10 anos de ‘Amor, Escárnio e Maldizer’: adivinha quem não voltou

Acho que este disco pode ser histórico porque, daqui a dez anos, quando o ouvires, vais perceber exatamente todas as coisas que se passavam em 2007. (Pacman, à Blitz, na edição de abril da revista.)

Não existem muitas frases que sirvam tão bem para definir os propósitos do blogue Dez Anos É Muito Tempo e dos textos publicados com o mesmo selo aqui no Shifter. Em 2007, seis anos depois de se ter tornado no mais Jovem Prémio José Saramago, José Luís Peixoto distinguia-se como um dos mais celebrados escritores nacionais e uma das mais afamadas personalidades a sair de Ponte de Sor. Os Gato Fedorento tinham deixado essa espécie de versão portuguesa dos Monty Python e dominavam o prime time televisivo com o Diz Que é Uma Espécie de Magazine, na RTP. O Benfica de 2006/2007 assistia ao regresso do filho pródigo Rui Costa, já contava com David Luíz, Luisão e até o símbolo Mantorras por lá andava, mas era o Benfica de Simão Sabrosa. Rui Massena e Bernardo Sassetti já eram valores seguros na área da composição clássica e jazz. Em 2017, entre tragédias, separações com esporádicos regressos e inevitabilidades, apenas José Luís Peixoto e Rui Massena continuam relevantes. Os próprios Da Weasel, como é do conhecimento geral, terminaram.

Já o panorama musical português em 2007 operava uma mudança. Em 2006, o cantar em português começava o movimento de emancipação com discos importantes: a estreia dos Linda Martini e discos importantes para Expensive Soul e principalmente para Sam the Kid (é recordar este momento de “Poetas de Karaoke” e perceber o motivo de o colocarmos aqui). Novas linguagens rompiam (Buraka Som Sistema), outras confirmavam-se (Dead Combo). O primeiro trimestre de 2007 confirma a tendência: a estreia dos Oioai é o mais perto que estivemos da linguagem tipo Flor Caveira antes desta “rebentar”, JP Simões estreia-se em grande forma a solo e os Mundo Secreto, embora mais Amorangados, também acabam por fazer parte da história. Serve este contexto para sublinhar a obra dos Da Weasel que desde Dou-lhe com a Alma (o EP More Than 30 Motherf***s é cantado em inglês), de 1995, é cantada em português, indiferente às modas do objetivo da internacionalização, vendido principalmente ali no arranque dos anos 2000. 

Nunca soubemos onde encaixar os Da Weasel e os próprios admitiam nessa mesma entrevista à Blitz que o público da banda ia da malta do hip hop e da pop a um ou outro fã de heavy metal. Mesmo no primeiro EP, em que até na língua parece imitar o som dos Beastie Boys e em que a personalidade é praticamente igual a zero, a banda explora uma mistura de hip hop e rock (pois, já dissemos que imitavam os Beastie Boys, duh). E se em Dou-lhe com a Alma, logo abrir com “Adivinha Quem Voltou”, assumem intenções de forma algo naif: “Sempre a misturar, sempre a desbundar A fusão de muito som para inovar”, é em 3º Capitulo que apuram essa mistura onde até já cabem toques de jazz. 3º Capítulo, talvez seja o disco mais importante dos Da Weasel, é o primeiro em que afinam essa fusão e em que se conseguem relacionar com quem os ouve: há quem metaforize que é a “Bíblia da Margem Sul”, com óbvio destaque para as prostitutas, os dealers, os junkies e os “putos vivos” de “Tudo na Mesma” (obrigado, TV Chelas, ou, citando o falecido MC Snake em “Negociantes”, “thanks, Sam!”). A confusão ainda se torna maior quando, em plena vaga nu-metal, “Tás Na Boa”, single principal de Podes Fugir mas não Te Podes Esconder, é associado ao que Limp Bizkit, Linkin Park e afins iam capitalizando lá fora. É o disco mais rock dos Da Weasel, mas também é dub e aponta referências à blaxploitation, por exemplo. Re-Definições (e principalmente “Re-Tratamento”), nova fusão onde cabe novamente hip hop, rock, dub e até hardcore, colocou-os em todo o lado. Chegamos finalmente a Amor, Escárnio e Maldizer, referência óbvia às cantigas de amor, amigo, escárnio e maldizer do tempo dos trovadores de há mais de 600 anos.

Num tempo em que os lançamentos digitais ainda eram relegados para segundo plano, semanas antes do lançamento do disco, a banda associa-se à TMN e à EMI para o lançamento do single de avanço, uma ação que explorámos e explicámos melhor aqui. O disco rapidamente vira platina e a aposta e risco dos Da Weasel encontra retorno. Mas que risco é esse? Reparem que a faixa de abertura é da Orquestra Sinfónica de Praga e “Toque-Toque” revela elementos bossa-nova nunca antes ouvidos na discografia da banda. E se “Dialectos da Ternura” é Da Weasel as usual, “International Luv”, volta a tocar em terrenos nunca antes pisados, embora a Jamaica não seja terra virgem para Virgul: o dancehall. Em “Mundos Mudos” e “Negócios Estrangeiros” regressa o som sinfónico e em “A Palavra” o piano de Sassetti música uma espécie de spoken word que Carlão haveria de explorar já no pós- Da Weasel, sob o nome de Algodão. Virgul sempre foi o polícia bom, Pacman “o mau”. Daí que o tema do amor seja mais explorado pelo primeiro e o escárnio e maldizer fiquem mais a cargo do segundo. Se o Escárnio está claro nesse hino à inércia pré-“Movimento Perpétuo Associativo” que é “Bora lá…” e em “Ó Nigga, Tu és Nigga, Nigga”, o Maldizer surge de forma clara em “Negócios Estrangeiros”, a tal que conta com palavras de José Luís Peixoto. Há ainda remixes de Vikter Duplaixa (“Toque-Toque”) e Buraka Som Sistem (“Dialectos da Ternura”).

O 6º dos Da Weasel é o chamado álbum da maturidade. É o mais ambicioso e, aparentemente, ponderado do catálogo. Olhando para trás, e assumindo que a reunião, mais ano menos ano será inevitável, talvez tenha feito sentido o percurso ter terminado aqui.

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