Quem são os candidatos às Presidenciais em França?

Um guia rápido para a primeira volta de eleições a 23 de Abril.

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Faltam poucos dias para a primeira volta das eleições que vão decidir o futuro da França e da Europa. O Presidente da República Francesa é eleito para um mandato de cinco anos e é inegável a influência desta votação para a continuação do projecto europeu e para a relação entre os estados-membros da União Europeia. Os 28 – que graças ao Brexit, daqui a 2 anos passarão a ser 27 – estão de olhos postos na luta Le Pen vs. Macron e a vitória de um ou de outro pode trazer alterações drásticas para este lado do mundo.

Este processo eleitoral pode dividir-se em duas mãos. A primeira acontece já dia 23 de Abril. A maioria das sondagens indica que a falta de um candidato com maioria na primeira votação vai mesmo levar a uma segunda volta de eleições, que se realizará a 7 de maio.

Para estarem inscritos na primeira volta de eleições, os candidatos tiveram que recolher até meados de Março 500 assinaturas de políticos eleitos, a nível nacional ou local.

Os requerimentos eram difíceis, mas a facilidade acaba por se rever no número de candidatos à primeira volta. 11 pessoas conseguiram reunir as assinaturas necessárias e vão a votos no próximo Domingo.

Com a genialidade de sempre, John Oliver resumiu o currículo e ideias de algumas delas. Um vídeo a não perder, não só pela caracterização satírica que o humorista faz dos candidatos recorrendo aos mais conhecidos clichés franceses, como pelo paralelismo que estabelece com os últimos acontecimentos políticos no Reino Unido e Estados Unidos: “L’Angleterre et les États-Unis ont fucked up. Ne fuck up pas non plus.”

Na mesma linha, e na tentativa de te chamar a atenção para a importância e influência desta votação, decidimos traçar o perfil de cada um dos candidatos ao cargo de Presidente e algumas observações curtas sobre os outros nomes na corrida com menos expressão nas sondagens.

Emmanuel Macron – O Economista Morno

É apontado pelas sondagens como o favorito ao Eliseu. Banqueiro, licenciado em Filosofia, Emmanuel Macron foi Ministro da Economia do Governo de Manuel Valls entre 2014 e 2016, altura em que saiu do executivo pelo seu próprio pé, alegando que não conseguia avançar com as reformas que se tinha proposto fazer. Foi também conselheiro de François Hollande, o que lhe valeu a alcunha de “Mozart do Eliseu”.

Aos 39 anos, é o candidato mais jovem desta corrida e nunca concorreu a um cargo público. Considera-se de esquerda e de direita, concorre como independente mas é militante do Partido Socialista há 15 anos. O candidato do centro é pró-europeísta e nunca tirou partido do sentimento anti-imigração. Promete contratar milhares de polícias e professores, ao mesmo tempo que promete cortar 120 mil funcionários públicos. Caso seja eleito, tem um plano de investimento público de 50 mil milhões de euros para a transição ecológica e energética, para os transportes e para a modernização da administração pública, mas quer ao mesmo tempo controlar a despesa pública e poupar 60 mil milhões até 2022. E é este equilíbrio que levanta dúvidas a adversários e comentadores, que fazem com que, muitas vezes em França, o nome Emmanuel Macron seja acompanhado sempre de um morno “meh…”. 

Há quem o considere pouco interessante ou aguerrido e o acuse de não tomar nenhum lado de forma convicta. Há quem também prefira concentrar-se na sua vida privada. Macron é casado com Brigitte Trogneux, 24 anos mais velha, professora de Francês e de teatro, que, por acaso, foi sua professora, e por quem se apaixonou ainda na adolescência. Ao longo de toda a campanha e até agora, o único momento que lhe poderia ter saído caro foi quando defendeu que a colonização francesa na Argélia foi “um crime contra a humanidade”, mas depressa recuperou terreno.

A saída de Macron do Governo em 2016 foi vista pelos socialistas como uma traição, que se agravou quando decidiu não ir às primárias do PS e preferiu correr por fora numa espécie de terceira via centrista, com propostas para agradar à esquerda e à direita. Estes dois factos podem vir a prejudicá-lo numa eventual segunda volta contra Marine le Pen mas, de acordo com as últimas sondagens, será o próximo presidente francês.

