“Vamos fazer uma digressão de 3 meses no Verão. Vamos tentar vir a Portugal, sem dúvida”


No dia da apresentação do filme, Family Dinner Vol. 2, estivemos a falar com o Michael League, num simpático café no Saldanha, enquanto comíamos pão com chouriço.

 

Snarky Puppy não é somente uma banda de Jazz de fusão e vocês demonstram-no quando tocam como um colectivo. Qual é a tua relação com todos os membros? Como é que fazes para funcionar?

Hum… Alguns dos membros estão na banda há 3 anos, outros há 12, percebes? A banda já existe há algum tempo e mesmo os membros que estão há menos tempo, já participaram em pelo menos 300 concertos. Quando estamos em Tour, ganhamos proximidade muito rapidamente, portanto somos como uma família.

Há, portanto, uma boa química?

Sim, sem dúvida.

Mas nunca há momentos de tensão?

(risos) Claro que há! Somos seres humanos e é como uma família. Por vezes os teus irmãos lutam, mas no geral, com o pessoal da banda, é uma exceção. Normalmente, é tudo muito fluído e harmonioso.

Que música(s) em todos estes anos, como um Snarky Puppy, vocês nunca se cansam de tocar ao vivo?

Sabes, acho que não há nenhuma música que nos cansemos de tocar, para dizer a verdade. Porque tocamos cada música de variadíssimas formas, todas as noites. Já tocámos a “Binky”, sei lá, umas 500 vezes, mas nunca nos cansamos porque temos um sistema que nos assegura que nunca tocamos da mesma forma. Na maior parte dos casos, temos sempre alguém diferente a começar a tocar a música e isso permite que se torne uma nova experiência, sem nunca nos cansarmos.

Está claro que tudo o que fazes é escolhido a dedo. Como é que escolheste estes fantásticos artistas para tocar convosco no Family Dinner vol.2?

Para os álbuns Family Dinner, basicamente fazemos uma lista de todos os artistas do mundo com os quais queremos tocar e que admiramos. Quem disser que sim, entra no disco. É muito simples, é como convidar alguém para uma festa. Envias uma mensagem e as pessoas respondem, posso ir ou não posso ir. O ponto principal destes discos é mostrar diversidade. Queremos trazer bons artistas e fazer algo diferente.

Esta é a primeira vez que vemos o Larnell Lewis (baterista) e o Robert “Sput” Searight (baterista) a tocar juntos. Porquê?

Para o primeiro Family Dinner, houve imensos membros, da banda base, que não estiveram presentes – Chris Mcqueen, Shaun Martin, Larnell, Marcelo – portanto, achámos que era bom juntar toda a gente. E o Larnell tem tocado em praticamente todos os concertos até ao ponto da gravação do disco. Então, convidámos os dois e arranjámos as canções de forma a inserir os dois bateristas e funcionou muito bem. São dois músicos humildes, o que tornou o processo bem mais fácil. Bem, depois ainda temos 4 percussionistas, André Ferrari, Nate Werth, Bernardo Aguiar e o Marcelo Woloski.

Acreditas que alguma das músicas deste álbum pode ganhar um Grammy, tal como ganhou a “Something” em 2013?

Eu não sei, prémios são prémios, não tens qualquer controlo sobre isso. Se quiserem dar-te um prémio, dão-te. Não é definitivamente por isso que fazemos música, por isso, não sei. Mas cada um deles se pode encaixar em qualquer categoria. Portanto, sim, é possível.

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O Jacob Collier é único e só tem 21 anos, onde pensas que ele pode ir?

Acho que pode ir onde ele quiser. Ele tem uma quantidade incrível de habilidade natural e uma audição incrível. Ele e o Cory Henry têm o mais profundo sentido de harmonia que eu alguma vez ouvi na minha vida. Eles e o Sharkey, o guitarrista da banda do D’Angelo. Quando ele [Jacob] decidir o que quer fazer, vai fazer um excelente trabalho. Aliás, já está a fazer um grande trabalho e, qualquer que seja o caminho que tomar, vai ser muito bom.

Pois, o Jacob começou também no Youtube. Teve um começo parecido com o Justin Bieber, mas a diferença é que o Usher pegou no Bieber e o Quincy Jones pegou no Jacob…

(Risos) Sim, é verdade. E mesmo que o Jacob se tornasse um artista pop, ele ainda assim seria fantástico. Porque ele é assim, é um músico, não é um cantor de Youtube.

A primeira música do Sylva, chama-se Sintra. É por causa de Sintra, aqui em Portugal?

Sim, claro.

Já consideraram tocar lá?

Sem dúvida. Seria fantástico. Eu adoro aquele sítio, qualquer chance que tenho de ir lá, vou!

O que é que está para vir?

Há tanto a acontecer, temos um novo álbum instrumental a caminho em Junho, com 13 músicas. Vamos fazer uma digressão de 3 meses no verão. Vamos tentar vir a Portugal, sem dúvida. Há imensos projetos paralelos a acontecer, membros que estão a começar outras bandas…

Novo álbum de FORQ?

