NOS Primavera Sound 2016 – dia 2


Segundo dia. Agora as coisas começam a complicar. O Palco. (Palco Ponto) acorda hoje e com nomes que vão pesar nas decisões. Mas já sabíamos que ia ser assim. Ir a um festival de verão é mais ou menos a mesma cena que viajar para uma capital europeia num fim-de-semana. Queres ver tudo mas sabes que em 3 dias não vai dar. Há que fazer escolhas. Eu fiz as minhas, mas a verdade é que nenhuma viagem acaba como planeada. Houve tempo para surpresas e desilusões.

Chegar cedo ao recinto já pesa e acabei por chegar no fim de White Haus. O novo alter-ego de João Vieira, dos X-Wife, já anda se anda a ouvir pelos festivais há algum tempo e costuma ter malta a ver. As aventuras na composição e produção de electrónica pop teve sucesso nestes últimos anos. Deve ter sido um bom chill.

nps16dia2whitehaus_04

nps16dia2whitehaus_02

Direto para Cass McCombs sem grande expectativa. Já o vi no Alive, chegou a ir à ZDB, e nunca senti o hype que ele tem. Eu achei engraçado no Alive e no início até estava a curtir mesmo deste concerto no Primavera. Aquela guitarra estava a soar bem e o som estava fixe. Bom folk. Depois entra aquela onda psicadélica pelo meio e estava a saber bem com o sol na tromba. Muito a onda do Kurt Vile e War on Drugs. Mas depois acaba sempre por me aborrecer por ser muito igual a muita coisa. Sim, fala o gajo que adorou Sigur Rós, sempre igual para muita gente.

nps16dia2cassmccombs_04

nps16dia2cassmccombs_08

Passa para uma das desilusões. Conheci Destroyer há bem pouco tempo. É daquelas que te vêm dizer que é boa cena e vale a pena investir umas horas a explorar os discos. O Dan Bejar é nome grande da composição canadiana, colaborou com os The New Pornographers e já vai com 20 anos com a banda. Mas aquilo ao vivo soou tão pobre. O homem até tinha paleta a beber o seu uísque, com aquele rock romântico, banda composta. Mas não senti. Parecia Coldplay em alguns momentos, nada entusiasmaste. Também parte em desvantagem, ouvir saxofone depois do Kamasi é duro.

nps16dia2destroyer_01

Desisti fácil e fui estrear o palco novo. Ouvi pouco dos BEAK> em casa e aquilo parecia bem mais electrónico. Boa surpresa. O trio que conta com a presença de um dos fundadores dos Portishead, Geoff Barrow, tocou um set denso que nem as falhas nas colunas conseguiram parar. As influências de krautrock são claras, que chega a ser industrial com umas experiências maradas. Ouve uma altura que parecia estar numa cena de hip hop pesado. Curti. São gajos com boa atitude.

Agora veio o primeiro mini aperto. Já sabia que tinha de ir ver os Dinosaur Jr. e Brian Wilson sempre foi mais uma curiosidade. Carcaça por carcaça, respeita-se os mais velhos. Dá-se 20 minutos ao Mr. Beach Boys, que afinal o Pet Sounds faz 50 anos, e depois continua-se.

nps16dia2brianwilson_01

Beach Boys para mim sempre foi música para ouvir a cozinhar. É alegre, bem disposto e dá para dançar. Resume um pouco o que senti a ver o Brain Wilson. Sentado no seu trono, animou com carinho o muito público que veio para o ver. É daqueles concertos bonitos que ficas contente de acrescentar à lista.

Correr para Dinosaur Jr. e chegar mesmo no início. Power. A banda de J Mascis já conta com 30 anos de carreira e veio ao Porto mostrar que dinossauros, só mesmo de nome. Sentias a vontade de tocar, a atitude. Finalmente ouvi a Feel The Pain ao vivo. Foi uma banda que rodou algumas vezes cá por casa quando comecei a explorar as bandas de rock alternativo/garage rock dos fins de 80, início de 90. Um pouco na mesma altura que os Sonic Youth.

nps16dia2dinosaurjr_01

Agora o plano era ver grande parte das Savages, que já tinha visto no SuperBock SuperRock e curti para caraças, e seguir para Floating Points. Não deu. Sempre tive curiosidade para ver ao vivo o projeto eletronico do Sam Shepherd, em estúdio está brutal e ia trazer formato live. Mas as Savages partiram tudo, outra vez.

nps16dia2floatingpoints_04

nps16dia2savages_02

Que a Jehnny Beth tem presença já todos sabemos mas este foi ainda melhor que o de Lisboa. Estava louca, foi para o meio da multidão por mais que uma vez e confessou ser um gig especial: foi no Primavera que há 3 anos escreveu o single “Fuckers”. É nosso. Depois o som, finalmente um som alto. Pesado até. Aquele baixo não falha em estúdio, nem ao vivo. O pós-punk das miúdas encontradas pelo manager dos Sigur Rós, foi do melhor que se ouviu neste festival.

