Criatura – ‘Aurora’


Já ditava a lenda que D. Sebastião iria surgir num dia de nevoeiro, para salvar Portugal de todo o seu mal. Subentendido neste dito está também o surgimento da Criatura, caminhando no seu habitat que é a Aurora.

Aquecido pelo calor Alentejano, abriga-se debaixo de um sobreiro, enquanto entoa cantos de salvação da música portuguesa. Em jeito tradicional português, Edgar Valente juntou uma bela e criativa Criatura com o Grupo Coral e Etnográfico do Povo de Serpa, para dar asas a um dos projetos mais ambiciosos dos tempos modernos.

8 músicas, recheadas de tradição e orgulho português, embalam quem ouve numa viagem pelos tempos do país que, outrora, foi conquistador.

Com um começo meio experimental, “A Primeira” é sentida como se fosse o início de uma peça de teatro. Este início encontra o seu fim com “Filhe”, que abraça um canto assombrado pelos sinos da igreja. Ao soar da letra, surgem os tambores, que injetam garra e um grito de revolução. Finalizando com uma gaita de foles, dá-se o início ao segundo canto da peça.

Surge então um “Pastor sem Cajado”, quase como um samurai, e iniciam-se os sons de flauta. Esta, que é provavelmente a música mais marcante do álbum, é muito marcada por uma linha de baixo que define todo o seu seguimento. O soar da bateria nesta música é também impressionante, por impor mudanças rítmicas nesta bela guerra de vozes, embebidas em refrãos com trocadilhos ao jeito de Sérgio Godinho.

Segue-se o tema “Aurora”. É aqui que se desenha o habitat da Criatura e o seu mundo sombrio, ditado pelas agudas cordas da guitarra portuguesa. “Depois da tempestade, vem a bonança” é o primeiro verso da música e o começo da participação do Grupo Coral, que se estende pela “Moda Nova”, que serve de interlúdio, e também pela “Menina da Paz”, impondo uma nova fase, com um instrumental já mais a culminar no Jazz.

Ao entrar no fim da Aurora, inicia-se o “Tempo”, com a máxima “Que o relógio não é dono do tempo / Mas tu és dono do tempo / se quiseres e eu também.” Faz sentir que, depois das 6 músicas anteriores, já podemos respirar e transpirar toda a intensidade.

A conclusão ficou a cargo de “Algarviada”, que começa com uma anedota com sotaque algarvio e parte para uma música muito festiva. Sem dúvida a melhor forma de acabar a viagem, com cânticos ao estilo balcânico, como se de um casamento cigano se tratasse.

Com uma boa estrutura, início, meio e fim, Aurora é o presente e o futuro, tocado ao jeito do passado. Toda a sua composição tem um toque de génio, acompanhado pelo instrumental e pelo grupo coral que desenha os seus caminhos. É também notório o trabalho de Tó Pinheiro da Silva na masterização e mistura, e todo o design do álbum e fotografia, que ficou a cabo da Duck.Production.

O disco já está à venda e pode também ser ouvido no Spotify.