A espera e o que esperar de ‘São Jorge’

O filme que deu a Nuno Lopes o prémio de melhor actor no Festival de Veneza do ano passado estreia esta quinta-feira.

São Jorge

Ansiávamos por esta semana desde que soubemos que Nuno Lopes ia protagonizar um filme de Marco Martins (Alice, Como Desenhar um Círculo Perfeito). A expectativa aumentou quando vimos o trailer. Desde o início desta viagem, São Jorge não tem parado de nos dar motivos para que dia 9 estejamos no auge do nosso desassossego, desejosos de entrar na sala de cinema mais próxima.

É já na quinta-feira que estreia em cerca de 20 salas de cinema nacionais, distribuído pela NOS. O filme valeu a Nuno Lopes o prémio de Melhor Actor no Festival de Cinema de Veneza em 2016, esteve nomeado como Melhor Filme no mesmo festival e tem sido altamente elogiado pela crítica internacional.

A história é muito portuguesa, que trata uma realidade familiar para todos os portugueses. Tem como cenário a mais recente crise económica, vista através da vida de Jorge (Nuno Lopes), um pugilista desempregado que aceita trabalhar numa empresa de cobranças difíceis para pagar as suas próprias dívidas e tentar impedir que a sua mulher e filho tenham que emigrar.

São Jorge é um mix entre documentário e ficção. Realizador e protagonista começaram por idealizar um filme de ficção focado apenas no boxe. Foi durante o processo de pesquisa para a história, em visitas a bairros sociais, que perceberam que havia outras camadas da história dos portugueses, que se sobrepunham a essa ideia.

“Há uma história de ficção que se vai cruzando com o documentário da própria crise. (…) É um filme muito burilado, muito trabalhado ao longo de quatro anos. É um filme que foi ganhando densidade à medida que a crise ia avançando”, explicou Marco Martins à agência Lusa.

Para Marco e Nuno, que já tinham trabalhado juntos em Alice (2005), São Jorge é também uma metáfora sobre a situação de Portugal face às instituições financeiras internacionais: “O facto de estarmos a falar de um filme sobre um cobrador de dívidas, que anda a cobrar a pessoas que estão na mesma situação que ele, [tem a ver] com o que nos estava a acontecer com o FMI”, sublinhou o actor.

Além de Nuno Lopes, nomes como Gonçalo Waddington, Beatriz Batarda, José Raposo e Mariana Nunes compõem um elenco de luxo. Mas há também espaço para cidadãos comuns, não-actores, que Marco Martins escolheu para tentar resolver o hiato que existia entre o que se ouvia falar sobre a crise, nos telejornais e nas rádios, e aquilo que se via todos os dias nos bairros sociais.

É por isso dada voz a vários habitantes dos bairros da Bela Vista, em Setúbal, e da Jamaica, no Seixal, onde o filme foi rodado, para falar sobre crise, desemprego e falta de dinheiro.

Além de ser exibido salas normais, o filme deverá ainda ter duas projeções especiais em ambos os bairros.

O Shifter é gratuito e sempre será. Mas, se gostas do que fazemos, podes dar aqui o teu contributo.