizado, sendo apenas penalizado e alvo de processos de tratamento ou desintoxicação. Já o tráfico da planta continua a ser crime.

We should end our War on Drugs like Portugal did.

Publicado por ATTN: em Domingo, 18 de Setembro de 2016

 

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