Sim, um terceiro álbum está a caminho, que vamos gravar dentro de um mês. Estou a produzir os próximos álbuns do David Crosby e do Salif Keita. O do David vai ter selo da GroundUP, mas o do Salif ainda não tenho a certeza. Vamos ter um festival de música em Miami. Vamos ter artistas de dentro e de fora da GroundUP music. Vamos começar a fazer lições de música em vídeo, que vamos meter no site dos Snarky Puppy. Vai contar com a participação individual de cada membro da banda. Ando a escrever um livro.

Onde é que vês os Snarky Puppy daqui a 10 anos?

A fazer a mesma coisa, mas a uma escala maior. Dar imensos concertos e tocar em vários festivais, a trabalhar com outros artistas, fazer novas músicas e álbuns, trabalhar na área da educação. Continuarmos a desafiarmo-nos. Eu espero que daqui a 10 anos o nosso som tenha crescido e incorporado elementos de novas experiências e novos estilos musicais e culturais.

Achas que há alguma forma de aumentar a popularidade dos Snarky Puppy?

Isso não me interessa muito, para mim o que interessa é continuarmos a fazer música que todos nós gostamos de tocar. Não vou convidar um artista indiano, só para que o povo indiano goste de nós. Nós fazemos o que quisermos. E nos próximos 2 anos vou andar a viajar para estudar música de outros países. Vou ao Perú, Brasil, Guatemala. Ficar lá umas semanas ou meses simplesmente a estudar música. Para mim, isso é que interessa, ter constantemente novas experiências mesmo à minha frente.

Então, primeiro fazes música que tu gostas, depois é que fazes música para o público?

Claro! Muitos músicos ficam contentes com a sua música, porque acham que as pessoas vão gostar dela, mas quando o público não gosta, os músicos deixam de gostar da música. Mas se fizeres música que te deixa feliz, tudo o que tens de fazer é transmitir que gostas do que fazes. Se eu sorrir para alguém, as chances de essa pessoa me sorrir de volta são altas. É a mesma coisa, tudo o que tu projetas é contagioso, se realmente gostas da música que fazes e se acreditares nela, se te desafiar e te fizer crescer, então o público vai mesmo gostar. Porque, realmente o que eles querem é que tu faças o que já fizeste antes, mas antes de o teres feito, eles não queriam isso. Só passam a querê-lo a partir do momento em que o fizeste.

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2015 foi um grande ano, tanto para vocês como para artistas como Kendrick Lamar, D’Angelo, Hiatus Kaiyote, Robert Glasper. Achas que a música está a progredir, em géneros como R&B, Soul e Jazz?

Acho que a música tem de evoluir. Houve décadas, como os anos 60 e 70, em que a cada 2 meses, o Rock & Roll mudava, com um novo álbum, dos Pink Floyd, dos Led Zepplin, dos Beatles, do Hendrix ou do Clapton. O género que era o Rock & Roll era completamente diferente em Março do que era em Janeiro. Acho que não se pode dizer o mesmo da música hoje em dia. Acho que o Hip-hop tem estado estático, o Jazz tem estado muito estático durante décadas, com a exceção de um álbum de vez em quando, mas nunca movimentos que mudem todo o panorama. Isso deve-se muito ao facto das pessoas terem medo de fazer discos, porque a música já não paga como antes, porque as pessoas já não pagam para a ouvir. Há muitos fatores, mas como músico não podes sentar-te no teu quarto e chorar. Se não gostas da situação, tens de fazer para a mudar. É como o caso da política, se não gostas do teu presidente, tens de sair à rua e protestar. Se gente suficiente sair à rua e protestar então as coisas mudam.

Claramente nota-se que os Snarky Puppy, Hiatus Kaiyote e o Robert Glasper estão a criar um novo movimento, novos caminhos por onde ir. Quase como se fossem os novos messias…

(Risos) Oh não! Não quero viver a esse nível! Não nos vejo dessa forma. Eu gosto de ver tudo de uma micro perspetiva, do género qual é o melhor acorde, o melhor Groove. Não gosto de pensar de forma tão grande.

Com pequenas partículas nas vossas músicas, vocês podem fazer a diferença…

Sim, é isso! É com as pequenas coisas que tudo toma forma…

É como a reciclagem!

Exacto, quando estou a reciclar uma garrafa de água, eu não estou a pensar que estou a salvar o planeta, estou a pensar que tenho de cuidar desta garrafa de água e fazer a minha parte. É a mesma coisa com a música. E é o teu trabalho enquanto jornalista, falar sobre todas estas novas ideias, e o meu trabalho enquanto músico, compor novas músicas. Se os artistas fizerem aquilo em que acreditam e gostam e, se tivermos artistas suficientes a fazê-lo, então torna-se muito fácil mudar o panorama musical e o mundo.

Fotos: João Porfírio/Shifter