Snowden deve ser perdoado?


Uma pergunta cuja resposta deveria ser simples tem dividido opiniões e também a imprensa norte-americana. Três dos jornais que receberam e divulgaram os segredos da NSA partilhados por Edward Snowden – The Guardian, The New York Times e The Intercept – estão a pedir ao Governo dos EUA que perdoe o ex-funcionário da agência de segurança norte-americana. O outro é o The Washington Post que, através de um editorial, defende que Snowden não deve ser perdoado.

O jornal detido por Jeff Bezos, CEO da Amazon, refere que Edward Snowden deve ser julgado pelas acusações de espionagem ou, como “segunda boa opção”, aceitar “a responsabilidade criminal por seus excessos em troca de um acordo de leniência oferecido pelo Governo dos EUA”. Glenn Greenwald não percebe a posição do Washington Post contra a sua própria fonte e explica porquê num artigo no The Intercept, jornal que entretanto fundou depois de ter saído do The Guardian, onde mediou a relação entre Snowden e toda a imprensa.

Washington Post acusado de “traição jornalística”

“Esse é o curso normal de um veículo de comunicação, que deve protecção às suas fontes, e que – por ter aceite o material disponibilizado pela fonte e publicado-o – declara de forma implícita que as informações da fonte eram de interesse público”, escreve o jornalista referindo-se à atitude tomada pelo Intercept e também pelo Guardian e New York Times, que, a par do Washington Post, foram os meios que em 2013 publicaram as revelações sobre a NSA. Gleen fala mesmo em “traição jornalística” e diz que, “com esta proeza”, o Washington Post tornou-se o “primeiro jornal a defender explicitamente a acusação criminal de sua própria fonte”.

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As posição do jornal fica ainda mais polémica quando, na mesma nota, a direcção editorial do Washington Post acrescenta que “ele também furtou, e vazou informações sobre um programa distinto da NSA de monitoramento internacional da Internet, o PRISM, que era evidentemente legal e obviamente não representava uma ameaça à privacidade”. Ou seja, segundo o jornal, fora a revelação inicial de Snowden, não existe nem existiu interesse público na revelação dos outros programas de vigilância da NSA, nomeadamente o PRISM.

Só que foi o Washington Post que, ao lado do Guardian, optou por expor o programa PRISM, “publicado os seus detalhes operacionais e um manual ultraconfidencial na sua primeira página”, conforme recorda Gleen Greenwald, lembrando também que, com esse trabalho, o jornal ganhou depois um reconhecido Prémio Pulitzer por Serviço Público.

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Gleen acrescenta que “Snowden não participou da decisão em torno dos programas que seriam expostos, além de inicialmente fornecer o material para os jornais. Snowden não confiou em si mesmo para realizar essas decisões jornalísticas e, portanto, deixou que os jornais decidissem quais revelações atenderiam – ou não – ao interesse público”. E conclui: “Se um programa acabou por ser revelado, pode-se argumentar que Snowden carrega uma certa porcentagem de responsabilidade – já que forneceu os documentos usados –, mas a responsabilidade final é dos editores do jornal que tomaram a decisão de revelá-los, teoricamente por terem concluído que atenderiam ao interesse público.”

Perdão de Snowden é pedido em petição

Com o filme Snowden de Oliver Stone a chegar aos cinemas mundiais, surgiu recentemente um movimento para que o Governo norte-americano perdoe o ex-consultor da NSA, que está há três anos na capital da Rússia, depois de ter divulgado numerosos documentos secretos de uma das mais secretas agências de informação norte-americanas, especializada na interceção de comunicações electrónicas. Snowden foi acusado de espionagem nos Estados Unidos e arrisca até 30 anos de prisão.

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O perdão de Edward Snowden já foi pedido pelo próprio e por outras vozes, da Amnistia Internacional ao ex-candidato presidencial Bernie Sanders. Em 2013, o então funcionário da NSA juntou-se a Glenn Greenwald, que, na altura, trabalhava no Guardian, na divulgação do sistema de vigilância secretamente montado pela NSA. O Guardian, o New York Times e o Washington Post foram os principais meios a publicar os documentos fornecidos por Snowden.

Através do site PardonSnowden.org, podes enviar assinar uma carta que será enviada a Barack Obama a pedir o perdão de Snowden. Quantas mais pessoas enviarem a carta, mais força ganhará o pedido.