Metá Metá foi muito foda

Teve a liberdade do jazz, a adrenalina do rock, a doçura do samba e a magia da música de tribos africanas.

Até São Pedro pareceu estar do nosso lado para que se cumprisse o pressagiado furacão jazz no dia 23 de Julho no Largo da Intendente, no concerto de Metá Metá. Nem o vento faltou para fazer voar cabelos e baixar a temperatura que a energia tratava de aumentar. E talvez neste ponto até se tenha excedido no esforço.

A banda de São Paulo foi chamada a encerrar o Bairro Intendente em Festa e tornou a celebração ainda mais especial. Num Largo do Intendente bastante composto, por quem procurou a banda ou ouvintes ocasionais, não houve quem não batesse o pé ou abanasse a cabeça quando esta se deixava levar pelo som. Teve a liberdade do jazz, a adrenalina do rock, a doçura do samba e a magia da música de tribos africanas. Uma viagem que partiu da organização de São Paulo para se perder – ou se encontrar – num lugar mais profundo, dentro de cada um de nós, usando poemas ou arranjos progressivamente mais complexos para nos atingir.

O concerto enquadrava-se na tour de apresentação de MM3 que amanhã, dia 26 de Julho, passará pelo Festival de Músicas no Mundo em Sines e foi marcado pela apresentação das faixas do terceiro registo de estúdio da banda mas nem por isso faltou tempo e espaço para os músicos mostrarem o seu talento e para o público vibrar com as mais conhecidas como São Jorge ou Cobra Rasteira. Juçara Marçal na voz, Kiko Dinucci na voz e na guitarra, Thiago França no saxofone e na flauta, Marcelo Cabral no baixo e Mariá Portugal na bateria deram show na verdadeira ascensão da palavra. MM3 ficou na memória como um disco com uma sonoridade mais pesada mas nem por isso distinta, um aprimorar do equilíbrio necessário à música que os próprios apelidam de afropunk. Talvez por isso os clássicos mais festivos tenham ficado para o final – lá para o meio ainda coube uma interpretação de Me Perco Nesse Tempo, uma música de 1996, da banda paulistana IRA para reforçar a toada rock.

“Primeiramente ‘Fora Temer’” – foi assim que Juçara Marçal cumprimentou a multidão que a esperava no Largo do Intendente. Durante o concerto houve tempo para dois momentos de conversa, o primeiro protagonizado por Juçara, de agradecimento pelo contexto desta recepção. O concerto gratuito, num espaço aberto e plural como o Intendente se pretende posicionar são, segundo a cantora, o cenário perfeito e para que está pensado o projecto. E a segunda, um apelo na voz de Kiko Dinucci para que “deixem Lisboa como é” e continuemos a resistir ao problema da gentrificação.

O concerto terminou com mais um apontamento político, desta vez vindo do público onde se ergueu uma faixa com a inscrição FORA TEMER durante o agradecimento visivelmente emocionado dos artistas. Foi um pôr do sol de emoções fortes e sobretudo plenas, uma celebração da pluralidade, à imagem da música que se ouviu a prova de como pode ser bom abraçar ambientes caóticos de peito e braços abertos.

As restantes nuances e emoções estão fielmente retratadas nas fotografias que podes ver nesta galeria:

 

Fotografia: Bárbara Monteiro