As vantagens de quem Salva a Terra

O que se passou em Salvaterra do Extremo não pode ficar em Salvaterra do Extremo.

Quem é que em seu perfeito juízo iria passar um fim-de-semana, em plena exibição do calor de Verão, no interior do país, perto de Idanha-a-Nova? O Shifter, como obviamente se deduz, e também muito boa gente com a missão de salvar a Terra. Era o Motto do festival, que juntava uma mão-cheia de bandas, programação ao dispor e uma vila simpática e convidativa que nos acolheu com a maior vividez, inesperada e oriunda duma povoação anciã.

A equipa do Shifter testemunhou os dois últimos dias do festival com pena de não ter ido mais cedo, perdendo bandas como Cassete Pirata ou A Jigsaw. Na verdade, o que mais se perdeu foi a longevidade da sensação de paz, de harmonia tanto com a natureza como com as pessoas, do que surgia uma vez ambiente tanto familiar como de refúgio. Mas estes dois dias foram amostra suficiente da panóplia de sensações que o Festival nos reservava. Se havia alguma preocupação com o excesso de calor, rapidamente deixámo-nos dessas ideias, depois de ficarmos a saber que o Rio Erges passava por ali perto, instalando um quase Hakuna Matata.

Depois das horas mais quentes, estreámos os nossos ouvidos no Palco Pôr do Sol com Gume, uma banda com fundações no jazz, mas com ocasionais aliterações rítmicas em Spoken Word. Mais tarde, Cows Caos mostravam o seu espectáculo de Strip-Surf-Rock, agradando tanto os olhos como os ouvidos. Foi de tal maneira icónico e sensual, que remeteu instantaneamente à famosa cena de Pulp Fiction em que Uma Thurman e John Travolta ocupam a pista de dança. No fim da prestação, Diogo Esparteiro, o guitarrista da banda, afirmou com sentido de humor ao microfone: “obrigado por terem prestado atenção à nossa música”.

No que nos parecia um festival como todos os outros, eis que durante o crepúsculo assistimos à libertação de animais no seu habitat natural. Pareceu-nos estranho estarem fechados em caixas de cartão, mas viemos depois a saber que era justamente para que não se sentissem ameaçados e que assim poderiam repousar até serem devolvidos à natureza. Quatro corujas, cada uma a seu tempo, voaram para diferentes direcções, criando uma experiência arrepiante de tão simples e surpreendente.

De modo a continuar a consistência da filosofia do festival, a cantina serviu refeições vegetarianas e com produtos biológicos, para de seguida sermos ensinados a lavar a louça de uma forma mais sustentável e económica.

De noite, já de volta aos palcos, assistimos ao concerto dos Senza, que apresentou uma mistura de música portuguesa com influências de músicas do mundo. A abordagem sensível à bateria e uma guitarra de texturas variadas serviam de caminha a uma voz ligeiramente exótica que nos permitiu viajar para lá das fronteiras europeias até à Ásia, onde nasceu o projecto. As suas músicas falavam de todo o tipo de assuntos referentes ao estar longe de casa, nomeadamente “Raiz”, que referia as saudades sentidas.

Matando, de seguida, estas saudades, a Criatura subiu a palco, trazendo tudo o que é tradicional português com um experimentalismo fresco e vasto. A prestação desta banda gigantesca fez justiça ao seu nome, que se apresentou viva, feroz e por vezes, animalesca. Foi fortemente emotiva ao mesmo tempo que foi épica. De todas as pessoas envolvidas no projecto, saltam-nos à vista os que fazem mais uso à sua voz, nomeadamente o líder do conjunto, Edgar Valente, que comunicou tanto com a banda como com o público, contando histórias entre canções e nas próprias canções. De vez em quando Gil Dionísio roubava o foco, este que parece que age como se estivesse sempre a ser observado – todo ele objecto de arte.

Para encerrar esta prestação, a banda tocou um (não assim tão) novo tema chamado “Bem Bonda”, que significa “já chega”, apelando ao activismo político e social.

Chegava então ao fim o primeiro dia a que o Shifter esteve presente no festival e era tempo de aproveitar o espaço de campismo que o festival oferecia. Era possível adiar a alvorada, tal era o conforto, mas só até o calor nos obrigar a sair das tendas. Nota muito positiva para as casas de banho, que ofereciam duches de água quente, para além de extremamente higiénicos.

O último dia foi, por sorte, menos quente, o que nos permitiu aproveitar para fazer algum turismo rural. Salvaterra do Extremo confirma que as paisagens que Portugal tem para oferecer são lindas, esteja onde estivermos. A fruta que a vila vendia numa das bancas era saborosa e sumarenta, o que não dava vontade nenhuma de sair daquele pequeno e remoto paraíso. Felizmente ainda nos sobrava muito para ver.

Na última leva de música, Zukatuga abriram a noite no palco Terra com a sua fusão de MPB lusófona. A noite tímida ameaçava chover, mas aos poucos a banda conquistou os que começavam a aparecer. As harmonias vocais com o fantástico trabalho percussivo de Iúri Oliveira matavam a inércia e o medo da chuva que começava a polvilhar o povo.

Se na noite anterior conhecemos um Edgar Valente nacional, com Os Compotas ficávamos a conhecer o seu alter-ego afro-americano. Este Funk, como que vindo de uma máquina do tempo, virou de pantanas o ambiente melancólico de fim de Domingo. Num tema em que Edgar falou de vaselina, alguém presente na plateia atira um frasco do mesmo, provocando gargalhada total. Estava a festa feita e ainda ia a meio.

Num imparável crescendo de energia, foi a vez de They Must Be Crazy espalhar a sua saudável loucura. O afrobeat contagioso manteve toda a gente a dançar e a transpirar, ensinando a Europa a libertar-se e a ser mais Africana. A banda mais gigantesca da noite (e possivelmente do festival inteiro) fazia o baile e dava pilhas de energia. Toda a interacção com o público foi genial, com as espargatas de Pacas, o vocalista, como clímax.

A pergunta que sobrava depois deste ambiente explosivo era “como é que se continua a festa?”. Num sugestivo dopping, a “real padrada” dos Pás de Problème era a resposta certa. Era, sem sombra de dúvidas, a noite mais internacional de todas, chegando desta vez a música balcânica de um naipe de sopros de enlouquecer. Com o contar de histórias que esta banda apresenta, é de chamar o mais depressa possível Emir Kusturica para fazer banda sonora em colaboração. Antes de terminar o concerto, a banda convida outros tantos músicos a participar em formato jam, cada um a tocar solos à vez, onde por exemplo, Iúri Oliveira, tocando pela quarta vez nesta noite (tocou em todos os concertos deste palco), arrebata o público com um inesperado solo de percussão bocal.

Foi uma festa indiscritível, desculpamo-nos. Ficamos com água na boca durante mais dois anos, até o próximo Salva a Terra. Até lá, restam-nos estas boas memórias e vontade de seguir de perto as bandas que fizeram parte do seu cartaz.

Fotos de Teresa Lopes Silva/Shifter

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