“O que fez a diferença foi a forma como eu tentei agarrar as oportunidades”

Falámos com Diogo Parreira, açoreano que aos 21 anos foi recém nomeado Presidente da Confederação Europeia de Empresas Juniores.

Era 1h da tarde nos Açores. Tinha acabado de acordar porque o trabalho não o sossegou até às 4h da manhã. Trabalhei com o Diogo na direção da ISCTE Junior Consulting e a energia que fervilha dentro dele contagia-nos a todos. O Diogo tem a visão de um falcão, de quem consegue ver mais longe, mas de quem ao mesmo tempo não se ilude e é ponderado. É sempre um prazer revê-lo e aprender com quem não se conforma e quer sempre mais.

Acabaste de ser eleito Presidente da JADE (European Confederation of Junior Enterprises) , foste no último ano Presidente da JADE Portugal (Federação de Júnior Empresas de Portugal) e no ano anterior Vice-Presidente de Consultoria da ISCTE Junior Consulting. Estás actualmente num Mestrado Internacional na Católica Lisbon e foste o melhor aluno do teu ano da licenciatura em Gestão. E tudo pode acontecer? Tudo tem acontecido… Como justificas este percurso?

Sim, de facto tudo tem acontecido ou tem acontecido um pouco de tudo. Se calhar essa é a melhor expressão. A parte mais gira deste percurso é que nada aconteceu de forma planeada. Isso é o mais engraçado na expressão “E tudo pode acontecer”, enquanto sinal de imprevisibilidade. Nada estava no horizonte, foram oportunidades que surgiram…

Acreditas que podia ter acontecido a qualquer pessoa? Há algum traço que te distinga? Porque apesar de não estar planeado, talvez essa ambição de querer fazer diferente já existisse…?

As oportunidades estão lá para todos. A minha história começa com a entrada na ISCTE Junior Consulting, que na altura até foi uma decisão bastante inconsciente e obrigada, e que é uma oportunidade acessível a toda a gente.  Aquilo que distingue a pessoa é a forma como se atira à oportunidade, a forma como dá de si para a perseguir e depois a forma como se vai entregando às várias fases que essa oportunidade disponibiliza. Muitas vezes não é o melhor que se distingue, mas aquele que se entrega mais. Acho que o que fez a diferença foi a forma como eu tentei agarrar essas oportunidades.

Vais tomar posse no dia 11 de julho como Presidente da JADE, em Bruxelas. O que é a JADE e o movimento júnior?

Temos de ir sempre ao conceito de júnior empresa quando falamos no movimento júnior. Uma júnior empresa é uma organização sem fins lucrativos cuja finalidade é o desenvolvimento dos seus membros, composta e gerida por estudantes universitários e que presta serviços profissionais a outras organizações.  

A primeira júnior empresa surgiu em 1967 em Paris e 2 anos depois estava a surgir a primeira Confederação Nacional (Confédéracion Nationale des Junior-Entreprises – CNJE) para representar o Movimento Júnior Francês.  Este movimento difundiu-se muito rapidamente, tendo surgido mais júnior empresas e mais confederações nos respectivos países. 25 anos depois, em 1992, percebeu-se que fazia sentido haver um órgão que nos representasse na Europa e que nos ajudasse a desenvolvermo-nos mais rápido. Surge assim a JADE (European Confederation of Junior Enterprises) como estrutura de suporte que aproxima as várias júnior empresas e possibilita a partilha de best practices entre países de toda a Europa.

Quais são os 3 principais pilares que vão delinear a estratégia da tua equipa para este mandato na JADE?

A cada 3 anos há um novo ciclo estratégico na JADE. A minha equipa tem o interessante desafio de implementar o último ano da estratégia definida e escrever um novo ciclo para o período de 2018 a 2021. A visão actual define que a JADE e o conceito de júnior empresa tem de ser reconhecido em toda a Europa, e tem que ser vista junto das instituições europeias como expert nas áreas de empreendedorismo.

Para o próximo mandato pretendemos fazer a continuação do que tem sido feito, trazendo inovação, mas tendo sempre presente que nós representamos os 14 países e as 300 júnior empresas e que a rede de stakeholders é gigante. Acredito que vamos conseguir aumentar significativamente o movimento nos próximos anos: há muitos países em processo de criar as suas primeiras júnior empresas.

Como é o vosso contacto com as instituições europeias?

Temos um departamento de Public Affair que gere as relações com as instituições europeias, através do qual tentamos ter reconhecimento e capital político, que nos permita alavancar o conceito de júnior empresa como uma boa prática em termos de educação empreendedora.

A JADE tem uma relação muito directa principalmente com os deputados do Parlamento Europeu e estamos presentes em alguns grupos especializados onde somos consultados para dar a nossa opinião sobre determinada estratégia ou política a ser implementada. Isso aproxima-nos muito da visão de sermos os especialistas em termos de empreendedorismo a nível europeu.

Centrando-nos agora em Portugal. És o primeiro estudante português a assumir o cargo de Presidente da JADE, o que só por si é um marco. Isto poderá dar outra visibilidade a Portugal dentro do movimento Júnior? Como é que posicionas actualmente o nosso país no universo do movimento júnior europeu?

