5 lições da participação do Salvador Sobral na Eurovisão

Salvador Sobral pode até não ganhar esta Eurovisão que já ganhou o carinho de Portugal e muitas mais pessoas, numa edição do evento histórica a nível nacional.

Salvador Sobral eurovisão

Não se tem falado de outra coisa. A actuação de Salvador Sobral na primeira semi-final da Eurovisão e o apuramento do músico para a derradeira final no sábado, em Kiev, dominou por completo as redes sociais (e contagiou a imprensa) na noite de terça-feira e dias seguintes.

Em 2016, Portugal não participou na Eurovisão. Uma decisão que partiu da RTP que decidiu não organizar o seu Festival da Canção naquele ano, para repensar o formato e refrescar a estratégia de Portugal no renhido concurso de canções, no qual participam dezenas de países. O Festival da Canção regressou renovado em 2017, com a televisão pública a convidar 16 compositores para compor as canções a concurso – entre eles, nomes tão conhecidos e adorados como Márcia, Rita Redshoes, Noiserv, Samuel Úria ou Luísa Sobral.

Das 16 músicas distribuídas por duas semi-finais e uma final, o público escolheu a de Salvador Sobral – “Amar Pelos Dois” – para representar Portugal na Eurovisão.

O Festival Eurovisão da Canção realiza-se anualmente desde 1956 e conta nesta edição com 42 participantes. São países europeus mas também de outros continentes, uma vez que a competição é aberta a todos os membros do European Broadcasting Union (EBU). As músicas a concurso são as vencedoras dos vários festivais da canção, promovidos em cada país pela respectiva televisão pública. Portugal é o país que participa há mais tempo na Eurovisão sem nunca ter ganho. A estreia nacional foi em 1964 com “Oração” de António Calvário.

Ao longo dos anos, pisaram o palco da Eurovisão nomes como Simone de Oliveira, José Cid ou Paulo de Carvalho, que, em 1974, levou a Brighton o tema “E Depois do Adeus” (ficou em último, numa posição partilhada com mais três países). Lúcia Moniz deu a Portugal a melhor classificação de sempre – foi em 1996 quando “O Meu Coração Não Tem Cor” conquistou o 6ª lugar.

Desde esse ano, Portugal nunca mais se classificou nas primeiras dez posições e, desde 2010, nenhuma canção portuguesa chegava à final. A música que Salvador criou em conjunto com a irmã, Luísa Sobral, vai agora disputar com 25 concorrentes uma final onde entram as 20 canções qualificadas nas semi-finais; os denominados Cinco Grandes (França, Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido); e o país-anfitrião (Ucrânia).

“Amar Pelos Dois” surge como segundo favorito na tabela de apostas de vários sites. À frente está o tema apresentado pela Itália – “Occidentali’s Karma” de Francesco Gabbani. Salvador Sobral pode até não ganhar esta Eurovisão que já ganhou o carinho de Portugal e muitas mais pessoas, numa edição do evento histórica a nível nacional.

Há muito que uma edição da Eurovisão não era tão comentada como esta. Na página de Facebook do festival, o vídeo da actuação do Salvador Sobral na 1ª semi-final é, de todos, o que tem mais reacções, comentários e partilhas. É também o que mais visualizações tem: 1,7 milhões. No YouTube, onde também foi partilhado, é também o mais popular, com 855 mil visualizações.

Mensagens de apoio a Salvador não faltaram quer no Facebook quer no Twitter, onde o nome do músico esteve durante várias horas entre os tópicos tendência. Se quando ganhou o Festival da Canção as reacções foram algo tímidas (talvez por algum cepticismo relativamente ao evento), o entusiasmo não foi contido. Mas mais importante que os números e que o buzz em torno da Eurovisão (em parte influenciados pela máquina bem oleada da RTP), são provalmente as 5 lições que já podemos tirar da participação do Salvador na Eurovisão.

1 – “Quando se canta com o coração, as pessoas compreendem”

Salvador Sobral apareceu na Eurovisão com uma canção diferente de todas as outras. A simplicidade não só do tema mas de todo o aparato do músico português em palco contrastou com a exuberância das restantes actuações. Salvador não precisou de cenários excêntricos, luzes vibrantes ou roupa deslumbrante. Apenas de um palco, que nem sequer foi o principal.

Salvador cantou num pequeno círculo e, em seu redor, o público escutou a sua voz serena, enquanto bamboleava de telemóvel na mão e lanterna acesa. “A música é uma linguagem universal. Quando se canta com o coração, as pessoas compreendem. Quando é algo genuíno e não é plástico, as pessoas compreendem”, disse na conferência de imprensa que se seguiu ao espectáculo.

