O que sabemos sobre o massacre de Orlando


12 de Junho de 2016 foi mais um dia triste para o mundo e para os direitos humanos. Um cidadão norte-americano entrou na discoteca LGBTI Pulse em Orlando, na Florida, matou 50 pessoas e feriu 53. Omar Mateen estava armado com uma espingarda AR-15, uma pistola e um elevado número de munições. O que parecia ser uma desavença à porta da discoteca, rapidamente se tornou no massacre mais sangrento da História dos Estados Unidos. O atacante começou por fazer reféns no interior do espaço, tendo mantido as pessoas sob sequestro durante 3 horas. Após 180 minutos, a polícia entrou no local, matou o atirador, mas não conseguiu evitar o “ataque de terror e ódio”.

Foram essas as palavras de Barack Obama que, em declarações na Casa Branca, acrescentou que a melhor resposta passa pela união dos americanos, de modo a proteger e defender a nação. Para Obama esta “pessoa cheia de ódio” não vai mudar em nada o que os americanos são.

Omar Mateen era um segurança de 29 anos de origem afegã. Tinha várias licenças de porte de arma e estaria sob vigilância das autoridades norte-americanas desde 2013. Diversos meios de comunicação relatam que momentos antes do ataque, o atirador terá ligado para o 911 (número de emergência norte-americano) a declarar lealdade ao Daesh. Momentos mais tarde, o ISIS reivindicou o ataque através da agência noticiosa interna afirmando que foi elaborado por um seguidor da sua doutrina.

Como é que um suspeito sob radar do FBI compra armas legalmente?

Um dia depois do choque inicial do massacre, começam a surgir as perguntas. Sabe-se que Mateen foi entrevistado três vezes pelo FBI em 2013 e 2014 por suspeita de “simpatias terroristas”. Em relatórios distintos podia ler-se que Mateen era suspeito de ter comportamentos extremistas e conexões a grupos terroristas, relatórios esses que no final foram considerados sem substância.

Certo é que no ataque de ontem, depois de cerca de 20 minutos de disparos, o norte-americano fez uma chamada para o 911 na qual se refere não só ao Daesh como aos irmãos Tsarnaev, responsáveis pelo atentado da maratona de Boston em Abril de 2013.

Omar-mateen

Não só isso é substancial, como o facto de Omar Mateen ter comprado na semana passada as armas usadas no tiroteio, com uma licença de porte de arma legal e em seu nome. As investigações do FBI parecem também não ter sido importantes para que Omar trabalhasse como segurança numa das maiores empresas do sector nos Estados Unidos. Também para isso é preciso uma licença especial, que lhe foi concedida pelo tribunal de Port St. Lucie sem qualquer restrição.

O incidente promete reacender o debate sobre as leis de porte de armas nos Estados Unidos, e sobre a forma como (não) são verificados os antecedentes criminais e passado de quem as compra. Nas últimas horas reapareceram nos títulos da imprensa, nas redes sociais e na opinião pública em geral temas como o lobby das armas nos EUA e a “insanidade” (assim descrita por um Comissário da Polícia da Nova Iorque) de existirem listas de potenciais terroristas, listas de pessoas proibidas de abandonar o país e de ainda assim, qualquer uma delas, conseguir comprar uma arma com uma autorização legal, sem ter sequer que o fazer no mercado negro.

No caso de Omar Mateen, não eram só os antecedentes criminais e relatórios das autoridades que punham em causa a sua capacidade e competência para ser portador de armas. Assim que foi revelada a identidade do autor do ataque, a ex-mulher do homem de 29 anos confessou ter sido vítima de violência doméstica nas suas mãos. Sitora Yusifiy contou aos jornalistas que se divorciou em 2009 depois de 4 meses de casamento, tempo em que foi mantida como refém em casa, sem poder contactar com a família e em que assistiu a inúmeros episódios demonstrativos da instabilidade mental do marido. Sitora conta ainda que Omar queria ser polícia, tinha amigos polícias e chegou a trabalhar num estabelecimento penal para menores para ganhar experiência.

Lembra-se que Omar era religioso, muçulmano praticante mas não mostrava sinais de extremismo.

“O Daesh não representa os muçulmanos”

São vários os líderes muçulmanos que já vieram condenar o ataque. Dizem que o atentado não teve por base a religião mas a instabilidade de um terrorista.

Nihad Awad, director executivo da CAIR – Council on American-Islamic Relations, disse que o auto-proclamado Estado Islâmico não representa os muçulmanos.

O sentimento geral é que nenhum acto terrorista fala por nenhuma religião e que o que aconteceu em Orlando deve ser repudiado por todos, independentemente de crenças ou credos.

