Kate Tempest é a artista certa para esta ocasião

Numa Europa perdida em tempo de Brexit e no rescaldo das eleições, conhece a artista britânica que põe tudo em perspectiva.
Kate Tempest artista

As músicas são como os amigos: para as ocasiões, e embora a tendência seja acomodar a música numa espécie de matrix cultural, cristalizando os seus símbolos e ignorando as suas mensagens, enquanto se sobre valorizam melodias e beats de estúdio, continuamos em 2017 a dispor duma extraordinária e, também ela crescente, onda de artistas em sentido contrário. Kate Tempest é facilmente um desses exemplos na nova geração e agora é a ocasião ideal para a descobrir.

Rapper e escritora, versátil na forma mas sempre incisiva no conteúdo, Kate Tempest é aos 31 anos um dos nomes do grandes não só do rap mas da poesia escrita em língua inglesa. Com um domínio genial da linguagem simples, Kate desbrava caminhos pouco explorados para a verdadeira poesia nas terras de Sua Majestade. Uma aventura que lhe tem valido – e merecidamente – a atenção dos media.

Para além do seu percurso no mundo do rap, que culmina no álbum que hoje destacamos, Tempest tem deixado a sua marca um pouco por todos os circuitos em que se valoriza a palavra. A ainda curta carreira da artista natural de Londres conta com distinções da poesia ao teatro. O seu primeiro livro de poesia “Everything Speaks In Its Own Way” esteve nomeado para o Guardian First Book Award, levou a palco a peça “Wasted” que lhe valeu encomendas da BBC e da Royal Shakespeare Academy; voltou à poesia com “Hold Your Own” e estreou-se no romance com “The Bricks That Built the Houses”. Entretanto, em 2014, lançou o disco Everybody Down merecedor de nomeação para os Mercury e em 2016 voltou a apostar na sua musicografia com Let Them Eat Chaos.

É neste último registo que Kate oblitera as dúvidas sobre as fundações da sua carreira. Depois de desistir da escola aos 14 e de ter ingressado numa Academia de Artes Performativas anos mais tarde, Tempest é uma daquelas artistas que faz do seu corpo de trabalho um modo de estar e lidar com a vida – e isso nota-se.

Let Them Eat Chaos é um disco denso onde o panorama global serve de cenário de fundo para uma expurga de todos os tipos de ansiedade, num dos poucos casos em que os rótulos Artista e Activista ainda parecem ser redundância. Para o disco, Tempest voltou a contar com o produtor Dan Carey, dois anos passados sobre Everybody Down. Kate Tempest confunde a força das palavras com a delicadeza do seu timbre e revela neste segundo disco ter aprimorado esta sua forma de viver: como se torna bom e  tranquilizador ouvir alguém a falar de tantos problemas?  

https://www.youtube.com/watch?v=TOXXdYtZSbQ

Com uma sensibilidade única e uma facilidade de expressão notável, Kate Tempest é uma saudável alternativa, um exemplo de clarividência, originalidade e do estranho compromisso entre o génio e o tempo, que distingue ao longo da história o efémero do clássico.

Let Them Eat Chaos é um grito de revolta contemporâneo à procura de quem se identifique e o disco perfeito para o momento conturbado que vive a sociedade mundial a braços com Trumps, Brexits e pouca União Europeia. Passará por Portugal no Paredes de Coura a 16 de Agosto.

Nota: as imagens do artigo foram retiradas do site de Kate Tempest e são uma prova da transversalidade e coerência da sua mensagem que nem no site é descurada.

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  • O João Gabriel Ribeiro é Co-Fundador e Director do Shifter. Assume-se como auto-didacta obsessivo e procura as raízes de outros temas de interesse como design, tecnologia e novos media.

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