Quando uma rádio também é um festival

Uma rádio provisoriamente instalada no jardim serve de base de operações de um festival que, durante três dias, activa o espaço público de Ílhavo. Foi assim o Festival Rádio Faneca.

Festival Rádio Faneca

Há o da Cininha, o do Mónica (não, não é gafe), o dos Manicas. Ílhavo é uma cidade de becos, pequenas ruelas que não vão dar a lado nenhum mas que geram proximidade entre vizinhos. O Festival Rádio Faneca não acontece só nos becos de Ílhavo, mas bebe o seu espírito: o da proximidade, o dos encontros. É um festival que junta a cultura mais popular àquela arte que normalmente – e infelizmente – só vemos nas grandes cidades, numa coexistência que funciona muito bem.

O nome provém de uma memória antiga da cidade – a Rádio Faneca emitia aos domingos à tarde no principal jardim do centro histórico de Ílhavo e, durante o Verão, na praia da Costa Nova. A população juntava-se para ouvir a emissão e “pedir a música para a menina da frente, assim começavam os namoros”, confessa-nos um ilhavense. “Para pedir uma música, tínhamos de pagar.”

Durante os três dias do Festival, de 2 a 4 de Junho, a Rádio Faneca é reactivada. A sua emissão pode ser ouvida no jardim mas também online e no 103.6 FM. Serve de comando de operações a toda a programação do festival, que, além de concertos em palco e em becos da cidade, inclui histórias contadas por um grupo de teatro, jogos artesanais na rua, uma exposição de fotografia dedicada às gentes da terra, cinema no carro, dança tradicional com laivos de contemporânea, um percurso pedestre e mais.

É um festival para todas as idades e feitios, e é sobretudo um festival experimental e um “festival multidisciplinar”, explica-nos Luís Ferreira. A música serve de “gancho para atrair pessoas”, mas “não são nomes de todo impositivos, daqueles que esmagam o evento”. “Não queremos que as pessoas venham ver Samuel Úria e vão embora logo a seguir”, sendo um objectivo também manter a pequena escala do evento.

Cultura democratizada, cultura para todos

Luís Sousa Ferreira, que também organiza os Bons Sons, está a viver em Ílhavo desde que foi chamado para renovar o panorama cultural desta cidade a 15 minutos de bicicleta e 5 de carro de Aveiro. É um dos responsáveis pelo Festival Rádio Faneca, que chegou agora à sua 5ª edição“já existia antes de eu existir aqui.” Numa mesa com duas imperiais, explica-nos que este tipo de iniciativas permitem reactivar o espírito comunitário numa espécie de era do individualismo que as metrópoles, mesmo as mais pequenas como Ílhavo, fomentam.

Eventos como o Festival Rádio Faneca são “artifícios para as pessoas saírem à rua, socializarem e se divertirem”, e, por vezes, a sociedade precisa desses artifícios, defende. “É quase como quando vestes uma máscara e consegues assumir uma atitude diferente. Estas iniciativas proporcionam atmosferas diferentes para fazermos aquilo que de outra forma não faríamos. Aqui vestimos um fato festivo.”

É que o espaço público só ganha significado se neles existirem encontros – de que vale uma praça sem esplanadas ou iniciativas culturais que as preencham de vida? “Quando se pensa o espaço público, tem de se ter em conta a sua activacão”, defende. “É um olhar muito mais das disciplinas sociais do que a arquitectura. Às vezes, construímos praças que não são habitadas, não têm uma escala humana ou cuja função as pessoas não percebem. Há uma da imposição do betão em relação às práticas e aos programas das pessoas.”

Luís defende uma “cultura de encontros” por oposição a uma “cultura da especialização, da excelência e da vanguarda”. É sobre isso que trata o 23 Milhas, projecto municipal lançado no final do ano passado por todo o concelho de Ílhavo, incluíndo a Gafanha da Nazaré, a Costa Nova e a Vista Alegre. O objectivo é democratizar a cultura, fazendo as pessoas reencontrarem-se com ela. Para tal, foi preciso mexer nas estruturas da cidade, pondo de lado o conceito de “centro cultural” e promovendo iniciativas que impactam toda a cidade. O Festival Rádio Faneca enquadra-se perfeitamente nesta visão.

Um festival comunitário, um festival de criação

“Costumamos dizer que as pessoas são a cabeça-de-cartaz.” O Festival Rádio Faneca é um evento comunitário e para a comunidade, e faz disso uma das suas bandeiras. “As pessoas, a sua memória e as suas relações com o lugar não são apenas a matéria-prima; são também um contributo activo na definição do objecto final”, diz-nos. “Os artistas que estão cá a trabalhar querem trabalhar com as pessoas e gostam de fazê-lo. Quando assim é, é fantástico. As pessoas acompanham os processos, fazem parte desde o início e não vêem só o resultado.”