Organizações como a CAIR querem distanciar-se de acções como as de Mateen, não só pela violência terrorista como pela homofobia.

O ataque tem especial impacto na comunidade gay muçulmana que vive nos EUA. Dizem que não se pode categorizar os acontecimentos de ontem como uma luta entre a comunidade LGBT e a comunidade muçulmana. “Sabemos que há muitos de nós que vivem nas intersecções das identidades LGBT e do Islão. Em momentos como este, estamos duplamente afetados”, escreveu em comunicado a Aliança Muçulmana para a Diversidade Sexual e Género.

O pai de Omar que, momentos após o ataque, veio dizer que nada tinha a ver com religião mas que o filho “ficou muito zangado quando viu dois homens trocarem beijos em Miami”, voltou a pronunciar-se.

Num vídeo publicado no seu próprio facebook, Seddique Mir Mateen pede desculpa pelas atitudes do filho. De acordo com a CBS – autora da tradução – Seddique diz que “Deus vai encarregar-se de castigar os envolvidos na homossexualidade” e que isso “não é um assunto para ser tratado por humanos”.

A CBS acrescenta que Seddique Mir Mateen apresenta um programa de TV numa estação com satélite na Califórnia visto principalmente por “afegãos de etnia Pashtuns que vivem nos EUA e na Europa.” O programa tem uma retórica anti-paquistão e expressa um sentimento pró-Taliban.

O ataque e a campanha para as Presidenciais

De forma instantânea, as reacções políticas não demoraram a surgir. No Twitter, Hillary Clinton lamentou o ataque e pautou o discurso pela união e pelo combate ao acesso fácil de armas de fogo.

Por sua vez, Donald Trump, optou por um discurso egocêntrico (e pouco surpreendente) atacando Hillary Clinton e Barack Obama. A estratégia de Trump foi clara: tornar-se o centro das atenções numa altura de tragédia. Ganhar pontos não interessa como, apenas importa ser o homem do leme da ignobilidade.

Homossexuais proibidos de doar sangue – o reacender do debate

O número de doações de sangue para responder ao massacre de Orlando não era tão elevado desde os atentados do 11 de Setembro.

Depois do apelo das autoridades, só em Orlando mais de 35 mil pessoas dirigiram-se aos centros de recolha para doar sangue. Apesar das longas filas de espera e da grande adesão da população aos pedidos dos hospitais, o ataque reacendeu o debate acerca das restrições impostas a doações de sangue por homossexuais. Homens que tenham tido relações sexuais com outro homem no último ano não podem doar, por isso não podem – ironicamente – contribuir para ajudar as vítimas do mais mortífero ataque terrorista dos Estados Unidos, levado a cabo numa discoteca gay.

No Twitter, vários utilizadores lamentaram a restrição estatal.

“We live in a country where it’s legal to buy assault rifles & it’s illegal for gay men to donate blood to help the victims of this massacre.”

— Fortune Feimster (@fortunefunny) 12 de junho de 2016

A proibição de doações de sangue por parte de homens homossexuais e bissexuais foi implementada em 1983 pela FDA (US. Food and Drug Administration), no início da propagação do vírus da SIDA, quando pouco se conhecia sobre a doença. Em 2015, a premissa de inibição total foi alterada, vigorando hoje a possibilidade de doação com a condição de 12 meses de interregno sexual.

A discoteca que deu o alerta pelo Facebook

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Foi este o post que a discoteca fez no Facebook para alertar os clientes acerca dos primeiros tiros. Rapidamente várias utilizadores acorreram à página e aproveitavam para perguntar sobre amigos e deixar o seu testemunho relativo ao que acontecera naquela noite. Ricardo J. Almodovar, uma das pessoas que se encontrava no espaço, relatava que “toda a gente se deitou no chão, e quem se encontrava junto ao bar, conseguiu sair pelas traseiras da discoteca.”

O Facebook activou o mecanismo “Security check” pela primeira vez nos Estados Unidos, na sequência do ataque. Este sistema permite que os utilizadores  se marquem como seguros, avisando amigos e familiares através de uma notificação.

Mais uma vez, a importância das redes sociais revelou-se no meio do caos. A própria polícia de Orlando que acorreu ao local foi dando notícias via Twitter, insistindo que era mesmo só via Twitter que ia conseguir esclarecer dúvidas e responder a perguntas uma vez que não havia tempo nem disponibilidade para atender telefonemas.

12 de Junho de 2016 foi mais um dia triste para o mundo e para os direitos humanos. Um acto cruel vitimou dezenas de pessoas que se estavam a divertir numa noite como tantas outras.

Texto por: Rui Sousa e Rita Pinto