Mário Cruz: “Ser confrontado com a escravatura infantil, é sempre um choque”


Assim foi. Mário Cruz viajou pela primeira vez para a Guiné-Bissau em 2009, para cobrir as eleições presidenciais do país. Cedo percebeu que o percurso em África não terminava ali. Regressou, investigou muito e aconselhou-se com outras pessoas antes da viagem. O fotojornalista, durante dois meses, registou centenas de fotografias, onde as falsas escolas islâmicas no Senegal e na Guiné-Bissau eram expostas através da lente. Este sábado, apresentou o seu livro Talibes: Modern Day Slaves na FNAC Chiado, em Lisboa. O Shifter falou com Mário Cruz.

O nome não é desconhecido: o fotojornalista da Agência Lusa foi mencionado, citado e elogiado depois de vencer o prestigiado galardão do World Press Photo em Fevereiro deste ano. A categoria era “Temas Contemporâneos” e mostrava através de várias fotografias, a realidade de crianças senegalesas e guineenses, escravizadas por líderes religiosos em falsas escolas islâmicas. A distinção chamou a atenção das autoridades para o que se passava nos dois países, um dos objectivos que Mário Cruz sempre preservou, durante e após estar no terreno.

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“Sei que o livro é o culminar do meu trabalho no Senegal e na Guiné, mas o mais importante era alertar para a situação e mudar alguma coisa. Essa mudança já está a acontecer, regularmente recebo emails de ações que estão a ser feitas nos dois países.”

Este sábado, houve mais um desenvolvimento no trabalho de Mário Cruz. Após o buzz dos prémios e reconhecimentos – também venceu o Prémio de Fotojornalismo Estação Imagem em Viana do Castelo em Abril –, foi contactado pela FotoEvidence, uma instituição que reconhece a fotografia na promoção dos direitos humanos, para uma futura publicação de um livro. A reportagem fotográfica de Talibes: Modern Day Slaves transformar-se-ia numa série de páginas, protegidos por uma lombada e capa dura.

Seguiram-se dias e dias, em que a publicação dependia de uma campanha de crowdfunding, cujo sucesso o fotojornalista acabou por duvidar. “Nunca tinha estado envolvido num projeto desta natureza e a meio da angariação , achei que seria impossível conseguir o dinheiro necessário para o livro”, diz Mário Cruz. A poucos dias de terminar o prazo, conseguiu reunir-se o orçamento necessário: “Conseguiu-se atingir os 28 mil dólares necessários, mas depois com os donativos da Fundação EDP e da Bolsa de Exploração Nomad, chegamos quase aos 37 mil dólares.”

Ter 28 anos e ser confrontado com a realidade da escravatura infantil em países desconhecidos e distantes, nunca se assemelhou uma tarefa fácil. Porém, o fotojornalista deixou que a preparação e a investigação o munissem das ferramentas necessárias, para retratar o mais fielmente a situação no Senegal e na Guiné. “Estava consciente de tudo o que podia acontecer de mal e das dificuldades que teria, porque tinha de fotografar e mostrar o que estava a acontecer”, refere.

O que encontrou nos dois países não era parecido, em nada do que conhecia ou ouvia falar:

“Nunca estamos preparados para sermos confrontados com a escravatura infantil e para saber que há crianças entre os 5 e os 15 anos a serem chicoteadas.”

O livro apresentado este sábado é uma narrativa que Mário Cruz construiu para dar a conhecer o que se passa além-fronteiras, na esperança de que mais pessoas fiquem sensibilizadas. As fotografias são a preto-e-branco e as páginas têm “ligações directas entre si, de forma a criar a sensação de causa-efeito”. Já os registos variam entre os retratos e os espaços das escolas islâmicas.

As páginas finais, escritas pela Human Rights Watch e a We Are One Sn, estão reservadas para um balanço da situação actual da escravatura infantil no Senegal e na Guiné-Bissau . O livro vai estar disponível em quatro línguas: francês, inglês, português e árabe. E porquê? “Quero que o meu livro esteja acessível e chegue ao Senegal e à Guiné, é a prova física do que se passa lá”, conclui o fotojornalista.

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