“Há imensas estreias aqui, tens muita coisa a acontecer aqui ou que pelo menos partem daqui”, refere, salientando a importância de guardar este legado. “Há um grande acervo destes anos que não está disponível. Queremos agora trabalhar isso para criar um arquivo vivo que continue a fazer com que a Rádio Faneca permaneça.” O Rádio Faneca é um festival de criação, para o qual contribuem os talentos de cada um, numa programação que faça sentido como um todo e que é complementada com projectos de fora ou artistas que se fixam temporariamente em Ílhavo.

É o caso da Amarelo Silvestre, grupo de teatro que se instalou em Ílhavo numa residência artística, escrevendo quatro pequenas histórias com o Farol da Barra (o maior de Portugal e o segundo maior da Península Ibérica) como denominador comum. A visita ao Farol e todo o trabalho no local, incluindo logística e ensaios, permitiu criar laços com a população. “Tenho as minhas as coisas guardadas na garagem de uma senhora. Hoje cedo fui bater-lhe à porta para as ir buscar e ela apareceu-me de pijama”, contou Ana Mafalda Pereira, uma das actrizes. O importante, diz, é sentir que não está a incomodar ninguém.

Os cenários das histórias eram aqueles que Ílhavo naturalmente lhes oferecia, obrigando o público a imaginar o resto a partir de um ou dois adereços. Ana Mafalda fazia-se acompanhar de um escadote que simulava os 290 degraus do farol no meio de um beco. É um palco pouco convencional e que, por vezes, leva os artistas a integrar os sons do ambiente, como o sino da igreja ou uns passarinhos, e a improvisar.

Ana encarnou uma personagem que encontrou uma forma de perspectivar e resolver os problemas, subindo as quase infinitas escadas do farol. Ali ao lado (porque as quatro histórias são contadas em simultâneo à hora certa), Sofia Dias, outra das actrizes, fazia de “viúva do farol” e protagonizava um monólogo de uma mulher que tenta fugir da tentação da luz do farol.

Histórias nos e dos becos

Nélson D’Aires, Alexandre Almeida e Augusto Brázio vieram para Ílhavo há quatro anos, para fazer o Becos De Pés, um ciclo de quatro exposições de fotografia, que explora as gentes e as histórias dos becos. A quarta mostra decorreu neste edição do Rádio Faneca – um total de 132 retratos e uma “escultura de tecido e luz, muito frágil e ténue, é um exercício sobre a memória e a sua fragilidade, e sobre a importância do tempo e de cuidarmos o arquivo”, descreveu Nélson. “Em Abril, abrimos um estúdio fotográfico temporário, na Casa da Cultura, e toda a gente era bem vinda a ser fotografada, e nós fotografávamos quem lá aparecesse.”

Terminado o ciclo, os três fotógrafos vão continuar por Ílhavo, “por conta própria, porque nos apaixonámos pelo concelho e vimos muita coisa que nos dá ganas de fotografar.” Todos os anos, o Becos Nos Pés teve um conceito diferente. “No primeiro ano, entrámos pela casa das pessoas e fotografámo-las no seu ambiente”, recordou. No segundo ano, o desafio foi materializar os sonhos das pessoas. “Viram-se na pele de um sonho, de uma construção que eles tinham eles próprios.” No ano passado, vasculharam os arquivos fotográficos pessoais para criar um jornal fictício onde a história de uma pessoa fosse notícia de primeira página. “Fizemos 16 primeiras páginas de tamanho gigante, de um metro de altura.”

Quando a arte popular e a cosmopolita se encontram

“É interessante a mescla que existe entre a arte tradicional e a arte de uma cidade, por exemplo, com uma coreografia mais contemporânea dentro de um rancho ou uma banda como a nossa numa praça público de uma cidade menos cosmopolita.” As palavras foram de Miguel Nicolau, guitarrista dos Memória de Peixe, que abriram as hostilidades no sábado no que toca a concertos. A banda mostrou o seu rock-jazz-modernista, como lhe chama, no palco secundário para uma centena e meia de pessoas. Himiko Cloud, o segundo disco, foi a base de uma actuação que trouxe a Ílhavo uma sonoridade pouco habitual.

Mais consensual e com mais público, seguiu-se Samuel Úria. Quem o acompanha desde o início da sua carreira, nota uma evolução. Está um autêntico homem de palco, seguro de si próprio e com vontade de rockar. “Temos vontade de ter rock no alinhamento por ser um palco aberto, independentemente do público”, confessou no final do concerto. “Dou-me Corda” inaugurou o alinhamento, que percorreu as restantes canções do segundo disco, Carga de Ombro, incluindo a faixa-título (que tinha sido estreada precisamente em Ílhavo), “É Preciso Que Eu Diminua”, “Repressão” e “Tapete”. “Chego aos fins dos concertos e muitas vezes não me lembro das canções que estive a tocar, lembro-me dos sinais e da intensidade, é quase um transe”, referiu.

