O blogue de Vera Marmelo faz anos: 10 anos a fotografar a música portuguesa


Neste mês de Dezembro de 2016, o blogue de Vera Marmelo celebra uma década anos online. 10 anos a acumular as imagens dos concertos a que assiste, os festivais que acompanha religiosamente, as salas onde acha que faz sentido a sua presença, os retratos que vai fazendo a músicos e a outras pessoas com que se relaciona e cruza, as salas de ensaio, os estúdios e os soundchecks.

De uma forma muito natural, a Vera foi-se aproximando de músicos. Eram os amigos que mais à mão estavam no Barreiro. De uma forma ainda mais natural o grupo de amigos e conhecidos a fazer música e a cruzarem-se consigo foram crescendo de uma forma exponencial. Passados estes 10 anos, continua a alimentar o blogue religiosamente. A cada concerto que vai, a cada retrato que tira para celebrar um novo disco, lá está, mais um post, mais umas dezenas de fotografias para o celebrar.

Uma década depois, Vera Marmelo decidiu dar um ar fresco ao seu blogue, a ajuda do estúdio de design DESISTO. Quando estiver completo, o novo vai organizar os conteúdos em três intervalos de tempo: de 2006 a 2009 (já disponível); de 2010 a 2013 (será lançado em Março); e de 2014 a 2016 (chega em Junho). Ao mesmo tempo, serão criados vários pósteres com alguns dos melhores trabalhos. O site permite ainda navegar pelos retratos de Vera Marmelo e pelas fotos ao vivo.

Nascida no Barreiro em 1984, Vera Marmelo fotografa músicos desde 2004. Autodidata no que respeita à fotografia, é motivada desde o início pelas amizades aos músicos da sua cidade natal. É também no Barreiro onde começa a frequentar e a captar festivais, nomeadamente o Outfest e o Barreiro Rocks.

Passados mais de 10 anos desde o início desta aventura, os músicos, os concertos, as salas, os festivais e as ocasiões mais ou menos especiais vão-se multiplicando e o seu arquivo pessoal crescendo. Além do seu blogue, tem ainda a meias com Rita Tomás um projeto de entrevistas em modo site chamado Boca-a-Boca. Mantém uma ligação especial com a Galeria Zé dos Bois e o Barreiro Rocks. Em 2013 e 2014, editou dois livros de autor – o primeiro de retratos em nome próprio e o segundo a duas mãos a propósito do 20.º aniversário da Galeria Zé dos Bois. Integrou ainda duas exposições coletivas n’A Pequena Galeria (2015) e na ExperimentaDesign’15. Mas a motivação continua a mesma: “Na verdade, a minha ligação à fotografia acontece a par da minha ligação à música. É o meu instrumento, a minha desculpa para estar sempre presente e a minha maneira de contribuir para divulgar os músicos que acompanho”, diz numa nota de imprensa.

O espírito humano torna-se magnânimo quando manifesta a particularidade. O trabalho mecânico está subordinado a regras e realiza resultados formais, produtos caracterizados pela regularidade, por oposição, a expressividade resulta da singularidade. É preciso que essa actividade resulte de um pensamento disciplinado para que se torne fecundo, uma vez que, todo o ofício se exerce sobre uma matéria densa que precisa ser dominada.  Como tantos outros miúdos, a Vera começou a fotografar concertos com uma pequenina máquina digital, isto foi antes da era-da-internet-das-coisas. À sua volta, outros miúdos pegavam em guitarras, emulsionados por uma vontade insondável. Com o tempo, a Vera tornou-se coleccionadora de memórias, arquivista de sonhos.

Estou convencido que o que existe de genuinamente humano é esta compulsão criadora e o que esta era tecnológica tornou possível foi algo sem precedentes nessa matéria. Uma miúda, descendente de alentejanos migrados no Barreiro, gente operária, humilde, pode fintar o destino e entregar-se à paixão inusitada de registar os seus amigos e de os surpreender. Essa miúda, torna-se autora de um dos mais importantes arquivos de histórias do que outros miúdos, com guitarras e não só, estavam a fazer. Construído à custa de muitas horas roubadas ao sono e dedicadas ao seu ofício: olhar, registar, arquivar. A mesma Era que fez do seu ofício uma espécie em vias de extinção, quando os efeitos da reprodutibilidade técnica se tornaram ainda mais tangíveis, deu-lhe as ferramentas para se distinguir.

Alimentada pela mesma inocência, irreverência e impulso para acção, que são a linha bissectriz que une a Vera senhora do seu nariz e essa miúda fã de Deftones que girava k7’s até ficarem gastas. Tal como Sísifo, para quem cada átomo da sua pedra, e cada socalco da ladeira através da qual faz rolar essa pedra montanha acima e abaixo para o resto da eternidade, dá forma a um mundo em que o esforço na ascensão às alturas é suficiente para insuflar o seu coração. Talvez a grande obra tenha menos importância por si própria do que na provação que exige e na oportunidade que oferece a cada um para vencer os fantasmas e se aproximar um pouco mais da sua realidade íntima.

Tiago Sousa

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