Quatro filmes portugueses em Cannes

Três curtas e uma longa-metragem vão estar entre a Quinzena de Realizadores e a Semana da Crítica.

Duas curtas e uma longa-metragem portuguesas foram seleccionadas para a Quinzena de Realizadores, um dos programas paralelos do Festival de Cinema de Cannes, que acontece em Maio. A presença portuguesa no festival francês fica reforçada com uma terceira curta noutro evento paralelo, a Semana da Crítica.

Água Mole, curta-metragem das realizadoras Laura Gonçalves e Alexandra Ramires, vai ser exibido na Quinzena de Realizadores. Desenvolvida com recurso à técnica da gravura, a animação é um poético retrato da desertificação do interior do país através do ponto de vista dos que se recusam a abandonar o local onde nasceram. O filme, produzido pela Bando À Parte, junta entrevistas reais a uma narrativa ficcionada.

“Este filme surgiu a partir de um conjunto de viagens que fomos fazendo no interior de Portugal, onde recolhemos alguns registos sonoros. A curta pretende mostrar principalmente o lado de quem opta por ficar na sua terra nestas correntes migratórias”, explicam as realizadoras em comunicado. “Tratando-se de uma animação, que é o cinema que fazemos, sentimos esta estreia em Cannes como uma oportunidade incrível para a levar a animação a um público mais abrangente.”

Água Mole será mostrado na Quinzena dos Realizadores ao lado de Farpões, Baldios. Realizado por por Marta Mateus, é um pequeno filme de cerca de meia hora protagonizada por crianças e rodado no Alentejo, produzido pela C.R.I.M. Também na Quinzena vai ser exibido A Fábrica de Nata, longa-metragem de Pedro Pinho.

A película é um convite para repensar o papel do trabalho num tempo em que a crise se tornou a forma dominante de governo, um hino à impotência destituinte e um musical lamentável. Na sinopse, lê-se: “Uma noite, um grupo de operários percebe que a administração está a roubar máquinas e matérias-primas da sua própria fábrica. Ao decidirem organizar-se para proteger os equipamentos e impedir o deslocamento da produção, os trabalhadores são forçados – como forma de retaliação – a permanecer nos seus postos sem nada que fazer enquanto prosseguem as negociações para os despedimentos. A pressão leva ao colapso geral dos trabalhadores, enquanto o mundo à sua volta parece ruir.”

A Quinzena dos Realizadores, que decorrerá de 18 a 28 de Maio, foi criada pela Associação dos Realizadores de Cinema pouco depois do Maio de 1968, com o objectivo de descobrir filmes de jovens autores e de reconhecer a obra de realizadores conhecidos. Entre curtas e longas-metragens, a Quinzena dos Realizadores apresentará cerca de 30 filmes, entre os quais, em estreia mundial e na sessão de abertura, Un Beau Soleil Intérieur, de Claire Denis, com Juliette Binoche e Gerard Depardieu.

Patti Cake$, primeira longa-metragem de Geremy Jasper e que encerrará a Quinzena, West of the Jordan River, de Amos Gitai, Jeannette, The Childhood of Joan of Arc, de Bruno Dumont, L’Amant d’un Jour, de Philippe Garrel, e Froost, de Sharunas Bartas, também foram seleccionados.

Noutra sessão paralela ao Festival de Cinema de Cannes terá estreia mundial Coelho Mau, curta-metragem de Carlos Conceição. Trata-se de uma co-produção lusofrancesa entre a Primeira Idade e a Epicentre Films com duração de 30 minutos e com uma história baseada nas relações entre dois irmãos (João Arrais e Júlia Palha), numa mãe ausente (Carla Maciel) e no seu amante (Matthieu Charneau) – “personagens que vacilam entre a iminência da morte e o assombro face aos seus desejos”.

Através da Quinzena de Realizadores e da Semana da Crítica, Portugal marca presença em Cannes – a anunciada Selecção Oficial do festival não reteve nenhuma obra de produção nacional.