Crónica de mais um visitante mal disposto do MAAT


A caminho de casa após uma dura, mas não longa, jornada na inauguração do MAAT, só conseguia pensar no título que daria a esta reflexão. Deveria ser condescendente ou incisivo? Não queria ser demasiado duro visto estar a falar do trabalho de muita gente, ainda que tenha ouvido que o evento tinha sido organizado à pressa. Projectei certas expectativas, esperando mesmo um dos eventos do ano. Sem dúvida que o foi, mas só mesmo pela quantidade de público que tanto ambicionava ver paredes coloridas de branco. Vou voltar um pouco atrás: contar a odisseia que passei e no fim faço a prova dos nove para me certificar de que não sou muito injusto.

Quando me vi confrontado com os nomes no cartaz, comecei logo a imaginar o tipo de abordagem que o museu teria: a perfeita simbiose entre o conceptual e o futurista, juntando novas tecnologias e técnicas de projecção a artistas como Ryoji Ikeda, Nigga Fox, Zebra Katz e Fatima Al Qadiri. Todos eles de certa forma representam uma mutação mais avantgarde dos géneros em que se inserem. Depois do cartaz, começaram a surgir mil e uma notícias na televisão, jornais e afins sobre a inauguração do novo espaço, com uma clara enfatização do espécime arquitectónico, projectado pela britânica Amanda Levete. Chegou ao ponto do News Feed do Facebook estar invadido de notícias sobre a inauguração e, por alguma razão, fui ingénuo o suficiente para não pôr na equação o facto de o evento acontecer num feriado que muita gente quereria aproveitar. Admito que neste ponto foi falha minha.

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Chega o dia da inauguração, acordo, pego no telemóvel, faço o scroll sonolento no Facebook e deparo-me com um forte incentivo do MAAT para usufruirmos dos transportes públicos. Como não conduzo, entrei no jogo do museu e fui de comboio. Agora que penso, entre arranjar lugar para estacionar em Belém ou ir dar a volta de comboio a Algés é ela por ela. É que pelos vistos o incentivo foi tão frutífero que a ponte pedonal que atravessa por cima da estação de comboios sofreu um pequeno acidente e teve de ser cortada. Consequências: quem apanhou o comboio no Cais do Sodré no sentido de Cascais viu o mesmo a não parar em Belém. Lá troquei de sentido, em Algés, e apanhei outro comboio. Problema número dois: no sentido Cais do Sodré, a saída do comboio é do lado oposto ao do museu; como a ponte estava encerrada, lá tive de me descolar até quase à frente do CCB, atravessar um túnel subterrâneo que tinha saída perto do Padrão dos Descobrimentos e voltar tudo para trás, fazendo-me concluir que mais valia ter ido a pé desde Algés. Se o edifício queria transmitir uma ideia de movimento, então o objectivo foi comprido, é que movimento para o alcançar não faltou.

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Quando me encontro a 100 metros do edifício, deparo-me com uma linda vista da Ponte 25 de Abril, um Cristo Rei de braços abertos e uma fila de 30 minutos, também ela de braços abertos para me receber com tanto calor humano. Ao que parece tive sorte, pelos vistos quem veio antes das 19 horas passou muito pior para conseguir entrar. Naquele momento toda a minha ingenuidade se transformou num misto de raiva e de confusão. Na minha cabeça já começava a congeminar ideias de frases que poderia escrever no livro de reclamações, algo como: “Começam bem…”. Estava claramente fora de mim e, por isso, limitei-me a fazer a única coisa que poderia fazer naquela situação, enfiar-me no meio da fila e poupar 20 minutos de espera. Eu sei que não foi correcto, mas em minha defesa não tinha vontade nenhuma de esperar depois das peripécias pelas quais já tinha passado. Enquanto esperei, pude contemplar a arcada da estrutura, os casais no miradouro e os maus acabamentos dos azulejos. Algo me diz que em pouco tempo o museu ganhar novas formas geométricas.

