A Turquia está no centro da Europa

Uma análise ao conflito crescente com países como a Holanda, a Alemanha ou a Suíça.

O conflito entre a Holanda e a Turquia encheu telejornais, timelines e feeds de notícias. No Shifter vamos te resumir o que se passou em concreto, quais as proporções que a crise está a tomar e os danos colaterais que está a causar.

Importa pensar antes de mais que as respostas e contra-respostas dos dois países estão a ser influenciadas por momentos eleitorais. Na Holanda, realizaram-se ontem eleições gerais que emanarão um novo governo que comandará os destinos do país. A campanha eleitoral ficou marcada pelo aparecimento mediático de Geert Wilders, líder de extrema direita do Partido da Liberdade – conhecido como Donald Trump holandês. Nas últimas semanas, Wilders pautou o seu discurso numa lógica anti-imigração, anti-islão e anti-UE. O fecho de mesquitas, a proibição do Corão ou a saída da Holanda da União Europeia são algumas das medidas que prometia levar a cabo caso o Partido da Liberdade fosse a formação política mais votada e conseguisse formar governo.

Mark Rutte, primeiro-ministro reconduzido no cargo para um segundo mandato e líder do Partido Popular para a Liberdade e Democracia, foi o grande opositor de Wilders e rejeitou o discurso de ódio e de xenofobia produzido por Geert Wilders. Enfrenta agora duras negociações com os outros partidos que compõem o parlamento de modo a formar um governo estável para os próximos anos.

Ao mesmo tempo, na Turquia, vai realizar-se um referendo no próximo mês de Abril que aprovará ou rejeitará a nova Constituição da República. As mudanças constitucionais propostas permitem o reforço dos poderes do presidente Erdogan e eliminam o cargo de primeiro-ministro. Segundo os críticos, esta alteração da constituição concentrará a manobra política no chefe de estado e chefe de governo ao mesmo tempo.

A comunidade turca possui uma forte expressão em muitos países europeus. Por isto, Erdogan decidiu fazer campanha política pela aprovação da nova constituição em vários países da União. Esta decisão não caiu bem no seio de alguns países europeus. O governo turco começou por agendar três acções de campanha na Alemanha, que foram canceladas por motivos de segurança e de logística. Contudo, estas decisões não convenceram o executivo de Ancara que ameaçou com o prejuízo das relações entre os dois países. A chanceler Merkel prontificou-se a negar qualquer envolvimento do governo federal, recordando que a decisão passou pelas autoridades.

O conflito não ficou por aqui. Erdogan acusou a Alemanha de “práticas nazis”, referindo-se ao impedimento dos comícios nas cidades alemãs. Com a discussão a subir de tom e o lamento de Merkel relativamente às declarações do seu homólogo turco, outros actores entraram no problema.

No dia 11 de Março, a Holanda impediu que o ministro turco dos Negócios Estrangeiros, Mevlüt Çavuşoğlu, aterrasse em Roterdão, onde iria participar num comício de apoio à nova constituição. Esta atitude do governo holandês não foi singular. No mesmo dia a ministra turca dos Assuntos Familiares foi bloqueada no país de modo não chegar ao consolado da Turquia em Roterdão, onde se iria realizar igualmente uma nova acção de campanha.

Nova resposta de Erdogan face a estes acontecimentos. A Turquia suspendeu as relações diplomáticas com a Holanda, impedindo o embaixador holandês no país de regressar após as férias. O presidente turco voltou ainda a chamar de nazi o governo de Mark Rutte. As últimas declarações do lado turco recordam ainda um dos episódios mais traumáticos da Europa. “Conhecemos a Holanda e os holandeses do massacre de Srebrenica, sabemos quão podre é o seu carácter por causa do massacre de oito mil bósnios”, lembrou Erdogan.

As relações entre os países europeus e a Turquia estão melindrosas. Do lado de países como a Holanda, este conflito teve de ser gerido para fora mas igualmente para dentro. A questão eleitoral influenciou a tomada de decisão do governo holandês. Do lado turco, assistimos a um ataque sem cautelas diplomáticas, sabendo a Turquia os acordos que fez com a União Europeia num passado recente. A paz podre ganhou uma expressão mediática sem cinismos.

Previous A estreia da semana tem sotaque adocicado: 'Aquarius'
Next 'The Matrix' vai ter um reboot