‘Knight Of Cups’

O novo filme de Terrence Malick tem tanto de genial como de esgotante.

Chegou esta semana às salas de cinema portuguesas o último filme de Terrence Malick, Knight of Cups. Seguindo um caminho idêntico àquele a que o realizador nos habitou com os seus últimos trabalhos, esta última obra surge como a mais fragmentada e de difícil apreciação, dividida em capítulos que nos remetem ao universo das cartas de tarot, de onde também surge o nome do filme.

Christian Bale é o protagonista. Interpreta Rick, um argumentista de Hollywood que busca um sentido para a sua vida através de excessos como as drogas, álcool e mulheres – interpretadas por Cate Blanchett e Natalie Portman, entre outras.

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O filme alterna entre planos estáticos e contemplativos da natureza (procurando sempre a interrogação da relação entre o humano e o selvagem), e a imprevisibilidade de uma câmara que parece querer invadir o espaço filmado, colocando-nos quase como companhia dos actores. Mais um maravilhoso trabalho do recentemente galardoado com o seu terceiro Óscar, Emmanuel Lubezki. Em Knight Of Cups nós somos parte do filme.

Através de uma estética quase digna de spot publicitário, por vezes contemplativa demais, e não poucas vezes guiadas por uma voz de narrador, Terrence Malick procura usar Bale como peão para uma busca pela substância do mundo que o rodeia. Para isso, o realizador e argumentista preparou o actor dando-lhe apenas indicações sobre a estrutura psicológica da sua personagem, não dando a Bale qualquer guião e deixando-o livre das amarras de qualquer narrativa.

Um filme artístico que se perde por vezes em si mesmo. Se através da imagem somos constantemente convidados a entrar pelo ecrã adentro, no argumento Terrence Malick nega-se a forçar qualquer tipo de aproximação com o público, tirando-nos as bases ou os guias da narrativa. Em Knight Of Cups somos obrigados a procurar o sentido e significado da história na contemplação do que nos é disponibilizado.

A vida é demonstrada em Knight Of Cups na sua forma mais pura e realista, como se fosse apenas um conjunto de ocasiões afectadas pelas nossas vivências pessoais. É esse o espaço que Terrence Malick dá ao actor. O de ser alguém que não existe nem em papel (leia-se, num guião), mas sim de ser uma pessoa nova que viveria conforme o seu background psicológico a faria viver.

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Adepto da filosofia (curso em que se formou) e voraz apreciador de Heidegger ou Kierkegaard, é nestes autores que temos a grande base que serviu de apoio para o realizador neste seu último trabalho.
Ainda mais fragmentado que The Three Of Life ou To The Wonder, Knight of Cups são duas horas de uma viagem espiritual que se pode tornar esgotante até para os apreciadores mais declarados do estilo e do realizador – que não devem esperar algo remotamente parecido a Badlands ou The Thin Red Line.

A arte não tem de ser clara nem muito menos dada. A arte é o resultado do que é feito pelo artista. Tal como a obra de condão surrealista de Buñuel ou Lynch, Terrence Malick faz a sua própria arte no seu estilo e consegue com este filme o auge da sua obra feita, a obra feita de um dos maiores (se não mesmo o maior) realizadores filosóficos entre nós, que nos contempla uma vez mais com o seu lirismo visual, com o toque especial do midas Emmanuel Lubezki.

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