Ao longo do espectáculo que durou uma hora e meia e teve direito a encore disfarçado, Samuel Úria procurou estabelecer um contacto próximo com o público, uma mancha onde ia reconhecendo algumas caras. “Ter consciência do nome da terra é importante porque surgem logo histórias de gente de cá ou de quando cá estive, e isso ajuda-me a criar diálogo. Sinto que existe uma empatia maior quando há um contacto que se estabelece a partir da terra. É tão útil e funciona tão bem que já nem penso nisso, brota com naturalidade”, disse. “A motivação de ir para palco não esmorece consoante o número de pessoas que se vê. Se tiver pouca gente, criamos mais facilmente laços com as pessoas.”

Uma das canções do encore foi “Armelim de Jesus”, faixa retirada de O Grande Medo do Pequeno Mundo (2013). “Fico satisfeito de ter o nome do meu avô – um nome esquisito – cantado por muita gente”, afirmou. “É uma canção que me esqueço sempre de meter nos alinhamentos e hoje não estava, acabou por acontecer porque estava na assistência outro neto do meu avô. (…) “Ele fez feitos grandes mas são feitos grandes na pequenez e no alcance que tinham. Era uma pessoa humilde e muito hospitaleira, alguém muito dado aos outros, apesar da sua severidade.”

Músicas do mundo em Ílhavo

Colorau Som Sistema assegurou a festa durante o resto da noite, com ritmos de cumbia, afrobeat e ska, provando a diversidade sonora do festival. Este lado “músicas do mundo” do Festival Rádio Faneca já tinha sido revelado durante a tarde, com um concerto de Mû Mbana num dos cantos da cidade. “Simplesmente maravilhoso tocar para crianças e adultos ao mesmo tempo”, disse durante o espectáculo feito com um banjo e uma flauta e que terminou com uma homenagem a Zeca Afonso. Natural da ilha de Bolama, na Guiné-Bissau, cresceu influenciado pelos cânticos religiosos praticados pelas mulheres das etnias Brame (Mancanha) e Bijagós (Bidjugu). O currículo inclui dez discos já editados. “Estamos limitados de tempo aqui. Quem me conhece, sabe que gosto de fazer concertos de 3 a 4 horas, referiu a terminar.

Naquele mesmo espaço, horas antes, já tinha tocado Valter Lobo, apresentando Mediterrâneo, o seu primeiro trabalho de originais, num diálogo constante com o público, sentado, ainda naquela moleza de almoço e início de tarde. Ora brincou com o Mercedes estacionado atrás do palco“que acham de fazer o concerto em cima dele?”; ora inquiriu sobre que música tocar a seguir – “Oeste” sugeriu alguém; “esta música é para aquela senhora, para ela apenas”, respondeu de volta.

Entre Valter Lobo e Mû Mbana não houve tempo para descansar, porque tocaram os The Oafs, a quem energia não faltou o seu indie folk. O segundo dia do Festival Rádio Faneca foi o mais jovem e consensual. A primeira noite, na sexta, destinou-se para os projectos da cidade: Tranglomango, um acordeão numa banda de rock; Edevez, um grupo de rock “à antiga”; DJ Roger, que agitou o iníco de madrugada com o seu rock, funk, soul e disco.

As casas abrem-se

“Somos nós, Dona Tininha.” Ouve-se a porta do prédio a ser destrancada. Subimos e, no terceiro andar, um sorriso simpático e vivivo esperava-nos por entre a porta semi-aberta da sua casa. Enquanto se faziam as apresentações, saíam da cozinha os últimos pratos e chegavam os restantes convidados. A Dona Tininha, anfitriã da noite, tinha a companhia da neta e de meia dúzia de amigos dela do Porto. A filha, que ajudou na preparação da refeição, e respectivo marido também estavam presentes, assim como outros familiares, amigos e vizinhos.

A Casa Aberta é uma das experiências mais próprias do Festival Rádio Faneca. As casas do centro histórico aderentes à iniciativa abrem as suas portas para receber amigos e desconhecidos que se rendem aos petiscos, costumes e conversas ilhavense. Alguns dos jantares acontecem nas casas, outros nos becos. Tanto os domicílios como as pessoas interessadas inscreve-se previamente; os primeiros recebem um subsídio de 5 euros por convidado para ajudar nos custos do jantar. O ponto de encontro é na Casa da Cultura – aí os inscritos são distribuídos aleatoriamente pelas casas. “É uma espécie de blind date, ninguém sabe em que casa vai calhar”, explicou Luís a todos os presentes.

