O 180 Creative Camp chegou ao fim e há uma geração que nunca o vai esquecer

Foi uma semana inesquecível, em Abrantes.

Finalmente percebemos o brilhozinho nos olhos daqueles que participaram em edições anteriores do 180 Creative Camp. Durante uma semana, pessoas com diferentes percursos e oriundas de diversos pontos do globo encontraram-se em Abrantes para participar naquele festival dedicado à criatividade. Foram vários dias repletos de atividades em que a interação e a troca de conhecimento e experiência foram o mais importante.

Quando nos deparamos com o programa do 180 Creative Camp percebemos imediatamente o cuidado depositado pela organização na construção do mesmo. Não encontramos nomes previsíveis, mas a qualidade do cartaz foi assegurada por um leque de oradores com provas dadas nas mais diferentes áreas da criação artística. Desde músicos, arquitetos, cineastas e curadores, entre tantos outros, encontramos de tudo.

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A mesma diversidade começou a revelar-se entre os participantes desde o primeiro instante. Numa Abrantes ainda quente de um dia em que o termómetro bateu os quarenta graus, os participantes foram chegando e rapidamente convergindo entre si. Começam a trocar as primeiras impressões. São naturalmente curiosos e é impossível controlar essa faceta sobretudo quando sentem que estão entre pares. Alguns tiram os seus cadernos e começam a desenhar, outros apontam as câmaras, ora para fotografar ora para filmar. Mas todos sentem não haver tempo a perder. Ao 180 Creative Camp vieram buscar conhecimento e novas perspetivas, mas também fazem conta de levar contactos, futuros parceiros de trabalho e amizades.

O primeiro dia encerrou com um jantar de boas vindas no claustro do antigo Convento de São Domingos. A escolha do local não podia ter mais significado, pois os claustros são espaços de comunicação e troca de ideias por excelência. À refeição seguiu-se a apresentação do festival, que se prolongou ao ponto de terminar quase sem audiência. Para muitos dos cerca de quarenta participantes o dia tinha sido de viagem até Abrantes e, entre o cansaço e a vontade de continuar as inúmeras conversas que se desenvolveram ao jantar, a mostra de vídeos de anos anteriores não conseguiu segurá-los.

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O dia seguinte começou cedo e marcou o arranque das atividades do Creative Camp. Ao longo da semana, as quatro equipas pelas quais os participantes foram distribuídos tiveram um workshop por dia com um orador diferente. À noite houve ainda espaço para conversas informais, concertos e projeções de filmes. Tudo pelas ruas da cidade.

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Os responsáveis pelos workshops provêm de diferentes campos da criatividade, mas todos apresentam um historial que antecipa apresentações interessantes e de qualidade. Frank Kalero, curador multidisciplinar e construtor de narrativas visuais, descansa os participantes pondo de parte a noção de que temos de ser somente uma coisa, uma expressão, um projeto de cada vez. O exemplo de Kalero ganha forma nos inúmeros avatares que concebe para as diferentes ideias a que dá forma. Por agora, a sua curiosidade está sintonizada na realidade virtual e na fotografia 360. Contudo, isso pode facilmente mudar. Como o próprio desabafou à plateia, é ótimo a começar projetos, mas abandona-os assim que se aborrece.

Outro dos oradores que mais entusiasmou os participantes foi o documentarista Sean Dunne. Sempre acompanhado pela sua produtora e companheira Cass Greener, era impossível resistir à química do casal. A mensagem que ambos partilharam incentivava a que nos liguemos ao meio no qual já estivermos envolvidos e trabalhar a partir dele. Não há desculpas para não criar algo, a matéria prima está onde o criativo se encontrar. A mesma problemática foi usada para desconstruir o mito do obstáculo da técnica e do equipamento. O exemplo está na filmografia do próprio cineasta nova-iorquino. Alguns dos seus documentários foram filmados apenas com uma câmara e outros, como Trump Rally, unicamente com telemóveis.

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Em ambas as ocasiões foi abordado o papel das escolas e a postura dos oradores foi transversal. São espaços importantes e com alguma relevância, sobretudo ao nível das relações pessoais neles estabelecidas. No entanto, estão longe de serem determinantes para um futuro criativo. Para Kalero, as escolas apenas podem ensinar como fazer e, num mundo de novos media, essa componente técnica é facilmente adquirida na internet. O mesmo ceticismo é partilhado por Dunne, para quem o verdadeiro contributo de cada um assenta numa expressão pessoal e única, não repetindo as fórmulas pessoais de outros ensinadas nas instituições de ensino e formação.

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Porém, nem só destes e de outros workshops se fez o 180 Creative Camp. Sintetizar a experiência deste campo nestas aulas, por mais fascinantes que tenham sido, seria altamente redutor. Tão ou mais importante foram os blocos de tempo livre. Como durante as refeições, em que se reflete sobre o que tem sido aprendido ou se dão os primeiros toques em projetos surgidos entretanto naquele ambiente. Acima de tudo estabelecem-se ligações com o potencial de virem a ser amizades para a vida. Idêntico cenário repetiu-se ao longo dos dias de “folga”. Primeiro, a meio da semana com a desculpa de um mergulho no Tejo e, depois, no dia de encerramento para ultimar detalhes dos trabalhos em curso.

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É verdade que existem alguns detalhes que precisam de ser aprimorados na organização de futuras edições do 180 Creative Camp. Por exemplo, o atraso constante no arranque quer dos workshops quer dos concertos ou a fraca disponibilidade de internet. Mas qualquer defeito que possamos encontrar é minúsculo perante a realidade de que todos os anos há uma geração que nunca vai esquecer a semana que passou em Abrantes. Este ano não foi exceção. O único momento difícil neste campo é a despedida, pela dúvida de algum dia se voltar a viver uma semana assim. Esse sentimento, que muita instituição ou evento tomara gerar no seu público, é um mérito que ninguém tira à equipa do Canal 180.

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