Lisbon Postcards: estes postais são um “abanão” nos clichés de Lisboa

O Shifter falou com o autor dos gifs animados da capital.

Lisbon Postcards é uma série de postais animados em gifs, onde a capital portuguesa se serve dos lugares-comuns, como os monumentos e as ruas emblemáticas, para acrescentar elementos novos e surpreendentes. O Shifter falou com Miguel Feraso Cabral, o criador do projecto.

Como surgiram os Lisbon Postcards?

A ideia dos postais não foi propriamente estudada. Estou quase sempre atento a estímulos vários para concretizar em qualquer coisa, seja em vídeo, música ou ilustração, seja em projectos mais elaborados ou em produtos menos sérios. Tenho um prazer imenso em ‘fazer coisas’ e quando estou para aí virado e motivado, avanço. Com os Lisbon Postcards não foi diferente.

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De onde veio a inspiração para estas animações? Houve algum clique?

Onde trabalho há uma varanda virada para o Tejo, de onde se vêem o Cristo-Rei e a ponte. Daí, vi uma perspectiva qualquer que me levou a imaginar a estátua a lançar-se num salto ridículo sobre a ponte. Ainda tentei fazer uma fotografia com o smartphone para manipular posteriormente, mas havia demasiados contentores e gruas do Porto de Lisboa que estragavam a composição e complicariam a animação. Como era uma ideia que queria concretizar rapidamente, procurei imagens na Internet e encontrei vários ângulos muito similares ao que eu vira. Num corte e cola digital e várias manipulações, acabei por fazer uma pequena animação em loop, com o Cristo-Rei a usar a ponte como trampolim.

Achei graça ao facto de utilizar uma imagem quase icónica de Lisboa para uma animação disparatada – parecia quase uma espécie de atrevimento. E resolvi continuar a busca de imagens da cidade, procurando que coisas inesperadas poderia fazer com elas. Com a repetição do tema da capital, achei que devia dar-lhes um nome, como uma série. Assim, é como se assumisse um compromisso para continuar.

É uma forma diferente e crítica de olhar a capital, para lá dos clichés de Lisboa?

Tirando uma ou outra animação em que, de facto, existe uma crítica implícita, não é coisa que procure muito fazer. Aliás, nem são as minhas preferidas. Prefiro olhar para as imagens cliché, que poderiam ser capturadas por qualquer turista, e procurar como desconstrui-las da forma mais inesperada e com humor. Creio que o maior gozo que encontro está aí, no desafio da pergunta que me faço – “como irei escangalhar com graça esta imagem bonitinha?”

O Miguel tem alguns trabalhos em ilustração, porquê tornar estes postais animados, em gifs?

A animação tem o factor tempo. Achei que o tempo faria diferença para o efeito que pretendia. Preciso dele, do tempo, para mostrar um ‘antes’ e um ‘depois’. O ‘antes’ que será a imagem insuspeita de uma paisagem familiar, composta e arrumada, e o ‘depois’ que será a surpresa que tentei cozinhar. No fundo, não é muito diferente de uma anedota que se conta, começando por descrever um contexto vulgar e terminando com algo que não se está à espera. Pelo menos é o que eu tento fazer. Se funcionam ou não, é o risco que corro, mas também é o que me move: a incerteza das reacções que vou ter. Para mim é aborrecido empreender em algo que conto à partida ir agradar quase toda a gente. Gosto de um certo abanão, por mais ligeiro que seja.

Estas ilustrações são verdadeiros postais de Lisboa? Podem ser apelativos para quem visita a cidade pela primeira vez, seja um turista nacional ou estrangeiro?

Não, creio que são outra coisa qualquer. Correndo o risco de parecer inconsequente, não procuro necessariamente uma finalidade ou uma mensagem por detrás. E acho mesmo que até destruo um pouco a ideia de ‘postal’. Os postais que encontramos nas lojas são normalmente quadros ilustrativos de um lugar para se contemplar ou recordar sem grande esforço, e procuram sempre ser ‘bonitos’. Eu procuro outra coisa. Talvez o gozo de desmanchar a compostura.

Qual era a intenção do Miguel com a criação de Lisbon Postcards, a partilha e divulgação pelos internautas? Há alguma ideia para materializar estas ilustrações no futuro?

Quando me decidi a fazer uma série de gifs, pensei logo na partilha nas redes sociais. De qualquer modo, é muito raro eu produzir coisas para a gaveta. Se não saem para um público qualquer, é porque não estou certo que estejam prontas ou que tenham qualidade suficiente ou que tenham algum interesse. Não tenho de achar que são obras-primas, nem são, claro está, mas divulgo mal sinta que o processo acabou e se achar que não me vão embaraçar. É o modo de encerrar e de pensar no projecto seguinte. E, claro, porque é uma forma imediata de obter reacções. Quando der a série por terminada, talvez faça um mini-vídeo com todos os postais.

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