Football Leaks, uma fuga aqui tão perto


2016 foi um ano marcado por fugas de informação. Dados, relatórios, documentos que por alguma razão foram tornados públicos, geralmente por fontes anónimas a partir de informação extraviada.

À cabeça, os Panama Papers, que muita tinta fizeram correr juntando, num projecto de colaboração único, diversos órgãos de comunicação social para uma melhor análise dos terabytes de informações provenientes do escritório de advogados Mossack Fonseca. Seguiu-se Snowden que em parceria com o The Intercept, tornou públicos os documentos que o copiou da NSA, uma das maiores fugas de informação do planeta. Noutro quadrante, Julian Assange e o Wikileaks protagonizaram um papel activo nas eleições norte-americanas deste ano, alimentando desconfianças sobre os alegados e-mails de Hillary Clinton com sucessivos leaks de informação relativos à candidata democrata ou a membros do seu staff.

Mas 2016 foi também o ano do retorno do Football Leaks, a única fuga de informação no futebol de proporções consideráveis.

E em 2017 começa a mais fácil sistematizar e compreender o que foi, ou o que é, o Football Leaks. É possível dividir o fenómeno em duas partes completamente distintas e com modus operandis opostos. A primeira surge em Setembro de 2015, com um objectivo claro e conciso: denunciar contratos, transferências e documentos do foro interno dos clubes na praça pública. A estratégia era simples e resumia-se ao website http://football-leaks.livejournal.com/ entretanto extinto,  alimentado diariamente com dados confidenciais de diversos clubes, nomeadamente dos três grandes portugueses.  Qualquer pessoa poderia ter acesso às informações “cruas” e retirar delas o que bem entendesse, cenário que levou os jornais e adeptos desportivos ao total frenesim à medida que se revelavam pormenores menos transparentes das operações dos clubes.

Em Abril de 2016, o Football Leaks anunciou um pausa na divulgação dos documentos, alegando problemas técnicos e financeiros. “John”, o português que está por detrás da fuga, referiu à revista Der Spiegel que da forma como estava a ser feita a divulgação dos dados, não valeria a pena continuar. Já antes, o responsável tinha confessado pressões por parte do fundo Doyen, uma das empresas mais referidas nos documentos, para parar as publicações.

Foi em Dezembro de 2016 que o Football Leaks voltou mas desta vez num modo de actuar diferente do passado. O portal aliou-se ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (o mesmo que investiga os Panama Papers), onde fazem parte títulos como o Expresso, El Mundo ou Der Spiegel, e surgiu de novo em força. O que mudou está à vista de todos. As informações passaram a ser tratadas com maior minúncia, os contratos investigados antes da sua exposição público e as ligações entre pessoas e empresas devidamente estabelecidas. Os dados em bruto deram lugar a noticias e histórias com pés e cabeça.

No último mês a investigação ganhou uma nova dimensão com o termo offshore no centro de uma discussão onde se ouviram nomes como o de Cristiano Ronaldo ou Nélio Lucas, CEO da Doyen, sob suspeita de recorrerem a este tipo de esquemas como método de evasão fiscal.  O trabalho dos jornalistas está a ser feito, cabe agora à justiça dos países perceber se existe matéria criminal para processos judiciais.

O que é certo é que o Football Leaks promete continuar a dar que falar numa altura em que os fundos de investimento e as sociedades de capital anónimo tornaram o futebol numa das indústrias que mais dinheiro movimenta por todo o mundo.

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