A Bela e os Monstros

Como a luta no feminino está a sair à rua e a deixar marcas.

Provavelmente já perdeste a conta à quantidade de vezes que viste esta imagem. Pelo que mostra, não é difícil adivinhar de que se trata. Mas importa que percebas em concreto. A fotografia foi tirada na República Checa durante uma manifestação do 1º de Maio organizada pelo Partido Trabalhista neo-Nazi da Justiça Social.

A escuteira que vês tem 16 anos, chama-se Lucie Myslikova e é estudante de Cinema na cidade checa de Brno. Participava numa contra-manifestação e no momento em que a foto foi capturada, estaria a discutir sobre refugiados e migrantes. Em declarações à BBC, disse que estava a tentar explicar ao homem (até agora anónimo) que os países tinham o dever de ajudar aqueles que fogem da guerra e que nesses casos não devem existir fronteiras. O homem ter-lhe-à respondido que ela ia ser violada pelas pessoas que estava a querer salvar e ajudar.

Lucie diz ainda que não teve medo e que foi ao protesto porque estava determinada em mudar o mundo à sua volta. Acrescenta ainda que os jovens se devem envolver mais na política e a todos os que lhe disseram que não se devia ter metido com skinheads, respondeu que são os jovens quem vão ter que passar mais tempo no mundo, por isso deviam ser eles a ter a vontade de mudar o curso do mundo.

À BBC, disse ainda que o que mais a surpreendeu foi o facto de, depois da fotografia se ter tornado viral, ser agora rotulada de extremista: “Como se ser anti-fascista fosse de alguma forma extremista. Isso parece ser o auge do absurdo.”

A força de Lucie é visível na fotografia e esse é, provavelmente, o principal motivo pelo qual esta se tornou tão viral. Há uma certa magia em torno da farda e das bolas de sabão que se vêem no ar que reforça a mística em torno de um momento que não é totalmente inédito.


Temos visto nos últimos tempos uma série de fotografias que mostram mulheres na luta. A genialidade (e pertinência) dos fotojornalistas no local é de exaltar. São eles que captam os momento, na maioria das vezes inusitado. Mas não estaremos já a assistir quase a uma espécie de movimento?

Também à BBC, o fotógrafo responsável pela fotografia de Lucie Myslikova, Vladimir Cicmanec, confessou que se sentiu inspirado pelas recentes fotografias virais de mulheres que se impõem perante o fascismo/racismo e outras formas de violência ou extremismo. Vladimir descreve-se como um programador que fotografa de vez em quando e admite que talvez por isso não tenha tido o faro apurado para dar conta da situação desde o início: “Foi um amigo que me avisou. Quando vi o momento, pensei imediatamente naquela fotoda garota de Birmingham [que te mostramos em baixo] e disse para mim mesmo – esta também podia ser uma imagem interessante.”

O que é certo é que não há uma manifestação hoje em dia da qual não saiam fotografias como estas. A importância das mulheres na luta, seja ela qual for, está a deixar marcas e, mais importante que isso, parece uma boa moda que chegou para ficar.

 


Portugal foi quase pioneiro neste movimento. Em Setembro de 2012, Adriana Xavier abraçou um agente da polícia de choque na manifestação que juntou centenas de milhares de pessoas contra a troika e o governo de coligação PSD/CDS, em Lisboa. O momento foi captado pelo fotógrafo José Manuel Ribeiro.

 


Saffiyah Khan foi apanhada a sorrir para um manifestante do grupo de extrema direita English Defence League na cidade britânica de Birmingham, em Abril. A imagem foi captada por Joe Giddens.

 


Tess Asplund, activista ligada ao grupo de consciencialização Afrophobia Focus, colocou-se no caminho de um grupo de neonazis, durante uma manifestação na Suécia, em Maio de 2016.

 


Zakia Belkhiri tirou uma selfie considerada por muitos “insolente” em frente a um grupo de manifestantes anti-Islão, usando orgulhosamente o seu hijab. Foi em Maio de 2016 em Antuérpia, na Bélgica e foi captado por Jurgen Augusteyns.

 


Em Julho de 2016, a activista pelos direitos dos negros nos EUA, Ieshia Evans, avançou sozinha em direção à polícia de choque, durante uma manifestação contra o abuso do uso da força por parte das autoridades em relação à comunidade afro-americana. A fotografia é de Jonathan Bachman e venceu um prémio na edição deste ano do World Press Photo.

 


No Chile, o fotógrafo Carlos Vera captou o momento em que uma manifestante olha nos olhos com um agente da polícia de choque. Aconteceu durante um protesto que se realizou a 11 de Setembro de 2016 contra o golpe militar que, no mesmo dia, em 1973, derrubou o governo de Salvador Allende e instaurou a ditadura militar de Pinochet.

 

Na Venezuela uma imagem ligeiramente diferente mostra marcas da mesma luta. Maria José, filha de emigrantes Portugueses, enfrenta os “rinocerontes” da polícia nas manifestações que têm marcado a agenda política do país nos últimos tempos. A fotografia é de Marco Bello da agência Reuters.

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