Morreu Jacques Fresco, um dos homens do futuro

Jacques Fresco morreu esta semana aos 101 anos.

Jacques Fresco

Jacques Fresco podia não ser sobejamente conhecido mas deixou uma legado ímpar que ainda nos levará anos por descobrir e explorar no que toca ao pensamento de futuro, resultado de uma longa vida de 101 anos pautada por um pensamento criativo e aquela ingenuidade saudável que só aos génios assenta.

Apaixonado por design, radical defensor da liberdade dos homens e do uso racional dos recursos, começou em 1975 um projecto que cruzou investigação e design e culminou numa das suas propostas mais disruptivas e sobretudo icónicas: Fresco acreditava num mundo sem dinheiro e com a riqueza repartida e para o provar criou uma réplica.

A notícia da sua morte foi confirmada por Roxanne Meadows, cônjuge de Jacques e parceira indispensável no seu grande projecto de vida: O Projecto Vénus – um complexo rural de 21 hectares onde Jacques materializou durante os últimos 40 anos da sua vida as suas ideias e princípios para uma sociedade focada na gestão dos recursos e não na acumulação da riqueza.

Originalmente situado na localidade de Vénus, na Florida, o projecto rapidamente ganhou tração global e um segundo âmbito. O que começou por ser uma experiência tornou-se numa espécie de ícone da visão de futuro, utilizado por Jacques e Roxanne para difundir uma série de princípios base que acreditavam ser indispensáveis ao futuro das sociedades.

“Eu gostava de ver o fim da guerra, da pobreza e do sofrimento humano desnecessário” é uma das tiradas mais marcantes de dezenas de entrevistas que na sua simplicidade sintetiza o espírito do génio. Morreu sem ver realizados esses seus sonhos mas depois de plantar uma semente de esperança que só o futuro pode tratar de fazer crescer.

Jacques podia não ter a solução para todos os problemas do mundo, como levianamente se chegou a dizer mas tinha, seguramente, ideias para como lidarmos com boa parte deles. Com um pensamento estruturado à la designer moderno introduziu na sua visão de sociedade contenção, equilíbrio e uma noção de eficiência rara focada nos recursos e não no lucro. 

Com ideias de todo o tipo e para praticamente todos os contextos, o seu portfólio vai desde meios de transporte modulares até paredes electrificadas anti-impurezas no ar, numa realidade onde sensores e computadores assumem um papel absolutamente central.

Para além da sua criatividade no que concerne engenharia social, Jacques Fresco era também um profícuo desenhista e maquetista, tendo ao longo da sua vida criado réplicas perfeitas de quase tudo o que imaginava e que mais tarde serviram de adereço a documentários e outro material de divulgação.

Embora o carácter utópico da sua proposta social possa levar a leituras menos responsáveis e precipitadas sobre os seus ideais, o que é certo é que a Fresco deixa-nos pistas para um futuro diferente como poucos outros.

Na sua vida privada, Jacques Fresco, começou por participar da Liga Comunista, da sua cidade natal, da qual acabou por se afastar após expressar a sua discórdia com as ideias de Marx. Foi nessa altura que o seu pensamento se desviou para um caminho mais técnico com o surgimento do design industrial na sua vida. Foi auto-didacta, trabalhou como consultor em várias áreas e para diversas empresas e chegou a criar a sua própria empresa, de plásticos, que também abandonou anos mais tarde para se dedicar às suas ideias e projectos. Ao longo dos 101 anos somam-se curiosidades, entre elas uma que conta em entrevistas, com alguma graça, como o dia em que conheceu Einstein.

Jacques Fresco é um daqueles génios/artistas com os quais não nos devemos atrever a concordar ou discordar à primeira. Com uma obra tão detalhada e um pensamento tão desviante é um exemplo claro de onde a liberdade intelectual e os sonhos podem conduzir um homem focado nos seus ideais.  À sua mulher Roxanne chegou a confessar o seu desgosto por não ser levado mais a sério por não ter credenciais académicas.

“As únicas limitações para o futuro da humanidade são as que impomos a nós próprios”

As suas ideias e obra podem ser descobertas no site do Projecto Venus e nas dezenas de material que circula quase todo livremente pela internet.