Marine Le Pen – A Anti

Anti-Europa, anti-Islão, anti-semita, anti-imigração de uma maneira geral, anti-tudo na génese. Herdou o legado nacionalista do pai e, em 2011, tirou-o do partido de extrema direita que o próprio criou. Advogada, de 48 anos, é normalmente indiferente aos opositores e críticos mas tem tentado aligeirar o discurso xenófobo do pai desde que tomou as rédeas da Frente Nacional. O fundo está lá e a ideologia nacionalista continua a ser a sua principal característica e o que faz com que a adorem e odeiem. Defende o encerramento das fronteiras e já foi clara ao dizer que, se for eleita, convocará de imediato um referendo à saída da França da União Europeia. Defende a pena de morte e promete restaurar as soberanias monetária, económica, territorial e legislativa.

É eurodeputada desde 2004 e é suspeita de uso indevido de fundos europeus que terão sido alegadamente desviados para o partido e para pagar a sua segurança pessoal. Nas eleições de 2012, ficou em 3º lugar com 17,90% dos votos. Desde essa altura que vê a sua ideologia ganhar cada vez mais adeptos. De acordo com as sondagens, os seus eleitores dividem-se entre os jovens que enfrentam problemas como o desemprego e a população mais velha e conservadora.

Já pediu mais do que uma vez aos franceses que sigam o exemplo dos Estados Unidos e “despertem” em 2017. É muitas vezes considerada o “Donald Trump da Europa” e há quem tema (como John Oliver no vídeo acima) que a constante descredibilização que a comunicação social e os especialistas fazem da sua campanha e popularidade aja contra si própria, tal como aconteceu com o actual Presidente dos Estados Unidos.

As sondagens indicam que deve ser a candidata com mais votos na primeira volta, mas a falta de maioria deve levá-la a uma segunda ronda de eleições com Emmanuel Macron, da qual deve sair derrotada.

François Fillon – O Conservador Escandaloso

Candidato do Partido Republicano à corrida deste ano, traz na bagagem um currículo invejável e, supostamente, de meter medo aos outros concorrentes. Foi deputado, Ministro do Trabalho e Primeiro-Ministro entre 2007 e 2012, sob a presidência de Nicolas Sarkozy, de quem foi também conselheiro político. Conservador, militante da direita católica, venceu as primárias republicanas contra o também ex-Primeiro-Ministro Alain Juppé.

Constantemente comparado a Margaret Tatcher pela imprensa francesa, tem uma carreira recheada de polémicas, que o têm atrasado na actual corrida à Presidência. Em 1981, votou contra a despenalização da homossexualidade e é um conhecido crítico da comunidade LGBT e da adopção por casais do mesmo sexo. Em 1992, votou contra o Tratado de Maastricht e, em Agosto de 2016, foi altamente criticado pela comunidade de descendentes de imigrantes africanos depois de ter descrito a relação da França com as colónias como sendo baseada em “trocas culturais”, negando que os franceses se devessem envergonhar do processo de colonização em África. Em Setembro do mesmo ano, foi acusado de islamofobia, depois de ter publicado um livro chamado Vencer o Totalitarismo Islâmico, na sequência do atentado de Nice.

Já em campanha para as Presidenciais, viu-se envolvido numa nova polémica depois da imprensa ter divulgado que contratou a mulher e os filhos para cargos fictícios mas remunerados à mesma.

A maioria das sondagens apontam-no como o terceiro candidato mais votado da primeira volta, mas as últimas consultas mostram que é seguido de perto, e nalguns casos até ultrapassado, pelo candidato de ideologia quase oposta à sua, Jean-Luc Mélenchon.

Jean-Luc Mélenchon – A Esquerda Futurista

Aos 65 anos, já é um repetente nestas andanças. Foi candidato às Presidenciais de 2012 e foi o 4º mais votado pelos franceses. Mélenchon apresenta-se como o candidato do movimento A França Insubmissa, criado de propósito para estas eleições. Nasceu em Fevereiro de 2016 e distinguiu-se por recorrer à Internet e ao contributo dos internautas para a construção do programa da candidatura.

Mélechon pertenceu ao PS até 2008, altura em que saiu para criar o Partido de Esquerda, a partir do qual foi eleito e reeleito até hoje para o Parlamento Europeu.

Conta com o apoio do seu partido e do Partido Comunista e é a derradeira surpresa destas eleições. Começou em último e agora já ultrapassou Benoît Hamon e na maioria das sondagens tem aparecido também à frente de François Fillon. Muitas pesquisas dão-no até como um dos possíveis candidatos a passar à segunda ronda de votações, frente a Marine Le Pen ou Emmanuel Macron.

