Sabias que existe um dialecto com origem portuguesa chamado Cristang?

Tem mais de 500 anos e os linguistas estão a tentar salvá-lo.

Teve origem em Malaca, na Malásia, e no legado deixado pelos antepassados portugueses, do tempo dos descobrimentos. É considerado um criolo de base portuguesa,  deriva do português, do malaio e tem elementos do chinês, como o mandarim e o hokkien (um dialeto asiático). “Cristang” significa nessa mesma língua: cristão.

A história

A primeira expedição portuguesa chegou a Malaca em 1507 e a zona tornou-se uma base estratégica para a expansão portuguesa nas Índias Orientais. Seguiu-se D. Afonso Albuquerque como vice-Rei da Índia, uma série de casamentos entre portugueses e locais incentivados pelo reinado e a estadia na região do famoso missionário jesuísa S. Francisco Xavier.

O contacto com Portugal terminou em 1641 mas apesar disso, a comunidade cristang preservou as suas tradições, religião e língua. Para os malaios, quem vive nessa zona são os “portugueses”, que celebram o Natal e alguns serviços religosos em português.

A língua

Mantém surpreendentes semelhanças culturais e linguísticas com o português actual, especialmente da região do Minho. Apelidos usuais como Monteiro ou Fernandes revelam a origem portuguesa e há mais de 300 palavras que relembram as nossas que permanecem na língua malaia: sekolah (escola); bendera (bandeira); mentega (manteiga); keju (queijo) ou meja (mesa).

O dialecto kristang parece, à primeira vista, uma espécie de língua portuguesa mais simples em termos da conjugação dos verbos. Os advérbios “já” e “ainda” tornam se partículas que põem o verbo em tempo passado e presente respectivamente, mantendo verbo no infinitivo. Por exemplo: Yo já comer = Eu (já) comi; ou Yo ainda comer = Eu (ainda) comerei.

Analisando as expressões mais comuns, é fácil perceber as parecenças pela fonética. Imagina que pedes a um amigo asiático para repetir “boa tarde”. Bong atadi parecia-te uma resposta plausível?

“Bom dia” diz-se Bong pamiang;

“Boa noite” – Bong anuti,

“Muito obrigado” – Mutu merseh,

“Estás bom?” – Teng bong?,

“Eu” – Yo,

“Vós” – Bos,

“Mãe” – Mai,

“Pai” – Pai,

“Mulher” – Muleh,

“Marido” – Maridu,

“Velha” – Bela,

“Velho” – Belu,

“Pequenino” – Quenino,

“Gordo” – Godru,

“Bonito” – Bonitu.

Chega para perceber as parecenças? Importa explicar-te que o Cristang é essencialmente uma língua falada e há poucos registos da sua forma escrita. Não existe um sistema de ortografia e pronúncia normalizado e uma palavra pode ter dezenas de variações. Por exemplo, a palavra para o número “quatro” – quartu em cristang – pode ser dita e pronunciada de 20 maneiras diferentes.

E como a língua está em declínio há muito tempo, existem várias lacunas no vocabulário. Não há palavras para conceitos básicos como maçã ou enfermeiro.

Mas um grupo chamado Kodrah Kristang – algo como “Acorde o Cristang”, inventou novas palavras a partir da mistura de línguas que estão nas raízes do dialeto.

A palavra em cristang para maçã tornou-se manzang, uma adaptação da palavra em português com uma regra gramatical malaia.

Algumas dessas invenções podem ter até uma inclinação poética: uma câmara fotográfica é uma pintalumezi, ou “máquina de pintar com a luz”, enquanto a palavra para “gramática” diz-se osulingu – “ossos da linguagem”.

A extinção

O Kodrah Kristang nasceu da necessidade de salvar uma língua em extinção. No século XIX, estima-se que o dialecto fosse falado por cerca de 2 mil pessoas. Actualmente, os investigadores calculam que apenas 50 falem a língua em Singapura e poucas centenas sejam fluentes na Malásia.

A língua não é ensinada nas escolas e a principal razão apontada para o seu declínio está relacionada com o facto da comunidade se ter tornado cada vez menos relevante economicamente.

Quando a Malásia e a Singapura ainda eram colónias britânicas, muitos descendentes de portugueses encontraram trabalho no serviço público. A língua inglesa acabou por se tornar mais importante, e muitas pessoas começaram a desencorajar os filhos de falar Cristang. O declínio continuou à medida que os chamados portugueses euroasiáticos se casavam com outros grupos étnicos e o Cristang deixou de ser uma língua reconhecida oficialmente na região.

Hoje em dia, o Kodrah Kristan organiza visitas à “Vila Portuguesa” de Malaca, onde ainda vive uma pequena comunidade de portugueses euroasiáticos, mas onde, apesar disso, o dialecto foi lentamente desaparecendo.

Além disso oferece aulas gratuitas todas as semanas, nas quais participam cerca de 200 pessoas, começou a desenvolver um dicionário e um livro didático, criou cursos de áudio online gratuitos e até gravou covers de músicas populares em Cristang, que foram publicados no YouTube.

Acreditam ainda estar muito longe de ressuscitar o Cristang mas vêem este esforço como um primeiro passo. A ideia é que mais pessoas se tornem fluentes e, assim, transmitam o que aprendem a gerações futuras, porque apesar de não haver razões económicas para reanimar a língua, ela faz parte da história e herança daquela região.

 

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