Festival Rescaldo 2017: um encontro experimental

Falamo-vos daquele que é cada vez mais o encontro referência da música experimental em Lisboa.

Festival Rescaldo

Este foi o décimo ano do Festival Rescaldo. Para mim, com muita pena, apenas o segundo. No ano passado saí de lá com a certeza que este ano não podia falhar. Acho que ter saído da Culturgest depois das experiências de Ozo e do concerto imersivo de Filipe Felizardo, e o facto de só ter conseguido falar com o meu companheiro destas andanças já perto da Praça de Londres, diz alguma coisa. O festival respira boa onda, boa malta e claro, boa música. É cada vez mais o encontro referência da música experimental em Lisboa e a Culturgest é a melhor casa que podiam ter encontrado.

Ainda assim, este ano voltei a falhar. Mas só o primeiro ato. Desculpa, Bruno Pernardas, curtia muito ter visto o gig com o quarteto mas só deu mesmo para a semana seguinte. E nesta, a Culturgest abriu as portas da garagem. Locais alternativos como este para concertos já não são novidade em Lisboa. Da idade ou da preguiça, a verdade é que até senti falta das cadeiras do anfiteatro, mas é sempre engraçado entrar neste mood e sentares-te no chão ao lado dos cotas do Jazz, na ordem dos 60. Sim, no público vale tudo.

Na música, também. Na experimental então, podem imaginar. Confesso que as expectativas até estavam em baixo. Depois da desilusão que foi Xiu Xiu na Galeria Zé dos Bois, como não. Junta-lhe a birra do gajo que te acompanhou em ambos os concertos, e pronto, vais porque é o Rescaldo. Até porque sofá, mantas e o Mortal Kombat na PS3 por acabar em casa, às vezes é bem mais apetecível. Lado bom de ir a concertos assim, quando correm bem, a satisfação é maior. E este Festival Rescaldo, deixou-me de barriga cheia.

Até já vimos line-ups mais interessantes ou reveladores, mas houve boas surpresas. Começamos com o quarteto portuense Live Low, onde tudo é descomplicado. Tudo está bem, descontraído e contemplativo no seu primeiro longa-duração Toada. Estávamos sentados no chão da garagem quando vimos aquilo que podemos chamar de música moderna portuguesa, a mudar. Entras numa jornada imaginária com os baixos e as guitarras a roçar o post-rock de bandas como os Tortoise.

Sem intervalos, é da outra ponta que começam as texturas de Jejuno, nome de guerra da artística plástica e fotógrafa Sara Rafael. Texturas sonoras e visuais, com projeções eletrizantes, que fazem dos sintetizadores uma exploração profunda do psicadelismo, até um pouco noir.

Segue rapidamente de volta ao estacionamento principal desta garagem, onde reinavam agora os batuques. Este foi o primeiro encontro de David Maranha + Paal Nilssen-Love – duas referências da música experimental dos seus países. Do nosso lado, David Maranha é o fundador dos Osso Exótico e conta com duas décadas de uma carreira a solo, onde a sua linguagem é já uma referência. Do outro, Paal Nilssen-Love, norueguês, é um dos mais activos percussionistas do free jazz europeu.

Este formato em dupla já é uma característica do Rescaldo. Recordemos que passou também por aqui um dos discos nacionais do ano passado com Black Bombaim + Peter Brotzmann. Este ano coube ao David e ao Nilssen-Love deixarem-nos agarrados a uma partilha de experiências, onde a comunicação entre artistas e a variação de liderança absorveram-nos para um void de ritmos dessemelhantes.

Segundo dia e chegamos à Culturgest com a ideia que neste dia o line-up poderia bem estar ao contrário. Coube ao trio experimental Alforjs abrir a garagem e foram os melhores da noite. A banda de Raphael Soares, Mestre André e Bernardo Álvares nasceu após a participação de um workshop com Carla Bozulich, no Outfest em 2014, e apresentam hoje o segundo longa-duração Demons 1.0, que sucede a Jenga.

Os momentos hipnóticos e neo-xamânicos, com passagens pelo jazz, rock e improvisação levaram-nos para a explosão de ritmos e texturas da noite. A banda ofereceu ao público deste Rescaldo um ritual sem fronteiras com a sombra de uma das bandas a seguir no panorama experimental.

Seguimos para Ondness, projeto de Bruno Silva, num set onde manipulou esculturas e paisagismos de base eletrónica que revelam resoluções sonoras com texturas capazes de criar uma dinâmica íntima naquele pequeno canto desta garagem.

E terminamos com aquele que me pareceu o concerto mais deslocado da realidade do Festival Rescaldo. As jovens Pega Monstro têm conquistado o seu espaço nos ouvidos portugueses e tiveram aqui a oportunidade para abrir um pouco a janela dos novos trabalhos que estão por surgir. Embora no Rescaldo valha um pouco de tudo, e não tirando o mérito da banda, este foi um fecho de festival que soube a pouco.

Fotografia: Nuno Martins – http://nmartins.com

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