Já falei da minha crush por vozes femininas de singer/songwritters. Ora, vem aí a senhora PJ Harvey. Uma parada trouxe uma das vozes mais fofas da música, que não falhou ao vivo. A voz estava perfeita e recebeu, provavelmente, a enchente do festival. Com um visual que fez lembrar Chelsea Wolfe, a PJ Harvey tocou tudo o que há de novo e, infelizmente, deixou quase tudo o que gosto de parte. Gosto tanto do Stories From The City, Stories From The Sea. Senti falta das guitarras com aquela voz numa coisa diferente. O concerto foi tão bom quanto fofo, mas para mim, foi muito do The Hope Six Demolition Project. E desse conheço pouco.

nps16dia2pjharvey_03

Com o Freddie Gibbs de fora, até chegar Beach House haviam duas bandas pelo caminho: Mudhoney e Protomartyr. Sempre fui gajo do grunge (pena não ser este um revival dos Mad Season ou Alice in Chains com o Layne) e Mudhoney não me passou ao lado. Tinha muitas malhas para ver: “Touch Me I’m Sick”, “Suck You Dry”, “1995”… Tocou todas. É engraçado ver a banda que colocou Seattle no mapa, ainda antes dos Nirvana, de lado no line-up com bandas como os Parquet Courts. Não são necessariamente a mesma coisa, mas bebem muito do mesmo feeling, em diferentes gerações e estilos. O som estava bruto, como eu gosto, mas tinha de dar uma oportunidade aos Protomartyr. Sai nas últimas malhas.

nps16dia2protomartyr_01

Protomartyr é uma banda que ainda ouvi umas quantas vezes em casa. Aquilo é bom e estava curioso de como seria ao vivo. Aparecem com um dos álbuns do ano passado para a Pitchfork, a tocar no seu palco com uma presença bem forte. A palavra certa é bruto. Ao ponto de me ter feito lembrar o concerto dos Sleaford Mods no Alive do ano passado. Aquela onda rafeirona, estás a ver? No primeiro plano do pós-punk do quarteto de Detroit tinhas Joe Casey, que me deu uma chapada já quase no fim do dia. Com o som pesado e uma voz mais recitada que cantada, vi ali uma boa surpresa do festival.

nps16dia2tortoise_01

A malta dispersou toda para Tortoise mas as experiências pelo rock experimental e progressivo de John McEntire vão ter de esperar por uma próxima. Agora chegou o momento dos Beach House. Adoro o trabalho em estúdio da dupla de dream pop de Baltimore, Victoria Legrand e Alex Scally, mas os concertos não são famosos. Há anos que se comenta a seca e desinteresse que são cara-a-cara. Eu nunca os tinha visto e acho pela quantidade de plays no meu iTunes, merecem que veja tudo.

nps16dia2beachhouse_01

Pelas vezes que rodou o In Bloom, o Teen Dream e os últimos 2 discos do ano passado: Depression Cherry e Thank You Lucky Strars. E, na verdade, gostei mesmo de os ouvir ao vivo. A pop da dupla foi sonhadora e cativante. Acredito em todo o mal que me disseram deles mas neste Primavera foi bom. Aqui apresentaram um formato diferente com mais tempo, mais músicas e num palco maior. Houve momentos mais altos, mais pesados e expressivos. Houve interacção, danças e ganzas. O ambiente estava lá. Só senti que podiam ter tocado mais vezes mais alto mas como até estava lá à frente, até estava tranquilo.

Com o dia a chegar ao fim, a vontade para Roosevelt já não era muita. Fui lá espreitar, estava animado mas não tenho muito mais a dizer da música do produtor alemão Mauris Lauber. Tinha sim de uma loja da Tubitek na feirinha dentro do recinto. Sair daqui antes fique sem dinheiro para cerveja no último dia.

Fotos de: Nuno Diogo/Shifter