‘Westworld’: entretenimento à medida dos nossos tempos


10 milhões de dólares. O custo de cada episódio de Westworld era só mais uma acha para a fogueira que já ardia, alimentada pelo repetido rótulo de grande aposta da HBO e deixava pouca margem de erro à equipa liderada por Jonathan Nolan e Lisa Joy.

A expectativa não parava de crescer e o pilot, gravado há mais de 3 anos, não antevia um processo criativo normal. Por aí diz-se que foram vários os episódios que tiveram que ser repensados, reeditados e até re-gravados. Percebe-se. Os 10 episódios planeados perfaziam 100 milhões de dólares e isso exigia alguns cuidados. Mas esta aposta, que podia até parecer algo desmedida, tinha uma lado bom: a HBO acreditava mesmo muito na ideia desta adaptação de Nolan e Joy e fazia questão que tudo acontecesse como estes idealizaram desde o primeiro momento. Felizmente, foi precisamente isso que aconteceu e é justo dizer que a primeira temporada de Westworld conseguiu ser praticamente tudo aquilo a que se propôs. A conquista de estatuto de série com maior audiência na temporada de estreia tem que ser sinal de qualquer coisa bem feita.

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A discussão permanente desta super produção é um dos ingredientes mais preponderantes da sua fórmula de sucesso. Quer pertenças à facção que nunca vasculhou o subreddit da série e evitou os artigos sobre qualquer tipo de teoria ou, pelo contrário, reviste os episódios com um bloco de notas ao lado e tentaste descortinar o que acontecia a seguir, é inegável que o mistério e as pistas plantadas em cada episódio mexem com a cabeça de todos os que desejam ter os 40 mil dólares necessários e a possibilidade de entrar no parque por um dia. Mas em tempos como aqueles em que vivemos, seria expectável que os fãs se debruçassem sobre os enigmas e revissem os episódios uma e outra vez nos seus computadores. Nolan e Joy sabiam disso e, já conhecido por ser um redditor assíduo, Nolan chegou mesmo a comentar algumas vezes no subreddit Westworld. Numa dessas vezes, revelou imagens que nunca foram para o ar, num gif que explicava uma pergunta relativamente simples de um dos fãs.

Drawings

Esta análise obsessiva fomentada pela troca permanente de informação online não apanhou ninguém da equipa desprevenido. Na verdade, parece que a capitalização deste buzz foi sempre uma das armas da HBO. Reddit à parte, o site que desenvolveram e que semanalmente adensava (e adensa) o mistério e as teorias com novas pistas mostra que a vida online da série era uma parte levada muito a sério. (O site só está disponível nos EUA, mas vocês sabem como contornar isso, certo?)

Os pormenores são incontáveis. Há uma host com quem podemos falar, os termos e condições que a DELOS nos faz aceitar levantam algumas suspeitas sobre o verdadeiro propósito do parque para a empresa que o financia, entre outras coisas.

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Apesar de todo este lado online ser admirável, não é propriamente algo novo. Muito menos para Nolan. Lembras-te do (já quase) clássico Memento, realizado pelo mano Christopher Nolan, há mais de 16 anos? Já nessa altura Jonathan resolveu dar uso aos seus conhecimentos de programação e criar um site que ajudava a revelar alguns dos pormenores e perceber a ordem cronológica do filme. Sem redes sociais para propagar a mensagem, é provável que no digitalmente longínquo ano de 2000 poucos tenham sido os que puderam usufruir destes pequenos doces deixados pelos irmãos Nolan.

As marcas do sucesso de Westworld começam a estar espalhado um pouco por todo o lado. Uma das últimas provas disso está nas respostas que a Siri tem preparadas nos dar se lhe falarmos da série. A inteligência artificial, tema comum, foi o suficiente para os programadores prepararem algumas surpresas a quem resolver conversar com o boot da Apple sobre um tema que lhe deve interessar de sobremaneira.

