Existential Comics: a filosofia pode ter (muita) piada

Como a internet pode ser um novo terreno fértil para a disseminação de ideias, como em tempos foi, por exemplo, a tradição oral.

Quem acha que a filosofia não pode ter piada é porque provavelmente nunca se cruzou com o sketch dos incontornáveis Monty Python, que coloca frente a frente, num campo de futebol, filósofos gregos e alemães, numa clara alusão à disputa intelectual europeia. Uma fórmula simples, que até costuma dar lugar a memes por altura de Euros e Mundiais, mas que bem analisada esconde interessantes detalhes sobre as teorias e ideias dos representados.

É a partir dessa mesma fórmula mas num registo diferente, adaptado aos dias de hoje, que os Existential Comics tentam divulgar o pensamento de nomes importantes da corrente de pensamento existencialista como: Kierkegaard, Simone De Beauvoir, Sartre, Marx ou Albert Camus.

O segredo parece estar, tal como no sketch dos Monty Python, no inusitado que nos desafia à reflexão entre gargalhadas, em vez dos habituais sermões. Entre memes, tiras de bandas desenhada e anedotas filosóficas, o site – com extensão na página de Facebook – já soma mais de 300 mil seguidores, registando dia após dia números impressionantes de interações.

Entre as criações mais afamadas, está a banda desenhada central do site, chamada Mad Marx, em que Karl Marx personifica de um modo literal a ideia de luta de classes surgindo como um autêntico guerreiro. Em cada página ou tira de banda desenhada, é frequente vermos vários filósofos a entrar em cena em diálogos que só a imaginação podia criar e que ajudam a relacionar as diferentes ideias entre si. Nem os defeitos ou preconceitos são deixados de parte, servindo geralmente de trigger para as melhores piadas. A acompanhar cada banda desenhada surge geralmente uma pequena explicação e a referência aos filósofos mencionados, não vá o desenho confundir o leitor.

Começou como uma brincadeira de Corey Mohler mas já tem mais de 600 apoiantes na plataforma Patreon e um income que permitiu contratar um novo ilustrador para os textos de Corey. O que não sendo propriamente uma fortuna é um bom incentivo para tornar a brincadeira cada vez mais séria. Há até comentários de professores da disciplina a agradecer a Corey o seu trabalho na simplificação de questões por vezes tão assustadoramente complexos.

Com a internet, surgiram dezenas de novas formas de comunicação, algumas das quais ainda por explorar. Os memes e posts são novo terreno fértil para a disseminação de ideias como em tempos foi, por exemplo, a tradição oral. Páginas como esta não são únicas nem especialmente importantes, convenhamos, mas são uma óptima demonstração de que na simplicidade de linguagem imposta pelo online é possível ser disruptivo, pedagógico e divertido sem aprofundar estereótipos, incentivar à violência ou promover sectarismos. 

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  • O João Gabriel Ribeiro é Co-Fundador e Director do Shifter. Assume-se como auto-didacta obsessivo e procura as raízes de outros temas de interesse como design, tecnologia e novos media.

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