E é isso. Salvador não chegou à Eurovisão com um tema cantado em inglês e embrulhado numa pop barata e electrónica estridente. “Amar Pelos Dois” é uma música simples, sem artimanhas, que, mesmo em português, pode ser entendida por qualquer pessoa. A participação de Portugal foi, aliás, a única na 1ª semi-final sem letra em inglês.

Se um dia alguém
Perguntar por mim
Diz que vivi
Para te amar
Antes de ti
Só existi
Cansado e sem nada p’ra dar

Meu bem
Ouve as minhas preces
Peço que regresses
Que me voltes a querer

Eu sei
Que não se ama sozinho
Talvez devagarinho
Possas voltar a aprender

Se o teu coração
Não quiser ceder
Não sentir paixão
Não quiser sofrer
Sem fazer planos
Do que virá depois
O meu coração
Pode amar pelos dois

“Amar Pelos Dois” destaca uma das coisas mais bonitas na música – a sua versatilidade e portabilidade, a capacidade com que ela pode ser transportada e tocada em qualquer lugar, por qualquer pessoa. Devido a complicações de saúde, Salvador Sobral só chegou a Kiev na véspera do grande dia. Fez o último ensaio geral, os anteriores foram assegurados pela irmã.

2 – “O mínimo que posso fazer é deixar uma mensagem humanitária”

“Se estou aqui e se tenho exposição europeia, o mínimo que posso fazer é deixar uma mensagem humanitária.” As palavras são, claro, do Salvador Sobral e foram proferidas na conferência de imprensa que se seguiu à 1ª semi-final.

Na mesa onde estavam sentados os restantes representantes apurados para a final de sábado, o músico português destacava-se mais uma vez. Uma sweatshirt preta e, em letras brancas, a mensagem “S.O.S Refugees” chamaram à atenção dos jornalistas, pois claro. “Quando pensei em vir aqui, imediatamente pensei nos refugiados, porque eles estão a vir dos seus países, a fugir da morte. Não se enganem. Estas pessoas não são imigrantes, são refugiados”, disse.

“Não posso dizer que a Europa não está a fazer um esforço. Todos estão a fazer um esforço”, continuou Salvador. “Mas há tanta burocracia nos campos de refugiados na Grécia, Turquia, Itália, e nós podemos diminuir isso. Eles pedem certidões de nascimento a pessoas que acabaram de chegar em barcos de plástico. É simplesmente louco.”

3 – A descontracção de Salvador

Salvador Sobral não faz cerimónia. Em Kiev, na Ucrânia, onde está a decorrer a Eurovisão, tudo é descomprometido no representante português. Do cabelo desprendido à postura na passadeira vermelha (e aos olhos semi-cerrados, ou pensam que não reparámos?), Salvador parece ter como única preocupação ser ele mesmo: simples, emotivo e espontâneo.

Desde o Festival da Canção que Salvador parece estar genuinamente divertido com a experiência pela qual está a passar, levando-a com a seriedade que é exigida e com a serenidade que o caracteriza. No início estava um bocadinho ‘embriagado’ com tudo isto e agora estou com vontade de ver até onde isto vai”, confessou à RTP, depois da semi-final da Eurovisão. “Confesso que gostava de ganhar. A primeira vez que senti isto foi hoje [terça-feira], quando passámos à final.”

4 – As caras que viram memes

O descomprometimento do Salvador sente-se também nestes momentos. Memes e outro tipo de piadas com expressões engraçadas que, voluntaria ou involuntariamente, fez para as câmaras circularam pelas redes sociais. Salvador tem gestos característicos que não procura esconder, reforçando a sua nota de genuinidade até nos momentos mais formais e cliché.

5 – Há espaço para jazz em Portugal

“Amar Pelos Dois” não integra o alinhamento de Excuse Me, mas ajudou o disco de estreia de Salvador Sobral, editado em Agosto do ano passado, a subir no top de vendas da loja portuguesa do iTunes. Excuse Me está na primeira posição e “Amar Pelos Dois” lidera a tabela de singles.

No disco, Salvador Sobral surge acompanhado por outro grande nome da música nacional, Júlio Resende (piano), que coproduziu o disco, André Rosinha (contrabaixo) e Bruno Pedroso (bateria). Excuse Me apresenta composições escritas por Salvador Sobral e Leo Aldrey, às quais se juntam versões, por exemplo, de “Autumn in New York” de Vernon Duke, ou “Nem Eu” de Dorival Caymmi. Há ainda um tema – “I Might Just Stay Away” – escrito por Luísa Sobral, inspirado pela obra de Chet Baker, uma das referências de Salvador.

O talento do Salvador estende-se para além da ribalta da Eurovisão. Há espaço para jazz em Portugal e ainda bem.