Nunca a história do símbolo da paz foi tão actual

Conheces a origem deste famoso ícone?

símbolo da paz

Já o viste em t-shirts, cartazes, bandeiras, brincos, colares, malas, sacos, posteres, autocolantes, crachás. O merchandising sem fim levou o símbolo aos olhos do mundo. Há quem ainda ache que se trata de uma certa marca de carros, mas a maioria das pessoas sabe que ☮ é sinónimo de paz.

Foi-nos ensinado pelo tempo e por essa tal popularidade gráfica que o símbolo ganhou, e que será responsável também pela sua difusão entre as gerações futuras. Que o design é conhecido e actual já sabemos, mas e a sua verdadeira história? O símbolo tornou-se símbolo de paz mundial, representação apaziguadora de tudo o que se passa no mundo. Mas como surgiu? Quem o desenhou e com que propósito?

Se começarmos por te dizer que foi desenhado nos anos 50 como o logótipo da Campanha britânica pelo Desarmamento Nuclear, talvez percebas porque nos lembrámos dele agora. Acabou por se arrastar até aos anos 60 e foi adoptado também por activistas anti-guerra e pelo movimento de Contracultura até aos dias de hoje, mas para saber a história temos que ir até à sua origem.

Foi no fim-de-semana da Páscoa em Abril de 1958  que o símbolo foi visto pela primeira vez, na famosa marcha entre Londres e Aldermaston, uma vila em Berkshire. Era lá que o Reino Unido tinha o seu centro de investigação nuclear e quando o Governo britânico anunciou o seus primeiros testes termo-nucleares, foi até lá que dezenas de milhares de pessoas decidiram marchar. Foram mais de 4 dias para percorrer cerca de 83 quilómetros.

Esta primeira marcha foi organizada pelo Comité de Acção Directa contra a Guerra Nuclear e apoiada pela recém-formada Campanha pelo Desarmamento Nuclear (CDN), mas a partir de 1959 a CDN decidiu mudar literalmente o rumo da marcha e inverteu a direcção do percurso. Passou a organizar marchas anuais de Aldermaston para Londres e chamou a atenção pelo compromisso à causa e por ter o culminar do protesto na zona de poder e no centro da capital, na Trafalgar Square.

Em 58, cerca de 500 símbolos foram mantidos no ar em cartazes e sinais ao longo dos 83 quilómetros de marcha, o que sugere que manifestantes e organização estavam cientes da necessidade do impacto político e visual do protesto.

O símbolo foi desenhado por Gerald Holtom, designer profissional e pós-graduado do Royal College of Art, currículo que pode explicar o sucesso imediato da forma, bem como a rapidez com que foi oficialmente adoptado pela CND. Holtom era um objector de consciência. Documentos antigos mostram o seu processo de trabalho, e o pensamento vanguardista que assumiu ao querer criar um ícone que falasse por si, uma imagem que, por si só, significasse o desarmamento nuclear.

As linhas do símbolo foram inspiradas no alfabeto semafórico. Caso não saibas bem o que é, basta imaginares alguém a segurar bandeiras (tipo polícia sinaleiro). Tens a linha do N para “Nuclear” e do D para “Disarmament”.

Ao longo dos anos e em várias entrevistas e conversas, Gerald Holtom foi contando histórias diferentes acerca do processo que o levou ao desenho final. Chegou a dizer que no desespero de tentar encontrar um conceito se desenhou a si próprio, de joelhos e mãos na cabeça e que as linhas são essa reprodução. Outra das características que se diz que esteve no pensamento de Holtom é o facto de, quando invertemos o símbolo, ele parecer uma árvore – árvore da vida, dizem – símbolo de esperança e ressurreição.

Um símbolo com uma mensagem tão bem encapsulada no seu design significava que podia ecoar tanto as frustrações de um activista anti-nuclear em face da mudança política como o sentimento de optimismo perante o que a tarefa em mãos lhes ia trazer. Desde o início, o objectivo de Holtom era ajudar a instigar mudanças positivas e provavelmente, nunca imaginou que ainda hoje, 32 anos depois da sua morte, o seu trabalho fosse símbolo de uma vontade maior. É pena que, ainda hoje, mais do que nunca, as lutas nucleares estejam na iminência de uma realidade próxima.

A CND continua a perseguir a sua missão pela paz internacional e todos nós, numa acção reflexa de um trabalho tão bem feito que ultrapassa décadas e contextos, continuaremos a pedir paz assim: ☮, e assim ✌.