A casa da Dona Tininha, decorada com trabalhos da própria, estava cheia e a mesa farta. Havia de tudo – pastéis, quiche, pataniscas, guisado, ovas… O bacalhau, tradição gastronómica de Ílhavo, era comum aos pratos. A conversa fluiu entre um petisco e outro, acompanhados sempre por um copo de vinho. No final, altura das sobremesas, os convidados já pareciam família. “No ano passado jantei na casa da Dona Tininha e hoje ainda me chama filho”, recordou Luís. Figura consensualmente acarinhada, nasceu no Porto e veio para Ílhavo aos seis anos; hoje tem 86 e uma energia que a mantém jovem.

O convite era para a festa e para o convívio, mas também para a fruição artística. Todos os anos os anfitriões respondem a um desafio – a neta lembra-se de uma edição em que todos vendaram os olhos para ouvir aquilo que depois ficaram a saber que apenas era uma gravação da avó. Este ano, foram desafiados a escrever uma “Carta ao Futuro”. A da Dona Tininha foi lida em directo na Rádio Faneca – o André Marques Santos, um dos locutores, estava a percorrer algumas das “Casas Abertas”.

34 horas de rádio em directo

Em estúdio, uma sala envidraçada com vista e porta directa para o jardim, estava Maria Inês Santos. “Não, não somos familiares”, esclareceu logo, numa pequena conversa no domingo. Ainda faltavam umas horas para terminar maratona de 34 horas em directo, mas já se notavam sinais de cansaço nas caras de ambos, que perante o microfone não perdiam o entusiasmo. “É muito mais que uma emissão de rádio”, dizem em uníssono. “Entram-nos no estúdio, pedem-nos músicas e ralham connosco porque ainda não passamos”, descreveu a Maria Inês. “É uma rádio, um espectáculo, uma emissão televisiva e uma terapia, tudo junto”, completou o André.

Tanto um como o outro gostam muito de rádio. Ela estudou comunicação social e tem experiência em rádios locais. Ele tem um podcast chamado Almofada de Ar Fresco, “uma revisão irónica do que não interessa da actualidade e que, ao mesmo tempo é tão indispensável às nossas vidas”, lê-se na descrição da página de Soundcloud. “Uma rapariga da organização conhecia-me e sugeriu o meu nome, sabia que gostava muito de rádio e tinha um estilo adequado ao do festival”, disse-nos Maria Inês, que chegou à Rádio Faneca primeiro que o André. “Não conseguia fazer isto tudo e disse precisava que alguém fizesse comigo. Por acaso até conhecia uma pessoa que ficaria muito bem a fazer rádio comigo.”

A emissão de 34 horas, que termina às 10 da noite e recomeça às 10 da manhã seguinte, permite que o “festival seja vivido por muito mais gente do que estão a vivê-lo aqui no local” e é o “fio condutor de todo este evento”, contextualiza Luís. “É importante na cultura haver um discurso e a rádio ajuda-nos muito a fazer esse discurso e também a ouvir os discursos dos outros, a dar a voz a quem participa e faz o festival.”

No jardim de Ílhavo, onde as principais atracções são os Jogos do Hélder, também se ouve a rádio. Espalhados e diversificados, são várias mesas de jogo e gerincanas criados por um residente de Ílhavo chamado Hélder – daí o nome –, que foi buscar a inspiração aos computadores e videojogos. A ideia é mesmo transportar essas diversões para fora dos ecrãs. Feitos de materiais tão simples como madeira ou corda, os Jogos do Hélder usam apenas energia humana e têm a notável capacidade de divertir pessoas de todas as idades.

Até para o ano, Rádio Faneca

Quanto ao futuro do Festival Rádio Faneca, Luís Sousa Ferreira refere-nos que o “festival tem de se reencontrar”, agora que há muito mais coisas a acontecer em Ílhavo, “quase com uma candência mensal”. Garantir que o Festival não passa a ser mais um evento e interligá-lo com as estruturas culturais entretanto criadas em Ílhavo são os desafios que se impõem. “Há relações que têm de ser pensadas agora que temos aqui espaços de residência e artistas em permanência”. “Na cultura não podes ter conforto e festival tem agora uma estrutura confortável, porque todos ja sabemos o seu desenho. Temos de repensa-lo, nem que seja para ficar todo igual outra vez.”

A escassez de associações culturais na região obriga ao envolvimento da Câmara Municipal em projectos como o 23 Milhas ou o Festival Rádio Faneca. Luís refere que é mais fácil envolver as comunidades em projectos independentes porque “as têm sempre históricos, seja porque não arranjaram a valeta ou porque são daquele partido”“É mais difícil organizar o 23 Milhas como um projecto que é da Câmara porque à primeira as pessoas nunca desligam dessa realidade do poder local.”