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Mas afinal estas pistas, as teorias, o desvendar precoce de alguns dos mistérios da série podem ou não ser vistos como spoilers? Logo depois de tudo o que é relacionado com a trama propriamente dita, esta será uma das questões mais discutidas ao longo das últimas semanas. E é justo que seja feita. Como seria justo que cada um pudesse decidir se é ou não apanhado no meio de teorias cruzadas, muitas vezes escarrapachadas no títulos de artigos dos quais simplesmente não podemos fugir. Caros media de todo o mundo, sempre que um título vosso pergunta “Já conheces a teoria do XYZ?” nós até podemos não conhecer e, mais que isso, podemos não querer saber. Mas a partir do momento em que lemos isso, como não somos máquinas (acho eu), torna-se humanamente impossível não pensar sobre o tema. Eu até espreitei o subreddit, li sobre teorias, cruzei dados e tentei descortinar coisas. Mas isso não me tira o prazer de ver a série e analisá-la do meu ponto de vista. O ponto de vista que eu escolhi. No entanto, acredito que as proporções que isto tomou se tenham tornado particularmente irritantes para quem quer/quis acompanhar a história livre de qualquer influência.
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Podemos dizer que todo este falatório, as teorias confirmadas e desmentidas e a discussão sobre se uma teoria é ou não é um spoiler acabam por esconder algumas lacunas na série. Para que fique claro, escreve-vos um fã de Westworld. Mas não é difícil admitir que a perfeição ainda está a alguma distância. Toda a história e dinâmica entre narrativas, hosts e guests faz com que nunca haja tempo para desenvolver personagens como seria de esperar numa série com este impacto mediático (Saudades, Breaking Bad). Os amantes de sci-fi também poderão ter algumas reticências quanto ao tema que domina a série, por isso dificilmente Westworld será um marco dentro do género. E há ainda a exploração da mente humana, que acaba por ser muito mais superficial do que se esperaria depois das primeiras revelações sobre a série.

O que é inegável é que Westworld é bom entretenimento. Não perfeito, mas muito bom. Performances acima da média, um puzzle bem construído e cenas que ficam facilmente na memória. Já se esperava que os diálogos que envolvem Anthony Hopkins que fossem alguns dos pontos altos, mas a cena que o deixa frente a frente com Sidse Babett Knudsen (Theresa) numa espécie de reivindicação não assumida pelo poder é uma dos melhores momentos desta primeira temporada. Mas há outros, como a explicação de uma das teorias sobre A Criação de Adão de Michelangelo, que fazem com que nos sintamos recompensados com o tempo que dedicámos a acompanhar os visitantes, equipa e administração deste parque temático que revela ser muito mais do que estaríamos à espera.

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No fundo, Westworld consegue ser muitas vezes ser um bocadinho mais do que seria de esperar. Vai para além do mistério que a série cria, consegue ser mais do que um simples conteúdo televisivo que vive exclusivamente na caixinha mágica (ou no player dos nossos computadores) e torna esta história sobre um parque temático do futuro (?) numa odisseia em busca de significado por parte de um público ávido de informação e conhecimento. O final da série prova que, apesar da grande aposta HBO, as certezas quanto ao sucesso não eram assim tão absolutas. Houve o cuidado de dar muitas das respostas (ou confirmações) que precisávamos, deixar outros enigmas por resolver e lançar desafios que poderão dar um bom futuro à série. Isto porque a confirmação de uma segunda temporada só chegou há 3/4 semanas. A história teria que funcionar sem continuação mas ao mesmo tempo teria que abrir caminhos suficientes para essa possibilidade. Uma nova vaga de episódios deve chegar em 2018 e os criadores já avisaram: depois de uma primeira temporada que podia ser resumida na palavra controlo, a segunda será dominada pelo caos. “These violent delights have violent ends” e ainda há muito para saber sobre tudo isto.

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