Da morte química ao castigo norte-americano com a “mãe de todas as bombas” à cabeceira

Um olhar sobre o complexo conflito armado dos últimos dias.

trump siria

As últimas semanas foram profícuas em acontecimentos bélicos. Dezenas de pessoas morreram depois de um ataque químico à província síria de Ildib e Donald Trump culpou Bashar al-Assad pelo sucedido retaliando com 59 mísseis lançados a Al Shayrat, o suposto local de onde teriam saído as bombas de gás Sarin um par de dias antes. O presidente norte-americano ordenou o lançamento destes tomahawks sentado à mesa com o presidente Xi Jinping e, como o próprio descreveu, com “o mais bonito pedaço de bolo de chocolate” à frente. Na passada quinta-feira, outro ataque, desta vez dirigido a Achin, no Afeganistão, onde, de acordo com Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca, uma célula terrorista do Daesh circulava através de um sistema de túneis.

Se pouco mais houvesse a escrever sobre o assunto e, sobretudo, se as alegações feitas pelos intervenientes desta guerra não pudessem ser contestadas, tudo estaria claro. No entanto, não é isso que acontece.

A Síria, o ataque químico e o “correctivo” de Donald Trump

Foi um dos piores ataques com armas químicas alguma vez perpetrado em território sírio. Aconteceu no passado dia 4 de Abril e resultou em pelo menos 69 mortos. Um relatório emitido pela Organização Mundial de Saúde identificou que um dos agentes utilizados neste bombardeamento foi Sarin, um gás capaz de impactar fortemente o sistema nervoso. Os efeitos podem ser vistos nos vídeos que surgiram online. Porque entre os corpos defuntos que nessa manhã caíram no chão de Ildib, dezenas de outros lutaram contra a sua própria morte que aos poucos chegava entre os soluços, arquejos e a espuma borbulhante que lhes escorria pela boca.

Proibido desde 1993 pela comunidade internacional, aquando da realização da Convenção de Armas Químicas, a utilização do gás torna ainda mais grave um ataque que as Nações Unidas não vão poder investigar depois da Rússia exercer o seu poder de veto sobre o assunto.

A culpa, embora sem provas suficientes para ser imputada a qualquer parte, foi inicialmente atribuída pela maioria dos líderes políticos do ocidente ao governo sírio do presidente Bashar al-Assad. A justificação prende-se com o facto de a zona atacada ser ainda dominada pelos rebeldes que se opõem ao executivo no poder. No entanto, ainda no rescaldo do acontecimento, o líder sírio fez saber a sua opinião. Nas palavras do presidente, o ataque foi “100% fabricado”. “Não sabemos se aquelas crianças foram mortas em Khan Sheikhoun […] e será que estavam mesmo mortas?”, questionou Assad em entrevista à Agence France-Presse, durante a qual negou também qualquer envolvimento no ataque.

Para a Rússia, nada disto aconteceu. De acordo com o ministro da Defesa do país, o ataque foi desferido pelas forças militares do regime sírio, sim, mas a um armazém onde estavam a ser produzidos agentes químicos que mais tarde seriam levados para o campo de batalha pelas forças rebeldes.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas continua por apurar um culpado. Os Estados Unidos, por sua vez, nem por isso.

Em resposta a este bombardeamento químico, Donald Trump fez exactamente o contrário daquilo que preconizava em 2013 no Twitter. O ataque, que foi pela Casa Branca adjectivado como “repreensível” e como um acto contra pessoas inocentes “que não pode ser ignorado pelo mundo civilizado”,  teve uma pronta resposta dos EUA: 59 mísseis tomahawk endereçados à região de onde supostamente saíram os aviões com a carga química que atacou Ildib. A ordem de lançamento, disse Trump, foi dada à mesa com o presidente chinês, Xi Jinping, “durante a sobremesa”.

A taxa de aprovação pública de Trump beneficiou com esta decisão. Afinal, o presidente que durante toda a campanha eleitoral se mostrou belicoso, estava finalmente a cumprir a personalidade que o elegeu. Com isto, a postura dos EUA face à guerra na Síria é agora inversa à não-intervenção que Barack Obama sustentou durante o seu mandato, tendo o ataque químico figurado um pretexto de ataque que pode, num futuro breve, transformar-se numa presença armada de maior dimensão.

A NATO, que entretanto deixou de estar “obsoleta” para o presidente norte-americano, apoiou o ataque.

A “mãe de todas as bombas”

Nesta última semana os rebentamentos continuaram com outro alvo que há muito tinha o “inferno” prometido por Trump. Em Achin, Afeganistão, as forças militares norte-americanas lançaram aquela que é a munição não-nuclear mais potente do seu arsenal. O alvo, que foi atingido com sucesso no decorrer desta operação, era um complexo de túneis alegadamente utilizado pelo Daesh para circular numa zona que, acreditam alguns especialistas, os terroristas têm utilizado para se refugiar.

Com a Síria cada vez mais policiada por alianças externas, o ISIS tem migrado partes do seu contingente para o Afeganistão. Na perspectiva dos Estados Unidos e da NATO, esta facção parecia estar a ganhar força em torno de uma base de operações que se tem vindo a tornar mais completa com o tempo. “Quando comparamos os diferentes grupos que estão afiliados ao ISIS em todo o mundo, talvez o que está agora no Afeganistão seja um bocado mais substancial do que inicialmente se pensou”, disse John Nicholson, general das forças armadas norte-americanas destacadas no Afeganistão.

A célula tem sido responsável por alguns dos ataques mais sofisticados que têm sido levados a cabo no país e há, por isso, um risco inerente de expandir a oposição armada a um arsenal cada vez mais potente. Raffaello Pantucci, diretor de Estudos Internacionais de Segurança no Royal United Services Institute, disse ao The Independent que esta foi uma forma de materializar a posição mais dura que Trump prometeu no caminho para a Casa Branca. E outra das provas que podem atestar isso mesmo, é o destacamento de mais tropas para a Somália e o Iémen. “Neste momento, o executivo está claramente a analisar as ferramentas [armas] que tem à sua disposição e a escolher as que vai utilizar”.

Ilustração: Ricardo Santos

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