A estreia da semana tem sotaque adocicado: ‘Aquarius’

Filme de Kleber Mendonça Filho é protagonizado por Sonia Braga.

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Aquarius é um daqueles com mais para contar do que a narrativa que consagram as duas horas e vinte e cinco minutos de filme. Começou por dar nas vistas pelo trailer, e pela natural empatia que um filme falado em língua portuguesa provoca em qualquer um de nós. Os poucos minutos disponibilizados a meio do ano passado, a poucos dias do festival de Cannes, mostravam em contornos largos um conflito intenso entre uma inquilina irredutível e um jovem empenhado em despejá-la.

Aquarius é uma obra escrita e realizada por Kleber Mendonça Filho. É produzido por Emilie Lesclaux, sua mulher, Saïd Ben Saïd e Michel Merkt e co-produzido por Walter Salles. Passa-se no Recife, cidade Natal de Kleber que é um dos nomes fortes da onda actual de cinema brasileiro – depois da afirmação que foi Som ao Redor, criado em 2012.

A personagem principal, Clara, de 65 anos, é protagonizada por Sônia Braga, uma das actrizes brasileiras com mais crédito no panorama mundial. Contracena com Maeve Jinkins e Irandhir Santos, repetentes nas produções do autor e Humberto Carrão um jovem actor de 25 anos na sua estreia no grande ecrã, depois de passar, por exemplo, pela bem conhecida série Malhação.

A apresentação do filme ao mundo começou em grande. À entrada para o Festival de Cannes (em Maio de 2016) já levava o rótulo de potencial vencedor da Competição Principal. E apesar de não ter ganho o prémio que acabou por ficar para Ken Loach com I, Daniel Blake, Aquarius foi tema incontornável na cerimónia, com a metáfora cinematográfica a ganhar uma nova dimensão no protesto político que o realizador Kleber Mendonça Filho e parte do elenco que o acompanhava à data protagonizaram na antecâmara de uma das mais importantes celebrações do cinema a nível mundial.

O filme que, como todos, difícilmente não teria algo de político, reforçou-se enquanto símbolo da resistência do povo brasileiro à destituição da Presidente Dilma Roussef com a acção coordenada de elenco e responsáveis de produção. A controvérsia valeu más graças na terra de origem onde o filme passou a ser classificado para maiores de 18 anos, facto que o impede desde logo de entrar na corrida ao Óscar de melhor filme estrangeiro de 2017. 

 

Estreia em Portugal – curiosamente – um dia depois de Dilma Rousseff ter passado pelo Ciclo de Conferências do Trindade numa sessão subordinada ao tema «Neoliberalismo, desigualdade, democracia sob ataque», a convite do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, da Fundação José Saramago e da Casa do Brasil de Lisboa.

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