O viciante da tecnologia é o que não escolhemos

Vale a pena conhecer o movimento anti-blind, por um uso moderado e consciente da tecnologia.

Sim, já todos sabemos que os smartphones estão a consumir por completo a nossa atenção. Mais que isso, estão a modificar os processos associados ao foco e à concentração. Num mundo com uma densidade de estímulos crescente, cresce também a dificuldade de restringirmos a nossa atenção a uma só tarefa ou objecto. Seja pelas constantes interrupções externas do reino das notificações, seja pela falta de habituação a esse estado de alma, meio monótono, ao qual chamamos: concentração.

Com a introdução e aproximação da tecnologia ao homem, fomos lentamente acostumando o nosso cérebro a processar em curtos espaços grandes quantidades de informação: seja pela redução dos objectos ao seu tamanho digital, pela diversidade de cores e formas neste tipo de aparelhos ou pela convergência de funcionalidades que um smartphone apresenta hoje em dia. Obrigamos o cérebro a processar muito, mas a mexer-se muito pouco, e o resultado disso acaba por ser uma deterioração dos hábitos e rotinas que nos mantinham produtivos e calmos. No lugar desses hábitos formam-se verdadeiros vícios que tendemos a menosprezar mas que, em sentido contrário, têm ganho um lugar cada vez mais central na organização das sociedades.

Quem é que há 5 ou 10 anos se imaginava colado ao smartphone 24 horas por dia? E quem é que há 5 ou 10 anos pensava passar metade do seu dia numa rede social? A verdade é que tudo isso se verificou e terá um impacto óbvio na sociedade dos próximos anos, pelo que cada vez mais a consciencialização para este tipo de realidade tem de existir. Até porque, se do lado do utilizador estas condicionantes são uma uma mera consequência da forma como as coisas estão desenhadas e organizadas, para os produtores e criadores muitas vezes este é o objectivo – e não devia.

Chamar à atenção, alimentar o vício ou reter o utilizador pelo máximo de tempo possível são alguns dos horizontes estipulados por empresas (apps, sites, etc) como imagem do seu sucesso. A nossa atenção tornou-se num recurso altamente transaccionável sem forma de ser amealhada numa conta bancária – e sem a carga simbólica que atribuímos a outros recursos da mesma categoria. “Qual é o mal, estou só aqui a fazer scroll!” tornou o exagero de um comportamento inofensivo num problema real – com os nossos investimento de atenção feitos em matérias muito pouco rentáveis. A pegadinha no Brasil, a notícia da China, a situação caricata nos Estados Unidos ou a vida feliz e contente dos que seguimos são a nova realidade em que escolhemos viver imersos ou onde, sem nos apercebermos, vamos parar, conduzidos por acções que iniciamos em busca de gratificações.

Tristan Harris, antigo project manager da Google, tem sido um dos nomes mais activos na produção de material crítico de sustento ao movimento que o próprio apelida anti-cegueirauma tentativa de consciencializar designers e utilizadores para a criação e utilização da tecnologia com um propósito menos intrusivo.

Entre as suas acções que vão dos Tedtalks aos ensaios que publica no seu site, depois de sair da Google, Tristan criou a organização Time Well Spent em parceria com James Williams. A iniciativa divide-se em três eixos direcionados aos três tipos de posição que cada um pode assumir neste movimento. Para os utilizadores o apelo é que reconquistem o controlo sobre o seu tempo e para isso deixam 4 dicas e mais uma dúzia de sugestões. Aos designers pede-se uma tomada de consciência e sentido de responsabilidade para a forma como se concebem os interfaces, aos marketeers um pensamento mais humano na definição das métricas de sucesso.

Personalizar as notificações, limitar as apps no menu, usar o iPhone a preto e branco ou contabilizar o tempo perdido em cada app ou site podem parecer ideias descabidas mas valem pelo menos a experiência, como a causa vale a questão. Não é um problema de nicho nem um pormenor, é uma questão transversal e que nos pode influenciar mais do que nos apercebemos, pondo em causa a nossa tranquilidade e produtividade.

O aditivo da tecnologia é o que não escolhemos mas aceitamos. O objectivo do movimento é devolver a cada um o poder de escolha na navegação.