É o principal candidato a defender o fim da V República, com a criação de uma nova Constituição para França. Crítico ávido de François Hollande, defende a reversão das reformas laborais e educativas que a anterior Presidência aprovou. Quer o aumento do salário mínimo, acabar com a energia nuclear no país e já defendeu a saída da UE, a Procriação Medicamente Assistida e a legalização da cannabis.

A isto junta-se uma uma paixão peculiar pela tecnologia, que o candidato teve oportunidade de mostrar quando deu sete comícios em simultâneo. O segredo: hologramas.

Benoît Hamon – O Rosto da Decadência

É o candidato do PS e d’Os Verdes e representa a decadência dos partidos tradicionais nestas eleições. Em Janeiro, derrotou o ex-Primeiro-ministro Manuel Valls nas primárias do partido. A sua vitória foi impulsionada pelo seu apoio a uma renda universal básica, que permaneceu uma parte importante do seu programa na campanha.

Tem 49 anos e foi Ministro da Economia Social e Solidária no Governo de Jean-Marc Ayrault em 2012 e Ministro da Educação de Manuel Valls em 2014. Personifica a ala esquerda do Partido Socialista mas actualmente representa um partido dividido. Depois de Valls ter anunciado que apoiava a candidatura de Emmanuel Macron, apelou em força à união da esquerda: “Peço-vos para punirem aqueles que se prestam a este jogo mórbido e peço, ao mesmo tempo, para virarem a página da velha política, virarem as costas àqueles políticos que não acreditam em nada e mudam consoante o vento.” 

Deposita a sua esperança nos eleitores indecisos, uma vez que os seus eventuais apoiantes se dividem entre Macron (mais ao centro) e Meléchon (mais à esquerda). A intenção de voto na sua candidatura não tem tido qualquer expressão nas últimas sondagens e só tem sido personagem dos jornais em títulos como “A queda vertiginosa Benoît Hamon.”

Outros candidatos

Jacques Cheminade

Com 75 anos, Cheminade é o candidato mais velho destas eleições. Concorre pelo Partido Solidariedade e Progresso, fundado por si próprio em 1996. Propõe deixar a NATO, a União Europeia e a Zona Euro e retornar ao franco. Distingue-se dos outros candidatos por apoiar a excêntrica colonização da Lua para permitir a exploração de Marte. Já foi candidato em 1995 e em 2012 mas nunca passou dos 0,28% dos votos.

Nathalie Arthaud

Professora de Economia, 47 anos, é a porta-voz do Partido Luta Operária, pelo qual já se candidatou à Presidência em 2012. Na altura recebeu 0,56% dos votos na primeira volta e, de acordo com as sondagens, não se espera que o valor passe disso este ano. O objectivo de sua candidatura é “fazer ouvir a voz dos trabalhadores”.

Nicolas Dupont-Aignan

Politicamente posiciona-se entre Marine Le Pen e François Fillon. Fundou o Partido Levantar a França em 2007, depois de ter abandonado o UMP por desacordos com Nicolas Sarkozy. Fervoroso defensor do Gaulismo, também é repetente nas Presidenciais. Concorreu em 2012, onde conseguiu 1,79% dos votos.

Philippe Poutou

Porta-voz do Novo Partido AntiCapitalista e militante de esquerda de longa data, Poutou é um sindicalista e mecânico da Ford. Teve 1,15% dos votos na primeira volta das eleições de 2012. Iniciou as suas actividades políticas no Partido Luta Operária antes de se juntar à Liga Comunista Revolucionária, que se tornou no Novo Partido AntiCapitalista em 2009.

François Asselineau

Surpreendeu tudo e todos por ter conseguido as 500 assinaturas necessárias para se candidatar. Deixou o UMP, partido de Nicolas Sarkozy, por se opor à proximidade ideológica com os Estados Unidos. Fundou o União Popular Republicana em 2009, partido através do qual concorro às eleições de sábado. Defende a saída francesa da União Europeia.

Jean Lassalle

Como John Oliver diz no seu vídeo, é a personificação de um cliché francês. Ex-membro do Movimento Democrata, concorre como independente e considera-se o “defensor dos territórios rurais e de uma ecologia humanista”. Tornou-se conhecido depois de uma bem-sucedida greve de fome de 39 dias, em que protestava contra as descargas da petrolífera Total para a bacia de Lacq, na zona dos Pirinéus.

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