Aqui sou incrivelmente suspeito (risos), mas vou dar a minha opinião. O que é que significa ser o primeiro Presidente português? Pode significar muito e pode não significar nada. Há uma coisa que claramente significa: Portugal mexeu-se. Não é o país que está esquecido na cauda da Europa, Portugal tem uma posição determinante que se tem visto muito pouco com a questão de eu avançar para Presidente, mas visto muito mais com a questão do desenvolvimento que Portugal e a JADE Portugal tiveram no último ano.

Em termos de percepções passámos de um país conhecido por ser low profile para um país que está na liderança nas questões da Europa e que está a puxar pelo movimento a nível europeu.

Queres explorar um bocadinho melhor esse crescimento da JADE Portugal? O que é que aconteceu que o permitisse?
A JADE Portugal no último ano teve um progresso muito claro: todas as áreas foram repensadas, mas nunca numa óptica totalmente disruptiva. O que nós fizemos foi ver onde é que estão de facto as grandes oportunidades e o que se aprendeu ao longo dos anos que nos pode ajudar a aproveitá-las, para construirmos uma nova estratégia.  

A falta de estratégia é normalmente o calcanhar de Aquiles em todas as organizações, inclusive de uma júnior empresa: vamos pensar no que é que nós queremos alcançar não neste mandato, mas nos próximos anos. Nós somos apenas agentes que estão cá durante 1 ano para contribuir para um objectivo maior e teremos que ter e assumir responsabilidades nessa parte.

Como descreves o envolvimento do movimento júnior ao nível da responsabilidade social?

O próprio conceito de júnior empresa já tem uma pitada de responsabilidade social. Temos um claro impacto a 3 níveis: o primeiro é a universidade, porque o estudante que consegue aplicar a prática e que a partir daí consegue gerar valor, acaba por ter melhores perspectivas de empregabilidade. O segundo nível é o claro impacto no mundo empresarial, que tem a ver com o facto de os estudantes irem melhor preparados para os desafios do mercado de trabalho e também pelo valor que acrescentam às organizações através dos projectos desenvolvidos. Por fim, o terceiro nível tem a ver com o impacto na sociedade: por um lado estamos a educar os estudantes numa óptica de profissionalismo para serem no futuro pessoas mais competentes e melhor capazes para responder aos problemas, e por outro lado, o facto de as júnior empresas desenvolverem projectos pro bono para associações.

Presença da JADE na Europa

A JADE acaba por ter alguma influência política a nível europeu. A política está presente em muitas áreas e tem um impacto muito grande, mas muitas vezes os jovens não se identificam com a forma como é feita. Revês-te no que acabei de descrever? Como é que descreves o posicionamento dos jovens face à política, em Portugal?

Essa é uma pergunta muito complicada. Há um distanciamento crescente, e eu vejo-o pelos meus colegas. Eu diria que as principais razões do distanciamento são a falta de identificação, muitas vezes não com os resultados, mas com o processo. A política tem perdido muito pela forma como se discute em Assembleia da República e isto tem perdido alguma credibilidade junto de uma comunidade estudantil que é cada vez mais prática. Acho que muitas vezes os jovens são vistos como os agentes sem experiência, as pessoas que não têm conhecimento da vida, e eu até certo ponto concordo com isso, mas por outro lado não. Estamos a desprezar uma perspectiva diferenciada e uma perspectiva diferenciada é aquilo que faz o mundo andar para a frente. Acho que as associações têm um papel importante nisso, de envolver os estudantes na política para contribuir para que esse distanciamento diminua e a par disso os jovens sintam que têm um papel mais activo.

Menino dos Açores, da ilha Terceira, que desempenhou um papel importante em Portugal. Depois vais para Lisboa, para a capital, e agora para Bruxelas, onde muitas decisões são tomadas a nível europeu. Qual é o próximo destino?

(risos) Essa é a pergunta de 1 milhão de € para a minha família! Há de haver um ponto em que me vou desligar um bocadinho dos movimentos associativos. Agora vou ter um desafio muito aliciante, mas depois é tempo de dar lugar a outros. Eu vou para a JADE muito com aquela necessidade de querer dar mais: vou dedicar-me 24h a uma causa e é a primeira vez que vou fazê-lo. Eu sei que depois da JADE terminar é altura de entrar para o mercado de trabalho. Tenho uma paixão muito grande por estratégia e consultoria. Tenho ideias claras sobre sectores, empresas onde gostava de trabalhar, mas deixo sempre um espaço para a imprevisibilidade, porque as melhores coisas que me aconteceram não foram planeadas, por isso já decidi não tomar decisões muito drásticas, vou deixar as minhas portas abertas, porque nunca se sabe as oportunidades que Bruxelas vai despoletar. A verdade é que me descrevo como uma pessoa muito feliz e não tenho razões para querer descontinuar essa felicidade. É continuar em frente.

Texto de: Mariana Carvalho
Editado por: Rita Pinto