Carl Sagan já sabia que isto ia acontecer à América

Declarações de 1996 tornaram-se virais este mês pela sua actualidade.

Em 1996, Carl Sagan, notável astrofísico e autor de divulgação científica escreveu “Um Mundo Infestado de Demónios – A ciência como uma luz na escuridão”, um livro que ao seu jeito, apelava a uma sociedade mais racional e céptica, ao mesmo tempo, que criticava uma certa decadência intelectual dominante. Recentemente, já em Agosto de 2017, uma das passagens desse livro tornou-se viral na internet pela forma assertiva e acutilante com que parece descrever – através da figura de um pressentimento – a realidade como hoje conhecemos.

“Tenho um pressentimento sobre a América no tempo dos meus filhos ou dos meus netos – os Estados Unidos serão uma economia de informação e serviços, quase todas as principais indústrias transformadoras se deslocaram para outros países, os incríveis poderes tecnológicos estarão na mão de poucos, e ninguém que represente o interesse público pode compreender os problemas: as pessoas perderam a capacidade de definir suas próprias agendas ou questionar com conhecimento de causa as pessoas em autoridade; quando, agarrando nossos cristais e consultando nervosamente nossos horóscopos, nossas faculdades críticas em declínio, incapazes de distinguir entre o que se sente bem e o que é verdadeiro, deslocamos, quase sem perceber, de volta à superstição e à escuridão. O apagamento da América é mais evidente na lenta decadência do conteúdo substantivo nos média extremamente influentes, nos sound bites de 30 segundos (agora até 10 segundos ou menos), menor programação de denominador comum, apresentações credíveis sobre pseudociência e superstição, mas especialmente numa espécie de celebração da ignorância. “

Foi uma publicação no reddit que primeiramente chamou à atenção para a pertinência e semelhança com a actualidade daquela passagem do livro de Carl Sagan, 21 anos depois. Todas as premissas do presságio parecem verificar-se com a diferença que, feliz ou infelizmente, o contexto não se resume aos Estados Unidos da América, multiplicando-se pela maioria dos países ditos desenvolvidos. Basta pensar onde são feitas a maioria das roupas que vestimos, onde passamos o nosso tempo ou quanto desse tempo dedicamos a aprender ou a informar-nos do que se passa no mundo.

O receio do triunfo da ignorância constituiu grande parte da obra do prolífico escritor e é, nos dias de hoje, o móbil para as centenas de partilhas das suas citações e ideias. Carl Sagan chega a usar como exemplo o vídeo mais popular da época, Dumb & Dumber, como sinal sintomático do que pode ser o triunfo da ignorância e o desprezo pela aprendizagem.

Não é só a citação viral que se aproxima da actualidade, todo o livro parece estranhamente dedicado aos tempos que correm. Conforme evidencia o próprio subtítulo, Sagan escreveu-o em oposição ao retorno do obscurantismo e como incentivo ao pensamento crítico e ao cepticismo. Esta obra é mais uma declaração do seu amor pela ciência e um apelo para que mais humanos se juntem ao seu lado da força. Com intrigantes metáforas e alegorias, Sagan levanta importantes questões e propõe algumas respostas, vincando sempre o carácter transitivo de que tudo pode padecer. Usando o seu país como base de comparação, Carl Sagan sublinha ao longo da obra como todas as construções sociais são apenas experiências e como tudo podia ser diferente, numa tentativa de espicaçar, ou se quiserem, inspirar, os leitores.

Se ficaste com curiosidade, podes ler alguns excertos do livro aqui ou comprá-lo por aqui, aqui ou aqui.

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