Primeiro implante de coração artificial realizado em Portugal

Feito foi conseguido no Hospital de Santa Marta, em Lisboa.

Durante esta semana, realizou-se, no Hospital de Santa Marta, o primeiro implante de um coração artificial definitivo com sucesso em Portugal. A operação durou cerca de 3 horas e foi feita em colaboração com um hospital de Leipzig, da Alemanha.

O implante está alojado profundamente dentro do tórax do doente, no saco pericárdico, e é como que uma “bomba muito diferenciada, que funciona por levitação magnética, aspira o sangue da ponta esquerda do coração e injecta na aorta”. A aorta, por sua vez, está ligada a um conjunto de baterias presentes na parede abdominal do doente. Essas baterias, com autonomia de 17 horas, são constantemente transportadas pelo doente numa mala a tiracolo e são postas a carregar durante a noite.

O dispositivo não substitui o coração do doente, mas é um auxílio ao cumprimento das funções do ventrículo esquerdo. O coração do doente permanece no mesmo sítio, com o seu lado direito funcional, enquanto o lado esquerdo só trabalha com o dispositivo.

“Isto é um corpo estranho, mas o organismo não rejeita porque é metal”, explicou o especialista José Fragata, que coordena a equipa de cirurgia cardio-torácica do Hospital de Santa Marta, frisando porém que o sangue passa pelo implante e “pulsa 5.000 vezes por minuto”, pelo que “os doentes têm de estar anti-coagulados para o sangue não coagular aqui dentro. Não vivem com imunossupressão, mas vivem com hipocoagulação”.

O primeiro implante deste tipo ocorreu há cerca de 5-6 anos e, desde então, a técnica tem sido melhorada, sendo comum em alguns países da Europa e nos Estados Unidos da América. Para os doentes seleccionados, o aparelho pode significar mais anos de vida com qualidade: “Há pessoas que chegam a viver 10 e 11 anos com estes dispositivos.”

No mundo inteiro existem mais de 15 mil pessoas com estes aparelhos artificiais. Em Portugal, há entre 20 e 30 pessoas a aguardar um transplante cardíaco, sendo que apenas uma pequena percentagem destas é candidata a este tipo de implantes.

Tanto o transplante como o implante cardíacos só são aplicáveis em doentes com insuficiência cardíaca grave, onde a terapêutica com medicação deixou de surtir efeitos. Para a maioria desses doentes, o transplante é efectivamente a melhor opção. No entanto, não há a disponibilização de corações suficientes para todos os doentes em lista de espera e há alguns desses doentes que têm contra-indicações para transplante cardíaco, uma vez que a medicação imunossupressora obrigatória no processo de transplantação apresenta alguns efeitos adversos, sobretudo a nível renal.

A opção de implante, sendo menos testada e mais dispendiosa que o transplante cardíaco, só é usada em casos muito específicos como o deste doente do Hospital de Santa Marta.

O cirurgião clarifica que a cirurgia “não é um passe de mágica, nem uma atitude aventureira (…) É um projecto de 1 ano, implicou deslocações ao estrangeiro, implicou parceria com equipas. Foi um projecto de trabalho no contexto de uma equipa conjugada, que engloba cirurgia cardíaca, cardiologia e cirurgia vascular”.

O anúncio deste avanço na área da Medicina foi feito durante uma conferência sobre “Sustentabilidade na Saúde 4.0 – Investimento em Saúde e impacto na saúde na vida laboral”, que decorreu durante esta semana em Lisboa.

Texto de: Marta Magalhães
Editado por: Mário Rui André