SBSR 2016: este Super Bock foi especial. Todos sabemos isso

Kendrick Lamar deu o concerto do ano.

Este Super Bock é especial. Todos sabemos disso. Estás a ver quando és puto e passas o ano inteiro a perguntar à tua mãe quantos dias faltam até ao Natal? Desde que o Kendrick foi a primeira confirmação do Super Bock Super Rock de 2016, todos contamos os dias até o melhor gig do ano.

O festival é dos mais antigos e reconhecidos do país, mas desde que largou o pó do Meco virou uma semana académica na Expo. Sim, o recinto do Meco tinha os seus pontos fracos mas trocar por isto não, por favor. O Meo Arena é chato e manda bafo. Já vi palcos de feirinhas maiores que o dos portugueses. E em conjunto com os outros 2, todos falham no som. Talvez por todas estas queixas, já do ano passado, a organização tenha largado a nota e trazido o King Kunta para compensar.

E a verdade é que este ano o cartaz do Super Bock era muito bom. Souberam construir um dia à volta de Kendrick ao ponto de esgotar. Iggy Pop, Massive Attack e The National são bons cabeças. E nomes como Jamie XX, Kelela, Fidlar, Kurt Vile e Mac DeMarco no palco secundário fazem todo o sentido. Vale mais o dinheiro do bilhete aqui que nos nomes repetidos do Alive.

Dia 1

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Festivais de cidade são porreiros. Podes ir ver uns concertos e quando entras em modo cama, ela não está assim tão longe. Mas por outro lado, é rara a vez em que consegues chegar a tempo dos primeiros concertos. Mas tudo bem, hoje o cartaz tem um objectivo: Jamie XX.

Cheguei já a meio dos Villagers. A banda veio mostrar disco novo, mas se já no início a banda nunca me puxou muito, agora confirmo que este irish indie folk não encaixa muito bem em 2016. Vi de longe, um concerto competente, com pouco público ainda. Segui para umas jolas que vinha daí Peixe:Avião. E estes sim, fazem muito sentido este ano. Peso Morto é o último e melhor disco dos portugueses.

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Mas como o Super Bock é espectacular a fazer horários no line-up, eram eles ou The Temper Trap. Conseguir ver um concerto até ao fim neste festival era sinónimo de ver poucos concertos durante o dia. Muitas sobreposições. Demasiadas. A solução é ver um pouco de ambos.

Peixe:Avião, a par de todos os portugueses neste festival, estiveram muito bem. Deixaram o seu indie rock progredir e conquistaram alguns ouvidos neste concerto, certamente. Já o concerto de Temper Trap foi muito semelhante ao de Paredes em 2012. Muita gente para os ver, mesmo com um som que pode ser meio morto ao vivo. Estava tudo em sintonia. Eu curto a onda daquela voz meio coro num pop/rock lento. Agora vou ter de espreitar o Think As Thieves, deste ano.

Agora vinham dois dos nomes do dia: Kurt Vile e The National. Para muitos a razão para visitar o Parque das Nações, para mim não tanto.

Primeiro Kurt Vile. Curto muito War on Drugs mas não consigo perceber o hype do Kurt, agora fora da banda. Aquilo é muito bem feito e ao vivo, mesmo com o som abafado por aquela pala em cima do palco, soou muito bem. A performance chegou a ser bruta e visualmente o fumo que o escondia oferecia um cenário bem porreiro. Mas estas guitarras ao vivo sofrem do mesmo síndrome que o Cass McCombs no Primavera, passado um pouco fica muito igual. Mas acredito que para os fãs tenha sido brutal.

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Abandonei a mais de meio e segui para The National. E com eles estava tranquilo. Já os vi 3 vezes e em momentos bem diferentes. Sempre curti revivals de pós-punk e houve uma altura que colava muito nestes meninos e nos Editors. Estes ganham. Discos como o Alligator, Boxer e o último Trouble Will Find Me são já referências e sabe sempre bem ouvi-las outra vez ao vivo. Tantos anos e a voz do Matt Berninger continua uma delícia ao vivo. Mas, peço desculpa, assim que acabou a “I Need My Girl”, abandonei para Jamie XX. E esse é uma estreia.

Falhei o Lux há uns tempos e agora com o In Colors não podia acontecer outra vez. Furar tudo, que nem era assim tanto, e sentir aquele set bem perto da grade. E se calhar a única coisa que não foi incrível, foi mesmo ter sido um dj set. Eu sei que é a onda do Jamie, mas há malhas que ganham muito com um formato live – baterista, baixo, tudo! Mariquices à parte, foi o melhor gig da noite. Adoro como aquele homem consegue num instante tirar-te de uma onda bem pesada, que eu gosto particularmente, e espetar good vibes pelo recinto. Dinâmica perfeita. Ainda assim, numa sala como Lux deve ter muito mais jarda.

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Depois disto, só Dj Shadow tinha força para o superar nesta noite. Pena existir uma cena chata que se chama trabalho e começar cedo de manhã. Espreitar só um pouco de Disclosure, que já os vi demasiadas vezes. E vocês sabem que nunca muda assim tanto. Para quem adora vai ser sempre incrível, para quem nunca viu vale a pena espreitar. Mesmo com 15 minutos de falhas de som.

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Dia 2

Mais um dia de trabalho, mais uns nomes perdidos. Mas ainda houve tempo de ir sentir os Pista. Com bandas portuguesas temos a sorte de poder ver mais que uma vez ao ano e estes é sempre um prazer. Mais tarde, em conjunto com Glockenwise e Capitão Fausto, o palco da Antena 3 esteve em altas. São todas bandas do momento e mesmo com outros concerto a acontecer, muita gente ficou ali logo pela entrada.

