Já não queremos ser belas. Queremos ter voz

O mundo da moda mudou e o que está a dar é dizer o que se pensa e defender causas.

Se antes ser modelo ou blogger era marcado pela imagem, pelos looks diários, pelas idas ao ginásio e pela alimentação saudável para manter o corpo esbelto, agora podemos afirmar com convicção que o cenário mudou. Actualmente a beleza não basta para conquistar o público: é necessário ter uma voz e falar sobre aquilo que se pensa, sem medos. É por isso que o feminismo e outras formas de activismo se tornaram numa espécie de must have.

“It’s no longer enough to have a look. The hot thing in modelling is not a look, but a viewpoint. It is having a voice and not being afraid to use it. It is TED talks and open letters. It is Instagramming pictures from protest marches and hosting debates about intersectionality. It is campaigning for charities and founding NGOs.” – The Guardian

O The Guardian sugere num artigo recente que podemos dizer muito sobre uma Era olhando para a indústria da moda. E se olharmos para a era em que vivemos, a das redes sociais e das tecnologias, aquilo que sobressai é precisamente a voz por uma causa, a opinião, a igualdade, a defesa dos direitos das minorias ou uma determinada forma de vida. É isso que nos faz querer seguir o perfil de alguém no Facebook ou Instagram: além da imagem bonita, queremos acompanhar pessoas por aquilo que dizem e por aquilo que defendem – e, de preferência, que isso se reflicta nas escolhas que faz da roupa que veste.

 

Esta não é a primeira vez que as modelos levantam a voz, mas é a primeira vez que esta atitude se institucionaliza e é valorizada. Em 1990, Cindy Crawford e Naomi Campbell recusaram-se a vestir pele. A modelo britânica Leomie Anderson é directora de um website que publica artigos sobre mulheres e tem uma loja online onde se vendem roupas com slogans de empowerment (um dos seus hoodies foi até usado por Rihanna na edição de Janeiro da New York Women’s March).

 

Adwoa Aboah, uma das caras da Dior e da Versace, é líder da iniciativa Gurlstalk, que incentiva as mulheres a mostrarem o seu mundo real. No instagram de Adwoa, tanto se podem ver desfiles de moda e fotografias para revistas como a sua batalha contra a depressão. Ebonee Davis, modelo da Calvin Klein, não se conformou quando um dos cabeleireiros disse não estar preparado para trabalhar com a textura do seu cabelo. Daí resultou o Ted Talk em que a própria explica a importância das mulheres negras na indústria da moda.

“If models represent a fantasised ideal of women, it is telling that until recently most have been seen and not heard. In the mid-19th century, when they first appeared, they were known as “mannequins” and were “professionally silent”, according to Caroline Evans, professor of fashion history at Central Saint Martins.” – The Guardian

Talvez por o mundo da moda ser conhecido por ser duro e difícil, são cada vez mais as modelos que agora aparecem a lutar contra os estereótipos e preconceitos associados à indústria. Assumindo estilos andróginos, despreocupados, que os agentes e as marcas acabam por preferir ao estilo barbie 86-60-86.

Parece que finalmente no mundo da moda, as mulheres podem ser como lhes apetece e que até no mercado mais fútil e (em tempos?) misógino do mundo, as mulheres podem lutar pelos seus direitos e igualdade. A moda é tal, que apesar destas pequenas vitórias, já vivemos num tempo em que importa perceber quando é que este activismo é real ou só uma forma de ganhar nome.

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