O triunfo da estranheza multidimensional de ‘Doctor Strange’


Depois de sofrer um brutal acidente de carro, Stephen Strange (Benedict Cumberbatch), um egocêntrico e brilhante neurocirurgião, embarca numa viagem para tentar encontrar no misticismo oriental a cura para o tremor nas suas mãos que não encontra na medicina tradicional. O percurso que Stephen faz em Doctor Strange é em muito semelhante ao de Tony Stark em Iron Man, o primeiro filme da Marvel Cinematic Universe (MCU). Mas a grande força do filme e do protagonista advém de estarmos, como ele, a descobrir territórios e dimensões inexploradas. Pelo menos dentro de uma sala de cinema.

A premissa do argumento é bastante simples. A história avança sem grandes rodeios e é algo previsível, mesmo não se conhecendo a banda desenhada da Marvel, criada nos anos 1960, a partir da qual foi adaptada. No entanto, Doctor Strange vale mesmo é pelas viagens visuais terrestres e multidimensionais que proporciona e pelo desempenho do elenco de luxo que tem – e que navega bem no tom costumeiro deste universo dos super-heróis, ao som de uma banda sonora admirável de Michael Giacchino. (É para manter, Marvel!)

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Desde a divulgação do primeiro trailer, muitas comparações se estabeleceram entre este filme e o Inception, de Christopher Nolan, por causa da manipulação física impossível de algumas cenas. Apesar de justa, vendo o filme confirma-se que a comparação é insuficiente. Doctor Strange, com a sua alta qualidade de efeitos visuais e práticos fora do comum, é mais como um cocktail muito bem misturado dos visuais de Inception e do 2001: A Space Odyssey, com uma elevada dose de esteróides e vários caleidoscópios coloridos. O prólogo evidencia isso mesmo; este não é um filme visualmente igual aos outros da gigante americana.

O actor inglês Benedict Cumberbatch, cabeça-de-cartaz de um elenco recheado de diversidade e talento, demonstra desde o início que foi a escolha certa para o papel. O médico neurocirurgião assenta-lhe que nem uma luva e acaba por ser uma escolha da Marvel com uma qualidade que rivaliza com as escolhas de Robert Downey Jr. e Chris Evans para Tony Star e Steve Rogers. Não é a primeira vez que Cumberbatch interpreta egomaníacos com rasgos de génio, mas neste filme bem generoso com o seu humor revelou um sarcástico crónico e sem pudores em assimilar “informação inútil”.

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Sim, a produtora Marvel continua longe de menosprezar a importância das graças neste “género” de cinema. Em Doctor Strange, o tempero cómico abunda e o que não faltam são punchlines para tentar melhorar ou aliviar algumas cenas tipicamente mais sombrias. Mas a verdade é que resulta. E resulta num filme escrito e realizado por um autor de terror: Scott Derrickson.

O realizador norte-americano, mais conhecido por The Exorcism of Emily Rose, conseguiu adaptar bem o seu estilo e intuição do horror no grande ecrã a estes super-heróis. Tudo isto sem nunca esquecer o dramatismo que algumas cenas merecem e que, nesses casos, deixam a audiência franzida e a sentir algum sofrimento alheio, tal e qual como nos filmes de terror. Sem spoilers, é o máximo que se pode dizer.

Doctor Strange é mais uma prova de que os estúdios da Marvel não conseguem, por agora, dar um passo em falso. Não sendo genial, o filme é um dos melhores deste seu cânone. Comprova também que uma das suas grandes fraquezas continua a ser os seus vilões; Kaecilius, graças ao desempenho de Mads Mikkelsen, protagonista de Hannibal, alcança um carisma e presença diferentes do habitual, mas não revelou ser um grande vilão ao nível do Loki de Tom Hiddleston, por exemplo. No fim de tudo, acaba por ser um poderoso peão temporário de uma entidade superior que, calculo, eventualmente poderá regressar no futuro.

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Talvez seja bom referir que quem nunca viu um filme deste universo da Marvel, provavelmente ficará um pouco perdido durante Doctor Strange. As referências aos outros são poucas, mas este filme surge agora apenas porque houve outros como o já referido Iron Man, Thor, Avengers ou Guardians of the Galaxy que abriram o reino das possibilidades cinematográficas antes disso.

Este é o 14º filme da franquia. Catorze filmes que estrearam entre 2008 e hoje, ao longo de três fases. Se se aplicar o modelo das séries, para melhor compreender os mundos em que estes filmes navegam, o mais recomendável será ver alguns episódios das temporadas anteriores antes de mergulhar nesta espetacular produção, a primeira que aconselhamos toda a gente a ir ver IMAX 3D. Vale mesmo muito a pena, mesmo que a carteira não concorde.

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