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No line-up de hoje, os nomes grandes faziam tanto sentido como em 2010. Vocês percebem. Mas o melhor é que fazem o mesmo sentido em 2016. Bloc Party tem LP novo e são muitos os fãs em Portugal que os seguem, disco após disco. Depois de espreitar Kwabs, que deixou as mulheres do festival em êxtase, cheguei bem a tempo de me sentir num anúncio da Vodafone com a “Banquet”. Mas ainda bem longe de ficar de barriga cheia com este concerto. Para mim, foram só demasiadas coisas novas. Mas acreditem, se fosse há uns aninhos, ninguém me tirava da grade.

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Segue para mais uma correria até Rhye e, tal como em Kwabs, a plateia estava bem disposta à procura de um bom chill. Já o tinha visto no Alive há uns tempos e esta performance não foi muito diferente. Muito competente, com reproduções live e uma voz perfeita ao vivo. Para quem esta foi a primeira vez, foi uma delícia.

Seguem-se 4 concertos que dominaran o dia. Iggy foi Iggy. E foi tão bom. Nunca devíamos esperar tantos anos para ver este sex symbol do rock, como eu esperei. Para quem pensava que este iria ser uma apresentação do novo Post Pop Depression, enaganou-se. Este foi o Iggy que todos conhecem, da “Lust for Life”, passando pela “The Passanger” até acabar com a “Search & Destroy” (a minha malha preferido, do meu disco preferido). Iggy Pop tu és grande.

E se Iggy foi Iggy, Mac DeMarco não foi diferente. Sempre a trollar toda a gente, sempre a mandar deboche e a jardar energia o concerto todo. Foi aquilo que tinha de ser e foi bom. Não adoro esta onda lo-fi por a achar demasiado repetitiva entre bandas, mas este míudo sabe conquistar o público. Não é à toa que em Portugal enche sempre os gigs.

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É agora o show da noiteMassive Attack & The Young Fathers. E só não foi o do festival porque pronto, existe um Kendrick a chorar no dia seguinte. Se és fã destes meninos sabes das conotações políticas que todos os concertos têm. E neste foi incrível. Foram várias as mensagens de união e notícias do momento, que em conjunto com uma actuação de babar por mais, deixaram o Meo Arena a vibrar. Tivemos direito a tudo. Malhas antigas, novas, experiências e muito, mas muito power. E se já o Ritual Spirit mostrava como a colaboração com os Young Fathers faz tanto sentido, ao vivo: meu deus.

Depois disto tudo, só mesmo o Moullinex para nos dar forças para mexer as pernas. Ele sabe o que faz, e acima de tudo, na altura certa. Tudo ali faz sentido e soou tão bem em formato live. Aquela bateria é tão flawless que mete nojo. Adoro.

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Dia 3

É dia de Kendrick. E o melhor é que até à meia-noite, há muita coisa boa para entreter. Com o hip hop a reinar os iTunes do país inteiro, o Mike El Nite veio dar uma lição a todos os que acham que isto é só beats com malta a rappar por cima. E não veio sozinho. Trouxe toda a gente: L-Ali, Prof Jam, Da Chick, todas a colaborações e um formato live (já viram aquele baterista em algum lado, não já?). Que show. Ele é provavelmente o rapper mais pesado do momento em Portugal e muito pelo grande trabalho do produtor Dwarf. Checkem a nova label Tsuno, vai dar que falar.

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Antes de guardar lugar no Meo Arena para o resto da noite, ainda houve tempo para chillar um pouco com a Kelela, que é tão adorável quanto perfeita ao vivo. Aquela miúda manda uma grande vibe. E porque este dia não é só hip hop, os Fidlar vieram refrescar os nossos ouvidos com riffs meio punks, que confirmaram como esta é uma banda a seguir neste revival dos anos 90.

No Meo Arena, as coisas já estavam a aquecer. Orelha Negra trouxe uma performance semelhante à do CCB, para a apresentação do disco novo. É atrás de um manto que o Sam e os amigos abrem a noite com aquela perfeição nas transições. Não é à toa que Sam The Kid é o melhor produtor de hip hop em Portugal. O que eu curtia ter o Volume Beats 1 na prateleira.

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Tinha muita curiosidade para perceber como iria ser De La Soul. É interessante tê-los no mesmo line-up que o melhor rapper do momento, sendo já uma das carcaças mais respeitadas no hip hop. São certamente uma referências para muitos e principalmente para o Kendrick. São pioneiros na fusão entre o hip hop e jazz que tanto identifica o Mr. Kunta. Quanto ao concerto, não o achei tão brilhante como esperava. Começou muito bem, alta dinâmica de palco mas a certa altura foi demasiada battle entre eles.

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Com isto, chegou O momento do festival. E se havia dúvidas, depois deste concerto vemos como a coroa assenta tão bem em Kendrick Lamar. O King Kunta é o artista desta geração e tivemos milhares de pingas de suor para o confirmar. “Look both ways before you cross my mind” – foi com a citação de George Clinton (grande influência do artista) que nos babamos a cada malha que passava. E o que torna o Kendrick um rei é, mais que as rimas ou os beats, o controlo sobre a banda. É incrível. Não falhou nada.

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Talvez a única coisa que gostava de ver diferente no próximo concerto (sim, o Kendrick prometeu voltar) era ter mais convidados. Talvez uns coros e outros artistas com quem tanto colabora. Mas mariquices à parte, foi, provavelmente, o concerto do ano. A voz ao vivo é igual, as malhas surgem naturalmente e a capacidade lírica deste homem é de outro mundo. Procurem um video qualquer da “For Free?” deste concerto no Youtube e vão perceber da jarda que estou a falar. Já passaram uns dias, já vieram outros concertos pelo meio e acreditem, é este que ainda está a bater.

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Ambiente

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