Porque é que é importante que saibas quem foi Simone Veil?

A autora da lei de legalização da interrupção voluntária da gravidez em França foi também a primeira mulher a presidir ao Parlamento Europeu.

“Não podemos continuar a fechar os olhos”, disse a então ministra da Saúde, a 26 de Novembro de 1974 quando subiu à tribuna da Assembleia Nacional francesa para falar em nome das 300 mil mulheres que todos os anos abortavam clandestinamente no país. O discurso voltou a ser recordado em França, no dia em que o país chorou a morte de Simone Veil, a poucos dias de fazer 90 anos.

A autora da lei de legalização da interrupção voluntária da gravidez em França foi também a primeira mulher a presidir ao Parlamento Europeu. Feminista inflexível, figura maior da vida política francesa, foi a primeira mulher a assumir as funções de ministra de Estado no país.

Curadora da Fundação Champalimaud, académica com fortes convicções morais e republicanas, Simone Veil nasceu a 13 de Julho de 1927 em Nice, sudeste de França, no seio de uma família judia e laica. Foi deportada em 1944 para o campo de concentração de Auschwitz juntamente com a mãe e uma das suas irmãs. Acabou por escapar à II Guerra Mundial e incarnava para os franceses a memória do holocausto judeu: “Penso que sou uma optimista, mas não tenho ilusões desde 1945.”

A 13 de Dezembro de 1974, a ministra francesa da Saúde, Simone Veil, fala sobre a lei do aborto perante o Parlamento francês em Paris. (Eustache Cardenas/AFP)

Com o número de prisioneira para sempre tatuado no corpo e na memória, Simone regressou a França, matriculou-se na Sciences Po, onde conheceu Antoine Veil, seu marido e futuro presidente da companhia aérea francesa UTA. Tiveram três filhos e Simone acabou por sair de casa e por se tornar magistrada. Daí para a frente, a sua ascensão foi imparável.

Em 1956 entra para a administração penitenciária francesa, onde se ocupou das questões relacionadas com a adopção. Em 1969 foi nomeada conselheira do então ministro da Justiça, no ano seguinte tornou-se a primeira mulher secretária-geral do Conselho Superior da Magistratura. Em 1974 chegaria o convite que marcou a sua carreira. Entra na política como ministra da Saúde do Governo de Jacques Chirac e combate contra uma grande parte da direita francesa para adoptar a lei do aborto.

O Libération recorda como a experiência do Holocausto tornou Veil numa europeísta convicta: “A Europa arrastou por duas vezes o mundo inteiro para a guerra. Ela deve encarnar agora a paz.” A pedido de Giscard d’Estaing concorre às primeiras eleições europeias e acaba por assumir a presidência do Parlamento Europeu em 1979. Jacques Delors, futuro presidente da Comissão Europeia, recorda que nesses dias iniciais da integração europeia Simone Veil “demonstrou ter uma qualidade rara, a do discernimento”.

Manteve-se no cargo até 1982. Entre 1984 e 1989, liderou o Grupo Liberal e Democrático do Parlamento Europeu. Voltou à política em 1993 para assumir funções como ministra de Estado e da Segurança Social, Saúde e Cidades, mas foi no Conselho Constitucional, a mais alta instância judicial, que passou a última década da sua vida activa. Em 2007 apareceu ao lado de Nicolas Sarkozy na sua corrida à presidência francesa.

A 10 de Junho de 1979, Simone Veil coloca na urna o seu voto para as Eleições Europeias, em Paris. (Pierre Guillaud/AFP)

Acumulou distinções: a Legião de Honra, a presidência da Fundação para a Memória da Shoah (em memória dos sobreviventes do Holocausto) e a do topo das preferências dos franceses, que em 2014 votaram nela como a sua personalidade feminina preferida.

Simone Veil foi ainda eleita em 2008 para a Academia Francesa, mas nos últimos anos, a idade e a doença foram-na afastando da vida pública, mas nunca do imaginário do país. “Continuo a acreditar que vale sempre a pena batermo-nos por qualquer coisa. Digam o que disserem, a humanidade está hoje mais suportável do que no passado”, afirmou há alguns anos ao Libération. “Acusam-me de ser autoritária. Mas só me arrependo de não me ter batido por esta ou aquela questão.”