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Ao fim de 10 minutos lá me foi concedida a entrada para o roupeiro que iria dar acesso a Narnia. Mais uma vez expectativas a roçar o tecto alto do MAAT. A primeira impressão foi bastante positiva: a entrada é composta por uma sala oval, com uma rampa descendente a circundar uma instalação delimitada por uma rede elástica. Dentro desta jaula encontravam-se crianças com os seus 7/8 anos a brincar com aquelas bolas de borracha enormes, daquelas que uma pessoa abraça quando se sente sozinha. A verdade é que uma hora depois as crianças cresceram tanto já pareciam ter 20 anos, isso ou os mais velhos chegaram lá e expulsaram os putos do recreio e ainda ficaram com as bolas.

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Passada a entrada, virei à esquerda, seguindo o som que logo me soou a Nigga Fox. Os primeiros aspectos que observei foram vinte gatos pingados, uma tela comum nas costas do artista e uma música a sair da mesa do Nigga Fox – uma mistura entre ritmos africanos e melodias que não tinham nada a ver uma com a outra. Se não sou muito de dançar, então ali fui ainda menos: mesmo quando tentava, não sabia exactamente que ritmo dançar tal era a mistura rebuscada. Esperei que o concerto acabasse para ver o resto do museu, na esperança de que as paredes passassem a ser um pouco menos brancas. Após fazer a voltinha da praxe, concluí sem margem para qualquer dúvida que, para além da fila enorme para a sala de audiovisual, das projecções na parede em frente a essa fila, também havia uma bela casa de banho, ah! e o fim do museu. Sim, apesar do espaço que tem, é possível percorrer aquela galeria de toupeiras em 1 minuto e meio a andar em passo moderado.

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Dou meia volta para regressar à sala de concertos, preparado para ouvir uma boa lição de Rap. A aula começou bem – o bass da música estava demasiado alto, ofuscando qualquer tentativa do Zebra Katz de cantar. Depois lembraram-se de aumentar o som do microfone. Vinte minutos de danças esotéricas e palavras soltas passados, o artista lá decidiu começar a rappar – ou, pelo menos, a evocar a palavra “bitch” tantas vezes quantas Deus permitia. Na verdade, se houvesse uma entidade reguladora com esse poder, o concerto não teria tido esse rumo. Um músico que representa a comunidades queer e afro-americana e que, numa letra, afirma “I’mma take that bitch to college / I’mma give that bitch some knowledge”, mostrou discurso um pouco à tona da água e uma performance amadora. Alguém se esqueceu de estudar a matéria em casa.

O desfeche da noite foi a salvação ditada pelo japonês Ryoji Ikeda e pela Kuwaitiana Fatima Al Qadiri. A importância que tinha para mim um plano de projecção elaborado, é que conciliado com a música do artista nipónico teríamos uma verdadeira exibição das capacidades do MAAT. Mas por alguma razão preferiram não arriscar e ficaram-se pela tela branca, que diga-se de passagem, foi o suficiente para o Ryoji fazer o que queria, viciar o público no ruído, criando constantemente uma sensação de que algo melhor virá… e vinha sempre. Fatima Al Qadiri fechou a noite com muita electrónica, samples com um toque de agressividade q.b. e um nível de adrenalina que já fazia falta aos espectadores mais pacientes. A melhor forma de terminar esta noite peculiar foi mesmo a observar a vista do miradouro que acabou por fazer esquecer por momentos que tinha de voltar a fazer a caminhada para o comboio.

Vamos então a um balanço deste evento para a inauguração do novo edifício da Fundação EDP que foi visivelmente feito em cima do joelho. Atenção, não digo que estava à espera uma estátua gigante de mármore do Marcelo, mas no mínimo que fosse mais atractivo que a inauguração da nova bomba de gasolina de Gondomar. Estamos a falar de um museu com um nome considerável, com um forte investimento na promoção mediática e que no final me deu a sensação de que venderam banha de cobra de graça. No meio de tanto infortúnio, só faltava mesmo era faltar a luz.

Texto: Teresa Silva/Shifter

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